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Henrique Monteiro

Este Papa e o comum preconceito

Para ser honesto devo dizer que entre o país dito culto(ou as redacções dos jornais) e o país real que o Papa nos revela há um abismo enorme. Esse abismo chama-se moda... e é fundado num preconceito.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

Na passada quarta-feira, no meio de 1500 pessoas, tive oportunidade de ouvir Bento XVI no CCB. Ouvindo-o, verifiquei a enorme coerência entre o que disse e o que escreveu no passado. Todos concordaram que foi um bom discurso, aberto, moderno, tolerante. Mas se assim é, por que estranha razão, a cada passo, se ouve dizer que este Papa é um reaccionário temível?

O que Bento XVI quis dizer aos convidados do CCB, entre eles muitos pertencentes a outras confissões ou não professando nenhuma, foi simples: que cada um deve fazer da sua vida um lugar de beleza e que a Igreja está sempre a aprender a conviver e a respeitar os outros; "outras verdades, ou as verdades dos outros". A mensagem foi de uma profunda tolerância e de esperança que a "Verdade" possa iluminar cada ser humano. Quem se sente ameaçado por palavras assim?

Já no avião, Bento XVI desarmara a polémica da pedofilia ao afirmar que a perseguição à Igreja não nasce dos seus inimigos, mas do seu interior. A frase, que parecerá revolucionária a quem nada leu sobre Cristo - a começar pela Bíblia - está, no entanto, em perfeita linha com a melhor tradição da Igreja. Em Fátima, o Papa defendeu - e bem - a liberdade de culto.

E assim, Bento XVI, sem alterar um milímetro o que era, surge-nos infinitamente melhor do que aquilo que dele dizem.

E aqui se revela o preconceito. Não o estafado preconceito que é arma de arremesso de todos os pós-modernos quando em causa está uma hierarquia de valores; mas o preconceito daqueles que, dizendo-se despreconceituosos, não resistem a um teste simples: fazer a crítica coerente ao que o Papa diz - e não a um conjunto de ideias pré-formatadas que ele jamais defendeu e que a Igreja há muito não defende.

A luta central de Bento XVI é contra a desregulação do ethos, da ética - a mesma desregulação que elevou a ganância e a especulação a deuses de pés de barro que se estatelaram no primeiro abanão. É uma luta árdua contra a desvalorização da vida, da família, do esforço honesto e da esperança que pode e deve envolver não apenas os católicos. No CCB, também os líderes de outras confissões saudaram as palavras do Papa.

É difícil ir contra aquilo que se convenciona, em determinado momento, ser moda: o chocante, o grotesco, a desconstrução, a ganância, o egotismo. E, uma vez que a Igreja Católica continua a aprendizagem da convivência, mais do que possível é desejável o caminho comum.

PS: Sobre o brutal aumento de impostos, e mantendo o espírito, só digo: Perdoai-lhe, Senhor, assim como nós perdoamos.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010