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Expresso

Henrique Monteiro

O primeiro pecado confesso de Sócrates

Gostei que Sócrates fosse apanhado a fumar. E gostei por dois motivos: primeiro, porque fica demonstrado que ele, afinal, é humano e comete erros; depois, porque pela primeira vez o primeiro-ministro foi vítima da sua própria política.

Sócrates resolveu a questão com um pedido de desculpas, que lhe fica bem, e com uma promessa de não fumar mais - o que faz dele uma espécie de versão serôdia do adolescente que o pai apanha com o primeiro cigarro. Se, de facto, nunca mais fumar, pode dar graças ao jornalista do 'Público' que divulgou o assunto, Luciano Alvarez, pois será certamente o único jornalista a ter contribuído para a saúde do chefe do Governo.

Em substância política, o facto de Sócrates ter sido apanhado com um cigarro aceso dentro de um avião não significa nada. Mas o que não pode dizer Sócrates nem podem afirmar os seus apoiantes é que o facto não tem importância política. Tanto tem - na voragem politicamente correcta de quem nos governa - que o Conselho de Ministros, presidido por Sócrates e não outro líder qualquer, entendeu que o tabaco é um grande malefício sobre o qual há o imperativo de legislar com mão pesada.

Com maior ou menor resignação, o certo é que os portugueses - dos hoteleiros ao mais privado cidadão - acatam a lei. Seja com medo da ASAE, da multa, ou por outro motivo qualquer, a verdade é que a acatam.

Porém, a mais de 30 mil pés de altura, num avião (onde pelas normas próprias é proibido fumar há 15 anos), Sócrates cometeu o seu pecadilho.

Felizmente, desta vez, o primeiro-ministro não veio queixar-se de perseguição, como fez com o caso da licenciatura, ou com as célebres casas da Guarda. Agora reconheceu que tinha errado e, humanamente, deu-se por culpado de uma infracção menoríssima.

Eu suspiro aliviado. Afinal, o primeiro-ministro ainda não pensa que é divino e concorda que, por vezes, falha pessoalmente. É um passo importante e é, psicologicamente, um sinal de saúde mental. O que a somar à saúde física do corredor - agora reforçada pelo ar puro da sua novel condição de ex-tabagista - quer dizer que temos homem.

Só por isso, quase merecia que o deixassem fumar mais um cigarrinho no regresso.

PS: Tomei conhecimento, através do 'Diário de Notícias', que o 'Jornal de Angola' me associou, em artigo do seu director, a uma qualquer conspiração contra aquele país. Isto explica duas coisas: a minha bizarra convicção de que não há liberdade em Angola e a enorme independência que é a marca daquele jornal.

Henrique Monteiro