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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Norman Cohn

Norman Rufus Colin Cohn, professor jubilado da Universidade de Sussex, que morreu em Cambridge no último dia do passado mês de Julho, foi mais longe do que qualquer outro investigador – ou do que qualquer dos autoproclamados profetas de verdades universais que atormentaram o século vinte – a iluminar a origem e eclosão de fanatismos políticos mortíferos como o nazismo alemão e o marxismo-leninismo soviético. Outros historiadores e filósofos – Cohn era ambas as coisas e também linguista – desmascararam alguns desses mitos e defenderam contra eles o valor da liberdade. De maneiras diferentes vêm ao espírito, por exemplo, Albert Camus batendo-se contra uma Rive Gauche intelectual rendida a Estaline e Karl Popper alertando o mundo académico anglo-saxão para os perigos contidos no próprio marxismo, e não apenas no leninismo, para a sobrevivência de qualquer sociedade aberta. A força e persuasão de Cohn vêm de ter estabelecido, através de movimentos messiânicos da Idade Média, a genealogia desses grandes horrores do nosso tempo radicando-a na ânsia de pureza e na distinção absoluta entre o bem e o mal do cristianismo primitivo, fonte de muitas explosões de intolerância ao longo da história europeia, incluindo as formas mais virulentas de anti-semitismo.

Nascido em Londres em conforto burguês, de pai judeu de origem alemã e de mãe católica, Norman Cohn fez educação secundária brilhante e a seguir, no colégio de Christ Church em Oxford, formou-se com distinção em línguas medievais e modernas, por lá ficando a investigar até 1939. Alistado no começo da guerra, serviu primeiro num regimento de elite e depois nos serviços de informação, onde interrogou prisioneiros de guerra nazis e refugiados russos do estalinismo, ganhando conhecimento chegado dos dois totalitarismos. Com a sua família alemã perseguida – parte dela, por fim, aniquilada – seguia o progresso de Hitler desde 1933 e esta experiência, em parte intelectual e em parte emocional, estimulou investigação histórica e sociológica que o foi afastando da linguística da sua formação. Em 1957 publicou 'A Busca do Milénio', seu livro mais célebre e importante; em 1963 passou a professor da Universidade de Sussex, lá dirigindo um centro dedicado ao estudo de genocídios e perseguições. Em 1963, em 'Mandato para Genocídio', expôs definitivamente o embuste dos 'Protocolos dos Sábios do Sião', documento apócrifo sobre supostos crimes israelitas, forjado para estimular anti-semitismo, como o do ódio nazi aos judeus. Em 1976, em 'Os Demónios Interiores da Europa', tratou da procura compulsiva de bodes expiatórios tantas vezes verificada em épocas e lugares que passem por graves crises económicas e sociais.

'A Busca do Milénio' é um estudo fascinante de movimentos milenários, também chamados messiânicos, sobretudo na Idade Média. Um pregador carismático convencia os seus fiéis de que este mundo estava prestes a acabar e vinha aí um novo mundo de felicidade sobre a terra; fundava com eles uma comunidade fanática que rejeitava os valores e a autoridade vigentes e aceitava o mande absoluto do chefe enquanto aguardava a bem-aventurança. Houve vários casos na Europa e acabaram todos muito mal, o mais célebre sendo o de Munster, onde o chefe foi despedaçado com tenazes em brasa em 1535 pelo poder tradicional restabelecido.

Outros viram paralelos entre o milenarismo medieval, a promessa de mil anos de Reich e os amanhãs que cantam. Mas enquanto historiadores marxistas consideravam que pregadores messiânicos na Europa da Idade Média (e chefes camponeses cujas revoltas proféticas tivessem tido morte macaca; por exemplo, António Conselheiro, de Canudos) eram precursores do caminho de progresso gizado por Marx e Lenine, Cohn considerava que todos – Marx, Lenine, pregadores e camponeses – se enganavam ao acreditarem numa única via de salvação e que os resultados catastróficos desse engano tinham sido demonstrados no nosso tempo por nazismo e comunismo.

José Cutileiro