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Henrique Monteiro

Por uma Europa que sobreviva

A sobrevivência da Europa corresponde à salvação de um modelo. Esse modelo é o da Declaração Universal dos Direitos do Homem, visa a paz, a liberdade, a responsabilidade e a fraternidade dos indivíduos.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

A maior diferença entre grandes e pequenos políticos está na capacidade de ver para lá do curto prazo, do interesse mesquinho e da opinião do momento. Foram qualidades assim que fizeram de Churchill a referência que é, ou que deram a Jean Monnet (que nunca exerceu cargos públicos) o título de pai da unidade europeia que hoje todos lhe reconhecem.

A Europa actual tem virtudes únicas: auxílio na doença, apoio a deficientes, subsídio aos que perderam emprego, etc. Tem educação e rede hospitalar gratuitas e Justiça acessível (bem sei que em muitos países, nomeadamente em Portugal, há ainda caminho por fazer, mas comparados com China, Índia, Brasil e mesmo com os EUA, têm incontáveis vantagens).

O modelo europeu (e de muitos outros países que o melhoraram, como a Noruega, a Suíça ou o Canadá) é agora um sistema em risco. Ou se muda radicalmente e alarga, de modo a que, da China ao Brasil, todos possam dele usufruir, ou morre, porque os custos de produção de países sem solidariedade nem assistência social (ou com apoios débeis) serão sempre muito mais baratos.

A alteração do sistema não passa apenas por terminar com os abusos e facilitismos que todos sabemos existirem (isso está mais ou menos previsto nos PEC). É necessário que o sistema se torne além de solidário... sustentável. Para isso, não só é imperioso acabar com os abusos e dotá-lo de racionalidade económica, como afirmá-lo como o poderoso exemplo de pacificação social e de interajuda humana que é. Para o realizar, a Europa carece de um centro de decisão único, de uma voz poderosa não só na economia, como na Defesa, na Justiça, nas relações externas - o que significa um Governo único, ou seja, o federalismo europeu.

Não são possíveis mais egoísmos nacionais. A reforma não pode ser aos 55 anos na Grécia e aos 70 na Alemanha; a agricultura francesa não pode ser intocável; não é possível países viverem acima das possibilidades sabendo que outros os salvarão. Não haverá moeda única sem uma só autoridade.

Naturalmente, isto retira poder aos estados nacionais e aos pequenos políticos que gostam de defender os seus pequenos poderes, os seus privilégios e os seus clientes. É por isso que a Europa precisa de grandes líderes, de pessoas que conheçam, saibam interpretar e se orgulhem dessa construção da nossa civilização que é a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a qual começa assim: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade". Em suma, é isto que nos diferencia da China.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010