Siga-nos

Perfil

Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Bob Denard (1929 - 2007)

Estreou-se na década de 60 no Katanga, onde as suas tropas ficaram conhecidas pelos métodos bárbaros. Mercenário para uns, patriota para outros.

Bob Denard, nascido Gilbert Bourgeaud e conhecido também durante alguns anos, nas Ilhas Comores, depois de uma conversão ao islamismo, por Sahid Mustafá Mahjub, casado sete vezes e pai de oito filhos, cuja morte foi anunciada no domingo passado por sua irmã Georgette na aldeia de Grayan-et-l'Hopital, terra da família perto de Bordéus onde cultivava vinha; agente privado de golpes de Estado e mais intervenções armadas em África, nos anos tumultuosos da Guerra Fria quando a União Soviética e o Ocidente se batiam pela lealdade política e as riquezas naturais dos novos países africanos, cujas independências haviam sido impostas por Washington e Moscovo a metrópoles europeias relutantes, foi herói e patriota para uns, mercenário e criminoso para outros. Quer numa das apreciações quer na outra, a sua estatura, quando medida contra o geral dos praticantes coevos da sua arte perigosa e ambígua, era a de um Gulliver entre liliputianos. Escreveu memórias que se venderam bem e inspirou o livro 'Dogs of War' de Frederick Forsyth.

Foi também um anacronismo e, em consonância com o resto da sua vida, um anacronismo paradoxal. Começou por aparecer ao mundo como uma relíquia de práticas de guerra vindas do século XVIII, anteriores à explosão dos nacionalismos europeus e ao serviço militar obrigatório, e acabou uma espécie de percursor das grandes companhias privadas a quem os governos ocidentais, com os Estados Unidos à cabeça, têm vindo a confiar cada vez mais missões de segurança e de defesa. Denard a derrubar presidentes nos Comores, Blackwater a atirar a matar para proteger ministros ou diplomatas em Bagdade e a Prosegur a verificar a segurança das bagagens no aeroporto da Portela são oficiais do mesmo ofício, encarregados de serviços diferentes.

Mas nem o mercenário do passado que já lá vai, a quem servir o Príncipe dava direito à pilhagem dos vencidos, nem o mercenário do futuro que já cá chegou, sindicalizado e com direito a reforma, correspondem na verdade ao personagem. Porque Denard era um patriota. Durante os anos da Guerra Fria foi considerado por muitos - e considerava-se ele próprio - o braço armado dos serviços secretos franceses. De tal maneira que, quando em 1999 foi julgado (e absolvido) por um tribunal parisiense - acusado do assassínio do Presidente dos Comores, Ahmed Abdalá, em 1989 -, foi sua testemunha um antigo chefe dos serviços de informação que fora braço-direito do célebre Jacques Foccart, o 'Senhor África' do general De Gaulle, o qual depôs que Denard nunca fizera nada em África contra os interesses da França. E nessa altura Denard já fizera muito, começando por comandar mercenários no Katanga que ficaram conhecidos por 'os horríveis', devido à brutalidade das suas acções, mas onde o mando de Denard ganhou fama. Na sua força, oficiais brancos e pretos marchavam lado a lado - até aí os brancos marchavam adiante - e em operações ia sempre à frente dos seus homens.

A seguir ao Katanga passou a outros lugares, incluindo Cabinda, Angola, Iémen, Gabão, a Nigéria no tempo da guerra do Biafra, o Benim, a Rodésia (hoje Zimbabué) e, longamente, os Comores. Muitas vezes apoiado pela África do Sul do "apartheid", batia-se geralmente por regimes pró-ocidentais contra forças alinhadas com Moscovo ou simplesmente libertárias. Nem tudo lhe correu bem: no Benim falhou um golpe de Estado; em França foi julgado duas vezes.

Neste nosso tempo, em que militares matam civis com mísseis disparados de bases seguras a centenas de quilómetros do alvo ou de aviões altos de mais para o alcance de baterias anti-aéreas, tem-se respeito por este homem que na última façanha, aos 66 anos, desembarcou com os seus de uma lancha e derrubou mais um Presidente dos Comores - para depois ser preso e devolvido a penates pelas Forças Armadas francesas. E recorda-se o comentário do Papa Urbano VIII, quando lhe vieram dizer que Richelieu tinha morrido: "Se há Deus, o cardeal terá muitas contas a dar. Se não há, levou uma bela vida".