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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Heinz Berggruen (1914-2006)

Heinz Berggruen que morreu no Hospital Americano de Neuilly-sur-Seine, à saída de Paris, na sexta-feira, 23 de Fevereiro, e era conhecido do público em geral sobretudo por possuir muitas obras de Picasso, foi um marchand e um coleccionador de arte moderna dos mais notáveis do século XX. A vários títulos.

Tinha, de entrada, uma sólida formação em literatura e história de arte, um apurado sentido crítico e escrevia bem; estudara primeiro nesse templo de conhecimento que era a Universidade Humboldt, em Berlim, e depois nas universidades francesas de Grenoble e Toulouse. Tornara-se colaborador regular do Frankfurter Zeitung, percursor do Frankfurter Allgemeine Zeitung, até que o jornal lhe mandara dizer que deveria passar a assinar os seus artigos H. B.. Hitler estava no poder, a campanha contra os judeus tinha sido desencadeada, o seu apelido de família - uma boa família burguesa de Berlim - era inconfundivelmente judeu e, por isso, ameaçadoramente incómodo.

Heinz Berggruen resolveu, em 1936, ir-se embora para os Estados Unidos, fixou-se em S. Francisco, onde continuou a estudar história e teoria de arte e a trabalhar como crítico de arte free-lance para The San Francisco Chronicle. Viveu um período animado e intenso: conheceu então o casal de pintores mexicanos Diego Rivera e Frida Kahlo e foi amante dela. Ligação curta, intensa e tumultuosa (amores com Frida nunca foram fáceis - dois terços dos cerca de cento e cinquenta quadros que ela nos deixou são auto-retratos e tanto narcisismo fazia doer à sua roda) a que Berggruen viria a dedicar longas páginas das suas memórias - Fui o meu melhor cliente - publicadas muitos anos mais tarde em Paris. Em S.Francisco começou a coleccionar, comprando em 1940 a sua primeira aguarela, de Paul Trèfle. O bicho que então o mordeu nunca mais o largou e a solidez de gosto, de critério e de talento com que soube reunir a sua colecção é outro dos seus títulos de nota.

Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, alistou-se e, com o posto de sargento, combateu na Europa. Quando a guerra acabou decidiu ficar em Paris e abrir uma galeria na margem esquerda, primeiro na Place Dauphine, depois na Rue de l'Université. A venda de um quadro de Paul Klee, que comprara em Nova Iorque, deu o arranque ao negócio. Foi conhecendo artistas, entendia-se bem com eles e, a pouco e pouco, teceu a sua clientela e a sua colecção. Esta assumiu a certa altura proporções importantes: compreendia, entre outros, Cézanne, Seurat, Van Gogh, Braque, Giacometti, Paul Klee (de quem, em 1972, ofereceria doze quadros ao Museu de Arte Moderna e, mais tarde, noventa ao Metropolitan, ambos museus de Nova Iorque) e, evidentemente, Picasso a quem, em 1949, o poeta dadaísta Tristan Tzara o apresentara. Berggruen diria depois que o olhar intenso do pintor o impressionara imediatamente e entre os dois homens criou-se uma amizade sólida que favoreceu o marchand na compita pelas obras do artista. Da colecção Berggruen viria a constar quase uma centena e meia de Picassos. Em 1980, para se dedicar inteiramente a ela, encerraria a sua actividade de marchand.

O que vai acima teria dado para encher uma vida - sobretudo porque o rigor nas aquisições nunca o abandonou. Indignava-se, de resto, com os preços estapafúrdios e o rumo que o negócio tomava, agora que bonus de milhões de dólares eram pagos todos os anos a dirigentes de empresas. Deixara de se coleccionar por intuição e amor - as pessoas tinham passado a comprar como se organizassem uma carteira de títulos.

Mas havia mais em Heinz Berggruen, para além da sua relação com a arte. Em 1997, num gesto raro de reconciliação, aceitou convite para expor obras da sua colecção em Berlim, e vendeu-as depois à cidade, por um preço simbólico. Lá, o Museu Berggruen expõe hoje Picassos, Matisses, Klees, artistas decadentes que o regime nazi banira, por dom de um filho do povo que o mesmo regime quisera eliminar da face da terra.



OBITUÁRIO

Manuel Galrinho Bento

1948-2007 Guarda-redes do Benfica durante 20 anos consecutivos, Manuel Bento morreu na quinta-feira de manhã, no Hospital do Barreiro, onde chegou já sem vida. Na véspera tinha sido uma das presenças marcantes na Gala do 103º aniversário do clube, que serviu em 465 jogos, conquistando o invejável palmarés de oito campeonatos, seis taças de Portugal e duas supertaças. Entrou no Guiness por ter defendido a baliza benfiquista durante mais de mil minutos seguidos sem sofrer um golo. Com 63 internacionalizações, acabaria por abandonar o futebol aos 42 anos, deixando o seu nome nas melhores páginas da história do clube da Luz. Morreu com 58 anos.

Arthur Schlesinger

1918-2007 Escreveu discursos para os presidentes Franklin Roosevelt e John F. Kennedy, de quem foi amigo e confidente. Historiador americano, ficou conhecido, sobretudo, pelas suas obras literárias, que lhe valeram dois prémios Pulitzer e um National Book Award. 'Robert Kennedy e o Seu Tempo' e 'A Thousand Days' são duas das suas obras mais importantes. Relatam as suas memórias dos anos da administração do 35º Presidente dos EUA, que assessorou até ao seu assassinato, em 1963. Schlesinger morreu, no dia 1, em Manhattan, vítima de ataque cardíaco.



Jurg Federspiel (1932-2007), escritor suíço, foi encontrado morto numa barragem do rio Reno, mês e meio depois de ter sido dado como desaparecido. A polícia está a investigar. Herman Brix (1907-2007), actor de Hollywood e vencedor de uma medalha olímpica no lançamento do dardo, em Los Angeles, na sequência de uma fractura da anca. Na tela foi Bruce Bennett e Tarzan. Billy Thorpe (1947-2007) guitarrista e cantor, lenda do rock australiano, em Sydney, de ataque cardíaco. Bobby Rosengarden (1925-2007) Baterista de jazz que trabalhou com músicos como Igor Stavinsky ou Jimmi Hendrix, na Florida, de problema renal. Charles Forte (1999-2007) Empresário fundador da cadeia hoteleira Travelodge, de causa natural em Londres.