Siga-nos

Perfil

Expresso

Henrique Monteiro

Notícias do nosso pântano

Com muita boa vontade, poderemos imaginar que damos combate à crise. Mas, na realidade, vivemos em pleno pântano, sem rumo, sem ânimo, sem perspectivas, à espera que alguém nos salve.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

Recuemos oito meses - não é assim tanto. O PS tinha ganho as eleições e dizia-se pronto para continuar como até então. Já se sabe que Sócrates diz agora que o mundo mudou em três semanas; mas há oito meses muita gente já tinha previsto que, a breve trecho, estaríamos na situação actual. Eu próprio, reflectindo uma opinião que já não era novidade, escrevi (antes das eleições) que se Sócrates não tivesse uma vitória muito folgada (o que se afigurava impossível) viveríamos "num pântano", ou seja, "num compasso de espera". Nesse texto, referia o quadro de Jacques-Louis David "A morte de Sócrates" para ilustrar a morte política do primeiro-ministro. Sei que esta comparação foi vista, por muitos apoiantes do líder do PS, como de muito mau gosto. Mas a verdade é o que é. A sua morte política está hoje à vista de todos.

Podia hoje citar um poema (e não um quadro). Desta vez do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José?/ a festa acabou/ a luz apagou/ o povo sumiu/ a noite esfriou/ e agora, José?/ e agora, você?". É um bom resumo da situação...

Precisamos de um governo forte e precisamos de um governo respeitado se queremos, efectivamente, combater as causas estruturais da crise (a maioria delas, quero deixar claro, nada têm a ver com a governação de Sócrates, mas sim com anos e anos de irresponsabilidade nas contas públicas e de descarada promiscuidade de interesses privados e públicos). Esse governo não é este. Sobre isso, penso que já nem Sócrates tem dúvidas. Este é o governo da confusão, do remendo, da desorientação total.

No entanto, cálculos políticos que se prendem com as presidenciais e com a construção de uma nova maioria levam a que o PSD deixe o actual poder esgotar-se ainda mais. Como no quadro de David, estão à espera que Sócrates beba o veneno até ao fim... Não tenho dúvidas de que essa é a melhor táctica para o PSD e para Cavaco (que tem uma reeleição a cumprir em Janeiro que vem). Mas duvido sinceramente que seja a melhor solução para o país.

Num pântano, enterramo-nos um pouco mais, a cada minuto que passa. A cada momento a situação piora. E, por muito que queira, não tenho confiança na força e na determinação deste primeiro-ministro para, nesta fase - e sublinho esta fase, porque determinação e força nunca tinham faltado a Sócrates -, nos conduzir a porto seguro. Seria um serviço ao país o PS, o PSD e Cavaco compreenderem bem esta questão e resolvê-la de forma concertada e levando em conta os interesses do país. A sobrevivência num pântano é muito difícil, ou quase impossível.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010