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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Arthur Schlesinger

Arthur M. Schlesinger Jr., que nascera Arthur Bancroft Schlesinger mas mudara o nome do meio para Meier para ficar igual ao pai, também historiador e também de Harvard, acrescentando 'Junior' no fim, e morreu na noite de 28 de Fevereiro, num hospital de Nova Iorque, depois de ataque cardíaco sofrido durante um jantar de família num restaurante de Manhattan, foi um dos historiadores contemporâneos americanos mais influentes e mais conhecidos do público.

Os seus méritos académicos eram louvados, em Harvard que o nomeou professor aos vinte e nove anos, apesar de não se ter doutorado, e onde o seu curso era o mais procurado pelos estudantes e, depois de um longo intervalo dedicado ao serviço público e à política, em Nova Iorque, na cátedra Albert Schweitzer de Humanidades da City University. A falta de doutoramento era mais do que compensada pela qualidade e a quantidade de trabalho de Schlesinger: desde muito novo, mantivera durante longos períodos uma rotina em que debitava quatro a cinco mil palavras por dia. Tal como outros mestres de humanidades igualmente prolíferos, levava na cabeça uma espécie de Aristóteles-Moulinex que lhe permitia afeiçoar, ao tamanho requerido e dentro de estruturas lógicas adequadas, factos que lhe interessassem, colhidos em pesquisa de arquivo ou na observação da vida. A este dom "sine qua non" da produção académica juntava outros, não obrigatórios mas vantajosos: tinha um sentido nato da História e escrevia bem. Do seu primeiro livro, publicado aos vinte e um anos, biografia de obscuro político americano do século XIX, uma sumidade escreveu no 'New York Times' que ele anunciava "um novo e distinto talento no campo do retrato histórico". Com efeito, além de centenas de artigos sobre os mais variados temas - incluindo crítica de cinema -, os muitos tomos de história dos Estados Unidos que Schlesinger nos deixou compreendem uma reavaliação da presidência de Andrew Jackson, sétimo presidente norte-americano, e um estudo de Franklin Delano Roosevelt e do 'New Deal' dos anos trinta e quarenta do século XX, que abriram trilhos ainda hoje seguidos por historiadores.

O livro sobre Jackson valeu-lhe um primeiro Prémio Pulitzer, em 1945; o segundo viria, em 1965, com 'Mil Dias', dedicado à malograda presidência de Jack Kennedy, de quem Schlesinger fora conselheiro. A passagem pela Casa Branca foi o momento mais alto das suas várias intervenções na política dos Estados Unidos - em 1947, juntamente com Eleanor Roosevelt, John Kenneth Galbraith e outros, fundara o grupo Americanos pela Acção Democrática; fora escriba de discursos de Adlai Stevenson, candidato democrático contra Eisenhower, em 1952 e 1956; em 1973 publicaria um livro contra Nixon chamado 'A Presidência Imperial', em 2004 o seu alvo seria George W. Bush, em 'A Guerra e a Presidência Americana'. Na altura da eleição de Kennedy, em Outubro de 1960, Schlesinger era considerado um grande intelectual "engagé" na esquerda do Partido Democrata. Tão à esquerda que no gabinete lhe chamavam depois 'o pára-raios', por desviar sobre ele as fúrias dos republicanos. (Mais tarde, honra lhe seja feita, fulminou os disparates do pós-modernismo e do multiculturalismo.) De resto, quando o Presidente eleito fora a Harvard convidá-lo, Schlesinger achara-o inteligente, simpático - e demasiado à direita. Mas mergulhou na política com zelo de neófito: tendo escrito uma nota interna contra o projecto da Baía dos Porcos, uma vez a invasão feita defendeu-a, ao ponto de mentir.

Era partidário e parcial: em Kennedy (e depois Clinton) só via virtudes; em Nixon (e depois Bush) só pecados. Dada a vida amorosa de Kennedy, disse-se que 'Mil Dias' deveria ter-se chamado 'Mil Noites'; Gore Vidal chamou-lhe "um romance histórico". Mas captura um ambiente: chegando à casa dos Kennedy em Hyannis Port no dia seguinte a Dallas, Schlesinger encontra Norman Mailer que lhe diz: "Por um tempo julgámos que o país era nosso - agora é outra vez deles".



OBITUÁRIO

D. Ivo Lorscheiter



1927-2007 Presidente e secretário-geral da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos anos da ditadura militar, será lembrado pela sua luta pela redemocratização do país e pelo trabalho pastoral. Era bispo emérito da cidade de Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul, onde morreu, dia 5, de falência múltipla dos órgãos.

Yvan Delporte



1928-2007 Cartoonista belga e um dos criadores dos 'Smurfs', personagens de banda desenhada que conquistaram as crianças nos anos 80. Dia 6, em Bruxelas, de causa desconhecida.

Jean Baudrillard



1929-2007 Sociólogo e filósofo francês. Ver Actual.

Henry Troyat



1911-2007 Escritor francês de origem russa. Ver Actual.



Rufina Amaya (1943-2007), sobrevivente do massacre na guerra civil em El Salvador e símbolo da luta contra a impunidade, em São Salvador, de causa desconhecida. Walker Edmiston (1925-2007), o 'homem das mil vozes', que dobrou vários personagens de banda desenhada e de séries televisivas como 'Star Trek', nos EUA, de cancro. Ernest Gallo (1919-2007), criador do maior império vinícola dos EUA e um dos 400 norte-americanos mais ricos do mundo, em Modesto, Califórnia, de causa natural. José Luis Coll (1931-2007), humorista espanhol, em Madrid, de problemas cardíacos. Quim Regàs (1951-2007), jornalista espanhol que renovou o grafismo de vários jornais, como o 'Diário de Notícias' de Lisboa, em Madrid, de cancro.