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Henrique Monteiro

Pina Moura, o legal e o estimável

Na entrevista que concedeu ao Expresso, Pina Moura, a dado passo, afirma: "A ética da minha relação com a política é a da lei. É a ética republicana". Um ponto interessante é perguntarmo-nos: não pode Alberto João Jardim dizer o mesmo?

Do meu ponto de vista pode. Que esteja provado, Jardim jamais violou a lei. Qual a diferença, pois, entre a ética de Jardim e a de Pina Moura? Não sabemos. Mas sabemos que entre Jardim e, digamos, Mota Amaral ou Carlos César existe uma abissal e substancial divergência. Não se duvida de que a acção política do actual e do ex-presidente do Governo Regional dos Açores é bastante mais estimável do que o de Jardim.

Ora isto não é um paradoxo. O que se passa é que a lei não prevê todas as hipóteses — nem pode — e por isso nem tudo o que é legal é estimável.

Verdadeiramente, numa sociedade utópica na qual todos fossem irrepreensíveis, nem a lei seria necessária.

A ética republicana, ou a ética da 'coisa pública' é, pois, essencialmente, uma autolimitação pessoal em nome de valores que se defendem, e não o mero cumprimento da lei. Este último, num político, jamais deveria estar sequer em causa.

Mas Pina Moura discorre ainda sobre outro assunto que parece ser-lhe estranho: quando afirma que os projectos empresariais têm todos objectivos políticos e sustenta que os projectos de comunicação social são todos ideológicos. Ora isto não é a descoberta da pólvora, mas é a redescoberta dos velhos manuais marxistas nos quais a ideologia e a política são os critérios de avaliação exclusivos de toda a actividade humana. Isto, para não o querer filiar nos conceitos de Charles Maurras ou de Pietro Nenni (este, um dos herdeiros de Mussolini) e, portanto, na extrema-direita europeia, antiliberal e antidemocrática que sustenta que os superiores interesses da pátria (os fins) justificam quaisquer meios.

Embora pareça claro Pina Moura achar que toda a comunicação social tem preconceitos ideológicos, e logo motivações políticas, seria melhor que ele visse o mundo para além dos seus preconceitos. O primeiro critério de muita comunicação social, aqui e em toda a parte, não é político, nem sequer ideológico. Um simples folhear de um manual especializado pode dar-lhe importantes pistas sobre o assunto.

Mas ainda que ideológico e político fosse o primeiro dos critérios da informação livre, só mesmo no antigo 'Diário' (matutino ligado ao PCP) os jornalistas tinham controleiro e reuniam com o líder do partido.

De resto, caro Pina Moura, sempre nós jornalistas fomos muito mais livres do que isso.

Henrique Monteiro