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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Mildred Loving (1940 - 2008)

Mildred Delores Loving, Jetter de seu nome de solteira, que morreu de pneumonia na sua casa de Central Point, no Estado norte americano de Virgínia, no passado dia dois do corrente, deixou o seu nome para sempre ligado à luta pela igualdade racial perante a lei nos Estados Unidos, havendo sido protagonista, com o marido, de caso célebre levado de instância em instância até ao Supremo Tribunal de Justiça, em Washington, o qual, em 1967, declarou inconstitucionais as leis ainda então vigentes em 20 Estados da União que criminalizavam o casamento de pessoas de raças diferentes, última área da vida de todos os dias onde a segregação racial ainda vigorava. Em Loving versus Virgínia, a decisão do Supremo foi unânime embora não correspondesse ao sentimento popular branco maioritário nessa altura e por longo tempo ainda em muitos Estados do Sul. Estes, depois da sentença, tiveram de modificar as respectivas legislações estaduais mas levaram o seu tempo. O último, Alabama, só o faria 33 depois.

Mildred Jetter, cuja mãe era em parte Rappahannock e cujo pai em parte Cherokee, preferia considerar-se índia mas tal como o resto da família fora classificada como preta; Richard Loving era filho e neto de brancos e a história de ambos era simples. Vizinhos em pequena vila, tinham-se conhecido nos bancos da escola, ou melhor, das escolas, porque Richard fora à dos rapazes brancos e ela à das meninas pretas. Começaram muito cedo a sair juntos e o seu namoro não causava escândalo na terra nem oposição das famílias - naquela parte pobre da Virgínia rural as pessoas eram tolerantes e, apesar da proibição de casamento, havia muita gente amulatada, que às vezes passava por branca nas cidades. Quando Mildred tinha dezoito anos engravidou e ambos entenderam que deveriam casar-se. Não para dar exemplo, ou se baterem por uma causa célebre; por isso foram a Washington, que é ao lado, onde não havia obstáculo a casamentos inter-raciais, lá deram o nó, voltaram para casa e penduraram na parede do quarto o atestado de casamento emoldurado. Cinco semanas depois, a 11 de Julho de 1958, alertados por denúncia anónima, o xerife da vila e dois ajudantes entraram-lhes pelo quarto a meio da noite. 'Quem é essa mulher que você tem na cama?', 'Sou a mulher dele', respondeu Mildred, enquanto o marido apontava para o atestado emoldurado. 'Isso cá não vale nada', respondeu o xerife.

Com efeito não valia. Foram os dois parar à cadeia, onde ele passou essa noite e ela mais algumas, levados a tribunal, acusados de violarem a lei da Integridade Racial da Virgínia, o que não negaram, e condenados a um ano de cadeia cada um, que foram substituídos por obrigação de residirem fora do Estado vinte e cinco anos e nunca o visitarem juntos. Ao passar a sentença, o juiz fez uma declaração notória que viria a ser citada pelo Presidente do Supremo quando da anulação da sentença: 'Deus todo poderoso criou as raças branca, preta, amarela, malaia e vermelha e pô-las em continentes separados. E, se não houvesse interferência com este Seu arranjo, não surgiriam casamentos assim. O facto de Ele ter separado as raças mostra que não tinha intenção de as misturar'.

Os Darling foram viver para Washington, nasceram-lhes três filhos mas tinham saudades da Virgínia e queriam voltar para lá. Como Mildred disse, na passagem dos 40 anos de Darling versus Virgínia (Richard morrera entretanto num desastre), bateram-se, antes de mais nada, pela sua felicidade pessoal e não por uma causa. Mas a causa existia. Quando, em 1963 Robert Kennedy, ministro da Justiça, recebeu uma carta do casal, pô-los em contacto com a Associação Americana de Direitos Cívicos que lhes facultou advogados, a batalha legal começou e a vitória no Supremo ficou um marco capital na marcha da liberdade dos americanos feita a grandes passos no último meio século. Tão grandes que, para o ano, Barack Obama, filho de branca e de preto, poderá ser Presidente dos Estados Unidos.