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Henrique Monteiro

Prendam-se os suspeitos do costume

Quem conhece a História sabe que arranjar bodes expiatórios tem sido uma forma de os governos alijarem culpas. Serão os 'especuladores' e hoje o correspondente aos judeus de há 500 anos?

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

Se perguntarem ao mais insuspeito especialista qual o efeito da medida tomada pelo Governo alemão proibindo as chamadas naked short sellings aos 10 maiores grupos financeiros do país, ele responder-lhe-á: "Quase nenhuma, a medida é apenas moral". Então por que razão foi tomada? E a resposta, se for sincera, será: porque perante o descalabro, alguém tem de ser responsabilizado e os Governos europeus nunca iriam assumir que têm culpas no que está a acontecer ao euro.

Em contrapartida, os chamados "especuladores" anglo-saxões estão mais à mão. São meio-estrangeiros (do ponto de vista europeu) e são especuladores, o que significa, nesta asserção, que obtêm vantagens e riqueza rápida e fácil. Tornam-se, pois, óptimos bodes expiatórios - ninguém gosta de gente assim...

No século XVI, perante uma crise de seca e de peste que assolava Lisboa, decidiu-se que a culpa era dos judeus - fez-se o massacre habitual daqueles tempos. Na Rússia do século XIX, perante a fome, a culpa voltou a ser atribuída aos judeus e nasceu o pogrom, palavra russa que significa 'ataque maciço'. Claro que os judeus não tinham culpa, mas tinham outra coisa irritante aos olhos das multidões: sabiam ganhar dinheiro rápido, eram especuladores, agora no sentido do étimo da palavra: alguém que estuda e observa com atenção determinado fenómeno.

Convém, assim, dar dois passos atrás sempre que uma explicação demasiado simples nos é dada quando o que parece seguro falha e põe em causa o modelo em que vivemos. A intolerância é uma das mais antigas armas da política e talvez a característica mais permanente nas sociedades.

É inegável que certos agentes do mercado actuaram nas margens da lei. Mas não é menos certo que muitos governos incentivaram esse tipo de actuação, fosse no sector imobiliário fosse nas obras públicas. Construíram-se impérios com pés de barro, que tendem, como se sabe, a cair facilmente. Mais: a maioria dos governantes e dos líderes políticos desprezou os avisos - chamando-lhes pessimistas ou negativistas - daqueles que diziam que não se podia continuar a viver assim. Não é aceitável que venham agora armar-se em virgens púdicas. Não podem dizer, como Sócrates, que "o mundo mudou nas últimas três semanas". O mundo não muda assim tão depressa. O mundo vinha a mudar e Sócrates ou não deu por isso ou convinha-lhe não dar por isso. Perdeu a autoridade e agora refugia-se na culpa de outrem. Não faz mais nem menos do que os outros pigmeus que governam a Europa. Também Sócrates e seus pares não mais fazem do que especulação (desta vez política), quando dizem que a culpa é dos especuladores.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010