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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Ingmar Bergman

Ernst Ingmar Bergman, realizador de mais de cinquenta filmes, que morreu em sossego na manhã da passada segunda-feira na sua casa na ilha de Farö, ao largo da costa báltica da Suécia, foi um dos autores de génio do século XX, considerado por muitos dos seus admiradores – colegas, críticos, estudiosos da sétima arte e curiosos interessados – o maior criador que o cinema nos deixou. Mesmo para quem não aceite em tais reinos hierarquias assim, na segunda metade do século XX Bergman foi plantando marcos inesquecíveis: nos três anos entre 1955 e 1957, 'Sorrisos de uma Noite de Verão', 'O Sétimo Selo' e 'Morangos Silvestres'; em 1963, 'O Silêncio'; em 1966, 'Persona'; em 1972, 'Lágrimas e Suspiros'; em 1973, 'Cenas da Vida Conjugal'; em 1979, 'Sonata de Outono'; em 1982, 'Fanny e Alexander'; em 2003, 'Saraband', sequela, trinta anos depois, da vida conjugal, com os mesmos actores. Os seus filmes, uns mais atormentados do que outros (dando-se menos pela tormenta em 'Fanny e Alexander'), giram à volta de vigências constantes na vida de Bergman: as relações do homem com Deus (ou com a Sua ausência para quem, na Sua veneração, tivesse sido criado); as relações entre homens e mulheres num mundo em que a mulher passara de costela de Adão portadora da maçã a agente livre e igual; a relação entre crianças e crescidos. Filho de pastor luterano, depois capelão da corte, que lhe batia e o fechava de castigo num armário escuro, casado cinco vezes e pai de nove filhos, nem todos nascidos de mulher legítima, ninguém melhor do que Bergman estava preparado para sobreviver às guerras da vida de todos os dias e ser capaz depois de usar o seu dom para as contar em imagens lapidares.

Ao bulir nos filmes com a ordem da sociedade e os fundamentos da família fez mais inimigos do que admiradores na burguesia sueca a que pertencia e durante anos a sua fama internacional teve para aquela um travo incómodo. A Suécia gosta de sentir que pesa mais no mundo do que o tamanho que tem mas prefere que as suas celebridades sejam politicamente correctas: Selma Lagerlof, do menino escarranchado no ganso; os sábios bons que dão os prémios Nobel; Dag Hammarskjoeld, mártir da manutenção de paz; Ava e Gunnar Myrdall, economistas contra a pobreza. Bergman era nota dissonante – é preciso ir ao começo do século XX para encontrar compatriota seu de génio comparável em veemência inconformista: August Strindberg, o dramaturgo da 'Menina Júlia' e da 'Dança dos Mortos', influência importante em Bergman.

Porque Bergman era – e considerava-se -, antes de tudo mais, um homem do teatro. "Metteur en scène" ímpar, dirigiu o Dramaten, teatro nacional de Estocolmo, e foi lá, durante um ensaio, que em 1974 a polícia o prendeu acusado de fugir ao fisco. Viria a ser completamente ilibado mas o trauma causado pela humilhação injusta fora tremendo. Deixou a Suécia, veio a estabelecer-se em Munique, onde fez filmes e produziu óperas. Anos depois foi convencido a voltar e, para celebrar o regresso, pôs em cena no Dramaten um 'Rei Lear' (em sueco) de que shakespeareanos exigentes ainda hoje falam, admirativos. Ao fim de duas horas empolgantes de tragédia o pano cai sobre os sobreviventes, abatidos e aparentemente reconciliados por tantas mortes absurdas. Mas sobe logo a seguir e mostra-os, num relâmpago, outra vez à espadeirada uns aos outros, antes de cair de vez. Na estreia de gala, em Março de 1984, de "smoking" e fato comprido, o público aplaudiu durante oito minutos e Bergman veio ao palco. Era tributo pago ao génio do filho pródigo mas era também, por uma vez sem exemplo, a comunhão da burguesia bem-pensante com o rebelde iconoclasta que derrotara o fisco.

Na Europa de hoje há pouca angústia sobre a existência ou não existência de Deus; entre homens e mulheres as tragédias vêm de 'crimes de honra' em comunidades imigrantes; o cinema sofre concorrências que lhe roubam futuro. Bergman foi-se embora no começo da semana e não veremos outro como ele.