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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Lady Jeanne Campbell (1928 - 2007)

Jeanne Louise Campbell, filha do primeiro casamento do futuro 11º duque de Argyll, "playboy" que, no dizer da mãe de Jeanne, que o conhecera aos 17 anos num casino em Le Touquet, tinha imenso "charme" mas pouco juízo às mesas de jogo e cuja terceira mulher viria a ser protagonista de um escândalo da sociedade londrina dos anos cinquenta (ficou célebre a fotografia da duquesa ajoelhada nua, acarinhando o 'homem sem cabeça', de pé e também nu - seria o duque de Edimburgo, perguntavam as más línguas - não era); neta de lorde Beaverbrook, magnata canadiano da imprensa inglesa, amigo íntimo de Winston Churchill, seu ministro das munições durante a guerra, um dos homens mais influentes da Grã-Bretanha desse tempo antes da televisão em que a opinião era muito formada por jornais de que ele era dono e teve até ao fim marcada predilecção pela neta, ajudando-a na carreira de jornalista, com o lugar de correspondente do 'Evening Standard' em Nova Iorque (também para a mandar embora de Londres onde ela tinha um "affaire" com sir Oswald Mosley, chefe dos fascistas ingleses, que fora internado durante a guerra contra a Alemanha nazi e seduzira a rapariga, em parte, na esperança de poder fazer propaganda nos jornais do avô, mas Beaverbrook era antifascista militante, detestava Mosley e não se deixou comover); terceira mulher de Norman Mailer (ele era o seu primeiro marido), que se apaixonara por aquela beleza aristocrática europeia na ressaca de um divórcio atribulado depois de ter esfaqueado a segunda mulher, a engravidara e com ela vivera um ano até o amor murchar (do que Jeanne sentira sabe-se pouco e não parece que houvesse muito mais a saber; anos mais tarde, quando Gore Vidal lhe perguntou o que é que a atraíra em Mailer, respondeu que nunca tinha ido antes para a cama com um judeu), morreu no fim de Junho na modesta casa de Greenwich Village, onde vivia há anos, mas só nos últimos dias de Setembro a sua morte foi anunciada. Ao enterro vieram o 13º duque de Argyle e sua mãe, viúva do 12º duque.

Marcada desde o começo por homens um pouco extraordinários, a vida de Jeanne foi recheada deles, o que lhe deu mais notoriedade do que os seus trabalhos de jornalista. A seguir à guerra começara por querer ser actriz, para o que tinha talento, chegando a ser aceite da companhia do Old Vic. Depois adoecera, vivera alguns anos com o avô com quem viajara por quase todo o mundo até que o caso Mosley a desterrara para Nova Iorque e a ancorara até ao fim da vida na profissão de jornalista. Tinha prosa escorreita e aprendera do avô algumas regras elementares como as que este enunciara numa carta com conselhos já ela atravessara o Atlântico:

"Dê relevo ao interesse humano. Ponha o melhor morango no cimo do cabaz. Escreva frases curtas. Corte, corte, corte. Entreviste sempre as pessoas cara a cara. Nunca reescreva textos de outros jornais. Alargue sempre o círculo das pessoas que conhece - mesmo que tenha de aceitar convites de chatos. Não pare".

Do jornalismo de Jeanne nada é recordado hoje, salvo uma correspondência para o 'Evening Standard' de Londres sobre o enterro de John F. Kennedy, em que escreveu que nesse dia Jackie Kennedy "dera ao povo americano a coisa que sempre lhes faltara - majestade".

John F. Kennedy que Jeanne conhecera biblicamente, como conhecera Nikita Krustchov e Fidel Castro. Estes foram os de mais nomeada e houve muitos outros, mas talvez o mais importante na sua vida tenha sido Henry Luce, proprietário da 'Time Magazine' e marido de Claire Booth Luce, escritora, política e embaixadora. Henry esteve quase a deixá-la por Jeanne mas hesitou, e entretanto Mailer apareceu. Um amigo de Jeanne que considerava Henry um chato perguntou-lhe um dia: "Mas de que é que vocês falam?' Ela, que sempre tivera a cabeça arrumada - a Beaverbrook, que lhe perguntara, quando ela tinha quatro anos, que fazer à mãe alcoólica, dissera : "Cortar-lhe a mesada, avô" -, respondeu: "A gente não fala, meu pateta. A gente fornica".