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José Cutileiro, In memoriam

Ghislaine de Polignac (1918 - 2011)

A princesa francesa foi uma das mulheres que mais animaram colunas de escândalos e de intrigas mundanas, nos dois lados do Atlântico, nas décadas a seguir à II Guerra Mundial.

José Cutileiro (www.expresso.pt)

A princesa Ghislaine de Polignac, nascida Ghislaine Brinquant em Biarritz a Victor Brinquant e a sua mulher, Simone Durand de Villers, de uma família das Landes, casada em 1939 em Paris com o príncipe Edmond de Polignac, chefe de uma das grandes casas de França, perdidamente apaixonado por aquela rapariga loira e singularíssima de quem viria a divorciar-se sete anos mais tarde indo logo a seguir a tribunal tentar - em vão - impedi-la de usar o título de princesa de Polignac (mudaria apenas de princesse Edmond de Polignac para princesse Ghislaine de Polignac), que morreu em Janeiro na sua casa de França e por cuja alma foi celebrada uma missa em Paris no passado dia 3, foi uma das mulheres que mais animaram colunas de escândalos e intrigas mundanas, de um e do outro lado do Atlântico, nas décadas a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial, falando de outras e dando que falar dela (num pequeno poema satírico com conselhos a estrangeiros que quisessem conquistar Paris escrevera c'est chez Pam qu'on va baiser - Pam era a nora de Churchill que viria a morrer em 1997, viúva de Averrell Harriman depois de longos casos, inter alia com Gianni Agnelli, afogada na piscina do Ritz em Paris, para onde Clinton a nomeara embaixadora dos Estados Unidos) sendo protagonista ou testemunha de histórias escabrosas e divertidas de que ficamos a saber não só por fragmentos de memória de fofocas coevas mas porque muitos amigos e amigas da princesa eram homens e mulheres de letras, deixando um rastro de romances, de livros eruditos (talvez a biografia de Talleyrand mais perceptiva e bem escrita se deva a Duff Cooper, ministro de Churchill, embaixador britânico em Paris a seguir à guerra, femeeiro inveterado e amante de Ghislaine), livros de memórias (a mulher de Duff, Lady Diana Cooper, lembra nas dela o escândalo quando Ghislaine fora posta na rua de casa dos milionários americanos que visitava em Nova Iorque depois de a mulher ter voltado cedo do cabeleireiro e a ter apanhado na cama com o marido, indo dar a notícia aos outros convidados: "Tenho imensa pena dela. É verdade que, entre cem milhões de americanos, foi um disparate ir escolher aquele, mas coitada ter de voltar para Rheims a toque de caixa, com o rabo entre aquelas pernas desgovernadas. Uma humilhação".

No seu diário, publicado postumamente pelo filho (também homem de letras), Duff conta do primeiro encontro dos dois em tête à tête, num restaurante parisiense onde ele a convidara para almoçar. "É uma pequena como eu gosto, óptima companhia, formidável apetite de prazer, sem paciência para rodeios em amor". Ela contou-lhe que, havendo casado e sendo mãe de quatro crianças, considerava que cumprira o seu dever para com a sociedade e estava agora disposta sobretudo a divertir-se. No diário Duff notou não ter dúvida de que ela seria bem sucedida e acrescentou: "Farei o que puder para a ajudar".

Com efeito fez - não que ela precisasse de muita ajuda. O apetite de prazer dos dois era lendário. As infidelidades conjugais de Duff haviam começado na lua-de-mel e não pararam até à sua morte repentina aos 63 anos (publicara meses antes um livro de memórias a que chamara "Os velhos esquecem". Velho aos 62 anos? Eram outros tempos). Lady Diana teve também casos, mas poucos, e presidia benevolamente ao circo de aventuras do marido consolando mesmo às vezes algumas que sofriam. No tempo de Ghislaine, Duff tinha mais duas amantes e Ghislaine também se governava: um dia na suite de hotel onde vivia, escondera Duff que chegava enquanto outro saía.

Ghislaine era amiga dos duques de Windsor; Wallis comprara-lhe prêt a porter das Galleries Lafayette que a princesa promovia. A vida de festas nunca a fizera perder a cabeça e antes de se falar nisso fora uma public relations. Estava sempre em grande forma física; aos oitenta era ainda uma bela mulher. Nos últimos anos namorava um barão francês bon vivant que, apesar de mais novo, morreu antes dela.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de fevereiro de 2011