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Expresso

José Cutileiro, In memoriam

Alexandre Soljenitsin (1918 - 2008)

Alexandre Iaiavich Soljenitsin, que morreu de insuficiência cardíaca em Moscovo no domingo passado, foi um gigante da história russa e um enorme escritor nascido um ano depois da revolução à filha de um kulak, viúva de oficial do exército imperial, cujas três medalhas de guerra ela enterrara com medo de, juntas à sua origem, darem más ideias às autoridades bolcheviques de Kislovodsk, onde trabalhava como dactilógrafa e criava o filho. O rapaz, com gosto pela escrita e queda para a matemática, formou-se em física na Universidade de Rostov, dias antes da invasão da União Soviética pela Alemanha nazi, em 1941. Era então um marxista-leninista convicto e bateu-se bem na guerra, comandando companhias de artilharia até Fevereiro de 1945, quando foi preso pela polícia política. O correio era lido pela censura, Soljenitsin dissera mal de Estaline numa carta e foi condenado a oito anos de prisão, cumpridos em diversos campos, um deles reservado a cientistas, seguidos de exílio perpétuo no Kazaquistão. Sobre tudo isso viria a escrever longamente, e só a morte de Estaline e a breve abertura do regime forçada por Khrustchov o libertaria. A esse longo encontrão com a realidade aplicou os seus dons, deixando-nos dela quadro monumental, completo e minucioso - os romances 'O Primeiro Círculo' e 'O Pavilhão dos Cancerosos', o magistral compêndio do universo concentracionário 'O Arquipélago do Gulag', que George Kennan, arguto e enciclopédico observador da Rússia soviética, considerou a incriminação mais poderosa de um regime político jamais feita em tempos modernos.

"Uma palavra de verdade pesa mais que o mundo inteiro", Soljenitsin gostava de lembrar. Durante anos de cadeia e degredo fora registando tudo, muitas vezes de memória porque a palavra escrita podia ser confiscada. Pedira a presos católicos lituanos que lhe fizessem um rosário como os deles, de massa de pão, só que com mais contas, e aprendia de cor capítulos inteiros por cada uma delas. Quando voltou do degredo trazia uma novela pronta - 'Um Dia na Vida de Ivan Denisovich' - e mandou-a a antigo camarada da cadeia científica que a deu a ler a outros. Por todos foi considerada uma maravilha mas, para a publicar na 'Novi Myr', revista oficiosa de literatura, foi preciso chegar ao Politburo onde Khrustchov teria dito: "Há um estalinista em cada um de vocês; até há um estalinista em mim. Temos de cortar o mal pela raiz!". O livro teve sucesso espectacular na URSS e no estrangeiro.

Mas Khrustchov foi sol de pouca dura e o Inverno voltou com Brejnev. A luta de Soljenitsin continuou; investigando e escrevendo, assediava constantemente o regime, que banira 'O Primeiro Círculo'. Rostropovich, outro dissidente, acolheu-o em sua casa. Em 1970 deram-lhe o Prémio Nobel. Passara o 'Gulag' para o estrangeiro embora preferisse publicá-lo primeiro na Rússia - mas o KGB interrogou a sua dactilógrafa até obter uma cópia e a senhora enforcou-se. O livro foi publicado no Ocidente, crispando mais o regime. Mas os tempos eram outros: em vez de banido para a Sibéria, Soljenitsin foi posto num avião para a Europa. A mulher e os filhos juntaram-se-lhe e viveram depois todos no norte dos Estados Unidos.

Em Vermont trabalhara num enorme projecto sobre as origens do regime comunista russo - e não gostara dos americanos. Achava-os cobardes, não lhes perdoava terem perdido a guerra do Vietname, considerava a democracia uma péssima forma de governo, admirava Franco e Pinochet. De volta à Rússia em 1994, Ieltsin cedo o desencantou bem como todo o novo regime. Ortodoxo praticante, monárquico, nacionalista, anti-semita, queria restaurar a Mãe Rússia em todo o seu esplendor mítico e só em Putin julgou ter encontrado chefe à altura. O combatente indómito contra a opressão soviética - que, com risco de vida, fizera mais do que João Paulo II ou Ronald Reagan para lhe acelerar o fim - não amava a liberdade: queria, afinal de contas, ver estabelecida uma opressão diferente.