Siga-nos

Perfil

Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Brooke Astor

Roberta Brooke Russell à nascença, Mrs. Kuser de 1919 a 1930 quando se divorciou do primeiro marido que a enganava e lhe batia, Mrs. Marshall de 1932 a 1952 quando o segundo marido lhe morreu de repente nos braços, terminando assim o que seria o seu único casamento feliz e, finalmente, Mrs. Astor desde 1953 até uma pneumonia a ter levado na passada segunda-feira, 13, em Holly Hill, sua casa de campo de Briarcliff Manor no Estado de Nova Iorque – viúva, desde 1959, de Vincent Astor bisneto de John Jacob Astor, fundador da dinastia que à data da sua morte em 1848 era o homem mais rico da América – foi a primeira-dama da sociedade de Nova Iorque e a benemérita mais generosa e imaginativa que a cidade conheceu.

Há nos Estados Unidos fundações muito maiores do que a que o marido lhe deixara – a Ford, a Rockefeller, a Carnegie, por exemplo – mas a atenção dedicada pessoalmente por Brooke a todos os projectos, grandes ou pequenos, que a fundação ajudasse – seguindo conselho que lhe dera John D. Rockefeller III – e o uso hábil que fazia do seu grande leque de excelentes relações sociais a fim de obter outros apoios financeiros a obras lançadas com contribuição inicial sua, fizeram durante décadas com que o seu dinheiro obtivesse melhores resultados do que aqueles que os montantes dados pudessem sugerir à partida. Porque a fortuna dos Astor fora feita e se encontrava sobretudo em Nova Iorque, foi lá que concentrou a sua actividade filantrópica. Fez bem em muitos bairros pobres, que ia visitar impecavelmente vestida, como se fosse ver amigas na 5ª Avenida, para não ofender quem a recebia e subsidiou um leque variado de causas, até um centro veterinário para os animais domésticos de velhos e velhas. Algumas instituições nova-iorquinas célebres e emblemáticas foram grandes beneficiárias: o Museu Metropolitano de Arte, o Jardim Zoológico do Bronx, a Biblioteca Pierspoint Morgan – que Brooke Astor considerava uma jóia única no panorama cultural da cidade -, a Biblioteca Pública de Nova Iorque, que se tornou principal beneficiária da fundação em 1977. Tal como o Museu Metropolitano, esta última chamou Astor a uma das suas salas e um director disse isto de Brooke: "A atitude dela não é como a de outras senhoras de sociedade. Está realmente interessada, tem grande disciplina mental, leu imenso. É uma professora; ensina pelo exemplo. Quem passar um serão a conversar com Brooke Astor e no fim se sentir vazio tem um problema com as suas antenas". Brooke ela própria escreveu romances, volumes de memórias, artigos em revistas. Jogara ténis com Ezra Pound e levara Evelyn Waugh a Hollywood. Mas a vocação filantrópica, que o intelecto servia, era mais funda: "O poder, para mim, é a capacidade de fazer bem aos outros. O acto de dar dá-me força interior. Diria fosse a quem fosse: se tem dinheiro para três refeições por dia e lhe sobra tempo livre faça qualquer coisa pelos outros".

Assim era a benemérita que passava os dias em reuniões com peticionários ou a calcorrear ruas pobres e recebera a Medalha da Liberdade, mais alta condecoração civil americana. Ao lado, havia a senhora de sociedade que jantava todas as noites nas melhores casas, sempre à direita do anfitrião e que quase até aos cem anos não perdia um baile ('a música faz-me ferver o sangue'). Filha de um oficial distinto que acabaria almirante, casara aos dezassete anos com um milionário e quando Vincent Astor lhe propusera casamento era já figura conhecida da alta sociedade – que achava "snob" e enfadonha mas onde se divertia. Quando, quarenta e nove anos depois, David Rockefeller lhe celebrou o centenário com uma enorme recepção, Brooke tornara-se de facto a sua primeira-dama.

A longevidade permitiu-lhe assistir à mistura da riqueza antiga de uma idade dourada cujos gostos e maneiras eram os seus com a riqueza muito maior mas muito menos dourada, e aos seus olhos ordinária, das últimas décadas de Bolsa. Em 1980 declarou-se "nouveau pauvre".