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Henrique Monteiro

Soares, Alegre e a intuição

Mário Soares é uma personagem que nunca deve ser subestimada. Aprendi-o ao longo de muitos anos. Pensar que o que ele disse de Alegre só tem a ver com questões pessoais é um grande erro.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

O apoio do PS a Manuel Alegre era inevitável. De certo modo, neste momento, o PS precisa mais de Alegre do que o contrário. Perante as medidas económicas que o Governo socialista se vê obrigado a tomar, uma caução de esquerda vem mais do que a calhar.

Naturalmente, a posição pessoal de Soares em relação ao seu antigo companheiro de luta e histórico do PS (mas não seu fundador, ao contrário do que por aí se diz), é um poderoso incentivo à oposição que lhe move, tendo-o levado a classificar como "erro grave" o apoio do PS a Alegre. Mas não devemos subestimar o ex-líder socialista, ex-primeiro-ministro e ex-PR. Mesmo do alto dos seus 85 anos, Soares tem uma poderosa intuição política.

Ele sabe que o destino do PS é bastante sombrio. Se as coisas se mantiverem assim até às presidenciais (e, hoje, fazer previsões é muito arriscado), os socialistas chegarão ao fim do ano ultradesgastados; caso José Sócrates se mantenha como primeiro-ministro, a sua popularidade estará ao nível do fundo da Calçada do Combro, pelo que o único sinal positivo, ou menos negativo, será a campanha de Manuel Alegre. Apesar da difícil mobilização do partido nessas circunstâncias, o discurso do poeta, as suas tiradas patrióticas e de esquerda, conjugadas com o apoio que lhe dispensará o Bloco de Esquerda, serão, porventura, os únicos sinais de esperança para um conjunto de eleitores desmotivados. Tanto mais que vêem o seu próprio Governo obrigado, pela força das circunstâncias, a cumprir um programa que não é o seu, do qual não gostam e do qual diriam cobras e lagartos acaso fosse outrem a levá-lo a cabo.

O problema está, pois, em saber como sairá o PS desta embrulhada. E o mais certo é, desgastado pela acção do Governo, contaminado pela campanha de Alegre e derrotado nas urnas nas presidenciais e numas posteriores legislativas ficar refém de um discurso de crítica, arredado do trabalho de combate à crise estrutural que atravessamos e da construção de uma alternativa de poder. Isso possibilitaria ao PSD uma espécie de repetição de 1987 ou de 1991, quando Cavaco reduziu o PS à sua expressão mínima. Só que, desta vez, o PS terá ainda o Bloco de Esquerda como a outra parte da tenaz que se fechará sobre ele.

Claro que nada disto tem de acontecer obrigatoriamente. Há outros caminhos, outras hipóteses e, sobretudo, haverá bastantes incidentes que influenciarão o futuro. Mas será isto que Soares receia quando afirma que Sócrates pode ter cometido um erro fatal ao apoiar Manuel Alegre nas presidenciais.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010