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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Cardeal Lustiger

O cardeal Jean-Marie Lustiger, arcebispo de Paris entre 1981 e 2005, que morreu numa clínica parisiense de cuidados paliativos no passado dia 5, foi o único bispo francês desde há séculos a ter nascido judeu – Aaron Lustiger, filho de pais polacos ashkenazi imigrados em França, estabelecidos com loja de chapelaria no 12° bairro de Paris. Charles e Gisèle Lustiger não eram praticantes mas depois da invasão alemã de 1940, com medidas anti-semitas a serem tomadas pelas autoridades de Vichy, mandaram Aaron e a irmã para casa de amigos católicos em Orleães. A certa altura o próprio casal passou para a 'zona livre' da França onde Charles ficou até ao fim da guerra. Gisèle voltou a Paris para tomar conta da loja e em 1942 uma criada que se queria apropriar do apartamento da família denunciou-a. Foi levada para Drancy onde o Estado francês juntava judeus que capturava à espera de transporte para campos de concentração e de lá para Auschwitz onde viria a morrer. Em 1989, numa cerimónia de desagravo em que prelados católicos leram nomes de judeus franceses mortos durante a guerra, quando, na sua lista de nomes, o cardeal chegou ao de Gisèle Lustiger, acrescentou 'minha mãe' antes de continuar a leitura.

Do princípio ao fim da vida considerou-se judeu, o que chocava espíritos intolerantes quer do lado judeu quer do lado católico. Durante uma visita sua a Israel em 1995, o chefe dos rabinos ashkenazis, sobrevivente ele próprio de um campo de concentração, disse que, ao converter-se, Aaron Lustiger traíra a sua fé e a sua gente na hora mais negra e mais difícil, e recusou-se a admitir que ele continuasse a ser judeu. A resposta do cardeal foi peremptória: "Dizer que já não sou judeu é como renegar pai e mãe, avôs e avós. Sou tão judeu quanto todos os membros da minha família que foram massacrados em Auschwitz e nos outros campos de extermínio". Num livro de conversas suas publicado em 1987 disse: "O cristianismo é fruto do judaísmo. Nunca me passou pela cabeça negar a minha identidade judia. Pelo contrário". E gostava de se descrever assim: "Cardeal, judeu e filho de emigrantes".

Convertera-se e fora baptizado aos catorze anos em Orleães mas conhecera antes directamente o anti-semitismo descabelado da França e da Alemanha dos anos trinta. Acabada a guerra, formara-se em literatura pela Sorbonne, ordenara-se, fora cinco anos capelão da Sorbonne, depois, durante mais dez, dirigira um centro de formação de capelães, a seguir passara a pároco em Paris. Aí, em 1979, João Paulo II o foi buscar, nomeando-o bispo de Orleães; em 1981 promoveu-o a arcebispo de Paris e em 1983 criou-o cardeal.

A sintonia destes dois homens, ambos polacos de origem, intelectualmente superiores, enérgicos, modernos no estilo e conservadores em teologia, iria sacudir o catolicismo francês. Logo na sua consagração episcopal em Orleães, Lustiger dera sinal de rumo: contra regras elementares de protocolo não dedicara uma palavra ao seu predecessor, liberal e pacifista, próximo da Acção Católica. E se, à sua chegada a Notre Dame, o tradicionalista monsenhor Lefèbvre lamentara que o novo arcebispo não fosse "verdadeiramente francês", fora o geral do episcopado de França, imbuído do espírito de Vaticano Segundo, que se sentira provocado. Seguiram-se anos de confrontação em que Lustiger, apoiado pelo Papa, foi preferindo conservadores a liberais e os seus colegas não o nomearam a ele presidente da Conferência Episcopal. A sua acção era múltipla: fez mais do que qualquer outro para promover entendimento com protestantes, muçulmanos e judeus – juntamente com João Paulo II conseguiu desviar de Auschwitz o convento que a igreja polaca lá ia estabelecer. Era grande pregador e escrevia bem. A Academia Francesa ofereceu-lhe uma poltrona de imortal.

Mas mais impressionantes ainda do que os seus dons e virtudes eram o vigor e a força da sua fé. Disse-se de Aaron Jean-Marie Lustiger que ele foi, primeiro que tudo, um crente.

José Cutileiro