Siga-nos

Perfil

Expresso

Henrique Monteiro

Portas, Sócrates e a convicção

Paulo Portas nunca saiu do palco, apenas se tinha colocado um pouco mais para trás. Agora, naturalmente, tem de dar uns encontrões e umas cotoveladas para chegar de novo à frente.

O teatro da política ganha alguma coisa com esta reaparição de Portas como protagonista. Desde logo, o longo monólogo de Sócrates pode ser, de vez em quando, interrompido por perguntas pertinentes, objecções inteligentes e propostas concretas. Mas, para que ele brilhe, alguém tem de se ofuscar - Ribeiro e Castro só não chega; Marques Mendes vai ter (ainda) menos palco.

A ideia de uma oposição mais activa é fértil. Nenhum país vai no bom caminho se não tiver uma oposição que questione o Governo, que o atrapalhe. Nesse sentido, Portas é o homem indicado para atrapalhar o primeiro-ministro. Também é determinado, também possui um certo tipo de verdade revelada e, pensando bem, também tem um sonho qualquer para o país que é, simultaneamente, o sonho que tem para ele próprio.

O mal de Portas é estar no partido errado. Errado pela dimensão e errado pelo posicionamento. Mas foi ele quem o escolheu - transitando há 20 anos do PSD para o CDS - por não saber esperar. Foi-lhe menos trabalhosa a conquista do CDS do que alguma vez seria a conquista do PSD. Se tivesse mais calma, talvez estivesse em melhor posição (ou, quem sabe, teria feito o papel de Santana, embora de modo menos canhestro).

Esta chegada de Portas podendo, assim, ser uma boa notícia para a oposição ao Governo, pode igualmente ser uma boa notícia para o próprio Governo.

De um aumento de fricção entre o PSD e o CDS, pode Sócrates tirar dividendos. E se o primeiro-ministro (continuando a parecer que faz reformas, mesmo quando não as faz) vencer com maioria absoluta as eleições de 2009, perante uma direita sem unidade e sem rumo, não há determinação que resista.

Dir-se-ia, ainda, que Portas já tem pouca credibilidade, mas isso, além de ser mal geral, parece não ser decisivo na política portuguesa. Mais importante é a convicção. Ora, no meio do labirinto de que nunca saímos, já estamos dispostos a seguir quem nos diga que sabe o caminho, mesmo que não haja certeza de que fala verdade.

E nisso, tão bom como Portas, só mesmo José Sócrates.

Henrique Monteiro