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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Lucie Aubrac

Lucie Bernard Samuel - Aubrac foi nome de guerra que ela e o marido adoptaram na clandestinidade durante a ocupação nazi de França e guardaram para sempre - que morreu na passada quarta-feira, dia 14, no Hospital Suíço de Paris em Issy-les-Moulineaux, era um dos últimos sobreviventes daqueles homens e mulheres que entre 1940 e 1944 por patriotismo e por apego à liberdade e à defesa dos direitos do homem se bateram contra a prepotência criminosa dos alemães e dos seus cúmplices do governo colaboracionista de Vichy. Na defesa desses ideais muitos perderam a vida - "Somos os vencidos provisórios de um destino injusto", escreveu o historiador Marc Bloch, fuzilado pelos alemães - outros foram vítimas de torturas, alguns contaram depois da vitória as suas histórias para edificação de contemporâneos e aviso a vindouros. Essa obrigação de testemunhar acompanhou até ao fim Lucie Aubrac que em livros, artigos, um filme que ajudou a fazer sobre a sua vida durante a guerra e numerosas palestras a estudantes de liceus e de universidades explicou constantemente a iniquidade do colaboracionismo e a nobreza fraterna da Resistência.

É ironia pungente do destino que muitos desses defensores abnegados da liberdade e da justiça - incluindo Lucie Aubrac - fossem também militantes convictos do Partido Comunista francês, ortodoxo e estalinista. Por isso, de resto, enquanto o Pacto Germano-Soviético durara a acção deles fora quase inexistente mas, a partir da invasão da União Soviética pelas tropas de Hitler, forneceram em muitas partes de França o esqueleto da organização da Resistência e a quantidade maior de sacrifício, de tal maneira que quando a vitória Aliada se desenhou claramente no horizonte muita gente se convenceu de que não seria possível governar a França 'sem o partido dos fuzilados'.

Lucie Aubrac viria com efeito a ser membro da Assembleia Consultiva estabelecida depois da Libertação mas, ao contrário da vasta maioria dos seus correligionários, começara a resistir muito antes da entrada da Rússia na guerra. Filha de vinhateiros do Mâcon, doutora em história e professora brilhante que se batia antes de 1939 pelas vítimas do fascismo na Europa e outras causas nobres, casada com Raymond Samuel, engenheiro de boa burguesia judia, poderia ter partido para os Estados Unidos com o marido que lá estudara e arranjara para ambos vistos permanentes. Mas, por patriotismo activo, o casal decidiu ficar em França e começou, logo em 1940, a trabalhar na Resistência, ligado à rede clandestina fundada em Lyon por Emmanuel d'Astier de la Vigerie, aristocrata gaulista que lhe chamava 'Madame Consciência' e com quem Lucie lançou um jornal. Os gaulistas eram o outro pilar da Resistência francesa e em muitas partes de França a cooperação com os comunistas foi exemplar. De Gaulle, apesar de condenado à morte por Vichy, tinha ainda credenciais junto do funcionalismo. Lucie conseguiu tirar duas vezes o marido da cadeia; a segunda, rocambolesca, meteu assalto a uma carrinha com presos e abate de polícias por ela e outros resistentes. A primeira depois de Samuel ter sido preso em Março de 1943 sob o pseudónimo de Vallet levou Lucie, no começo de Maio, a dizer ao delegado do ministério público de Lyon: "Eu represento aqui a autoridade do general De Gaulle que é o chefe de Vallet. Se amanhã no Palácio de Justiça não assinar a libertação dele, se ele não estiver cá fora na manhã de 14, o senhor não verá o pôr-do-sol nesse dia". A ordem de libertação foi assinada a 10.

Ligados ao herói mais célebre da Resistência, o gaulista Jean Moulin, assassinado na cadeia pelos alemães, os Aubrac ganharam em 1998 um processo por difamação contra o historiador que os acusara de terem denunciado Moulin à Gestapo. O seu prestígio não sofreu com a calúnia.

Sem a guerra Madame Consciência teria sido uma agitadora incansável. Na guerra, encontrou a sua hora. Aí, só visão e coragem como as suas podiam derrotar o mal e dar exemplo do bem.



OBITUÁRIO

Mojá Ghosananda



1929-2007 Patriarca supremo do Camboja pelo papel que desempenhou na reconstrução do budismo no seu país, após o massacre de religiosos pelo regime comunista de Pol Pot, uma das mais altas personalidades do budismo Theravada. 'Profecta da reconciliação' e apóstolo da não-violência, ficou conhecido como 'o Ghandi do Camboja'. Indicado várias vezes para o Prémio Nobel da Paz. Dia 12, em Nova Iorque, onde residia desde os anos 80, de causa desconhecida.

Inmaculada Echevarria



1955-2007 Portadora de distrofia progressiva desde os 11 anos, abriu caminho para a discussão da eutanásia em Espanha. Passou os últimos 20 anos presa a uma cama de hospital. A 20 de Novembro, pediu que desligassem o equipamento que a mantinha viva há dez anos, tendo obtido o parecer favorável do Conselho Ético da Andaluzia. Dia 14, no Hospital de San Juan de Dios, na Andaluzia, depois de ter sido desligada do ventilador.

Stuart Rosenberg



1927-2007 Realizador de cinema. Ver ACTUAL.



Gareth Hunt (1942-2007), célebre actor britânico de séries televisivas, em Surrey, Reino Unido, de cancro Luther Ingram (1937-2007), cantor e compositor de 'R&B (Rhythm and Blues)', em Illinois, de paragem cardíaca Betty Hutton (1920-2007), famosa actriz do musical norte-americano nos anos 40, em Palm Springs, Califórnia, de causa natural Pedro Udaondo (1934-2007), mito do alpinismo basco, nos Picos da Europa, na sequência de uma queda quando subia o pico Jou de los Asturianos Sebastien Emmanuel Gressez (1978-2007), músico francês da banda 'Southside Crew', no Rio de Janeiro, assassinado ao reagir a um assalto Taha Yassine Ramadan (1938-2007), vice-presidente de Saddam Hussein, em Bagdade, enforcado.