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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Ernest Gallo

Ernest Gallo, que morreu no passado dia 7 na sua sumptuosa casa de Modesto, num dos vales mais férteis dos Estados Unidos, a uma hora e meia por estrada de S. Francisco da Califórnia, no meio de vinhedos e lagares que, durante sete décadas e meia no negócio do vinho, fora criando ou comprando, primeiro em sociedade com o irmão Júlio, mais novo de um ano, e, depois da morte deste num desastre de automóvel em 1993, com filhos, sobrinhos e netos, num esforço constante e obcecado que levara a firma E. & J. Gallo das suas origens toscas em 1933, a aproveitar o fim da Lei Seca - dizia-se que começara com cinco mil dólares emprestados pela sogra de Ernest e um manual de fabrico de vinho emprestado pela biblioteca municipal do sítio - até à dimensão que hoje tem da maior empresa produtora de vinhos do mundo - em 2006, setenta milhões de caixas de garrafas com rótulos de Gallo deixaram a Califórnia; calcula-se que cerca de um quarto dos vinhos consumidos nos Estados Unidos saiam lá de casa - cometeu dois feitos notáveis, além de ter sido mais um exemplo da aventura americana mítica que mantém o moral do povo: o homem que do nada sobe a pulso até fortuna inimaginável (também em 2006, a revista 'Forbes' numerou-o 283 entre os 400 americanos mais ricos, avaliando-o em 1,2 mil milhões de dólares).

Os dois feitos notáveis estão ligados. Ernest Gallo, mais do que qualquer outra pessoa, levou os americanos a beberem vinho, o que significou em largas faixas dos Estados Unidos uma revolução cultural. Ao irmão Júlio também coube mérito: era ele quem dirigia a feitura do vinho enquanto Ernest o vendia - dizia-se, de resto, que Júlio queria produzir tanto vinho que o irmão já não conseguisse colocá-lo, e dizia-se que Ernest queria conseguir tantas encomendas que a produção do mano não chegasse para as satisfazer. Eram, com efeito, os dois implacavelmente competitivos mas Ernest tinha, segundo todos os testemunhos, génio invulgar para o negócio e para a arte de vender; das origens humildes até ao apogeu, o "marketing" da empresa foi concebido e controlado por ele. Começara por baixo: os primeiros vinhos - melhor seria dizer as primeiras mistelas com álcool - postos no comércio pelos manos Gallo eram, deliberadamente, de muito ruim qualidade. Destinavam-se sobretudo aos negros pobres do Sul do país (seriam o equivalente do 'vinho para o preto' do nosso próprio colonialismo) e a marca mais conhecida fora buscar o nome - Thunderbird - a um modelo de automóvel Ford. Chegou a haver escândalo e, nos anos setenta, as práticas de fabrico dos Gallo foram investigadas pelo Governo Federal. Mas, a partir dessa altura, o sucesso obrigou-os a melhorar a qualidade do produto; a pouco e pouco foram aparecendo no mercado vinhos de mesa perfeitamente decentes e até alguns que podiam pedir meças aos de casas tradicionais europeias.

Com isso veio o segundo feito de Ernest Gallo. As suas persistentes campanhas de promoção mudaram tanto o gosto dos americanos que a Califórnia se transformou na pátria de alguns dos melhores vinhos de mesa do mundo. Os maiores dentre eles têm vindo de outras casas - por exemplo, Robert Mondavi e o Barão Philippe de Rotschild (do Castelo Mouton do mesmo nome, em Pauillac) criaram o néctar que é engarrafado sob o nome de Opus One) - mas, sem os Gallo, o aperfeiçoamento e requinte da produção vinícola californiana não teriam tido lugar. De há um quarto de século para cá, em provas cegas, vinhos da Califórnia têm sistematicamente batido os melhores Grands Crus de Bordéus. Sentindo o gosto e a mente americanos, Ernest associou-se também a produtores em França e exportou de lá para os Estados Unidos monocastas sob a marca Bicicleta Vermelha que, quando foi lançada, em 2003, interrompeu o declínio da venda de vinhos franceses na América.

Numa entrevista dada aos 90 anos disse: "Em tudo quanto nos metemos, o meu irmão e eu nunca duvidámos do sucesso. Não fazíamos o impossível. Fazíamos o óbvio".



OBITUÁRIO

António Carlos Manso Pinheiro



1942-2007 Editor, foi presidente da mesa da Assembleia-geral da APEL. Natural de Coimbra, Manso Pinheiro foi, durante 38 anos, o editor da Estampa, chancela criada em 1968 com autores como Luiz Pacheco, Oliveira Marques e Mário-Henrique Leiria. Dia 14, cerca de um mês depois de uma operação a um cancro no pâncreas.

Geraldo Mello Mourão



1917-2007 Jornalista, poeta e escritor brasileiro, candidato ao Prémio Nobel em 1979. Professor de História e Cultura da América na Universidade Católica de Valparaíso, no Chile, nos anos 60, e primeiro correspondente sul-americano ('Folha de São Paulo') na China, nos anos 80. Preso 18 vezes por razões políticas. Dia 9, no Rio de Janeiro, de problemas respiratórios.

Jorge Díaz



1929-2007 Um dos mais premiados dramaturgos chilenos, de origem argentina, autor de 'Topografia de um desnudo', que inspirou o novo filme da realizadora brasileira Teresa Aguiar. Arquitecto de profissão, recebeu em 1993 o Prémio Nacional de Artes Visuais. Dia 12, em Santiago, de cancro. Manuela Margarido 1924-2007 Poetisa são-tomense. Ver Actual.



Juan Carlos Portantiero (1934-2007), referência da sociologia argentina, em Buenos Aires, de insuficiência renal César Albiñana Carcía-Quintana (1920-2007), jurista espanhol, publicou mais de 50 obras e 3000 artigos, em Madrid, de causa desconhecida Bernd Freytag von Loringhoven (1913-2007), último sobrevivente da 'corte' de Hitler, em Munique, de causa natural.