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Henrique Monteiro

E assim vai Saramago para o céu

O tempo dos homens é menor do que o da arte. E o tempo da arte é ínfimo, se comparado com o tempo de Deus. A obra de Saramago é bem maior do que pensamos. Tudo lhe é relevado na hora da sua morte.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

Jamais esquecerei o encantamento que me provocou a Blimunda - personagem central de "Memorial do Convento" - muito superior àquele que me provocava o seu autor, José Saramago. Ele era o antigo director-adjunto do "Diário de Notícias", responsável por saneamentos políticos de colegas, o comunista convicto, o antirreligioso militante. Era também um homem severo, ético, frugal e muito sério. Além disso foi um trabalhador incansável, com um rigor extraordinário nas suas descrições e memórias. Não tinha aquela coisa muito portuguesa de ter pena de si próprio e era tão íntegro quanto focado no objectivo ou trabalho que tinha em mãos.

Num dia em que passei por Lanzarote e em que Pilar nos convidou (a mim e à minha mulher, verdadeiramente amiga, admiradora e crítica de Saramago) para os visitarmos, tive a noção real do que o escritor vale no nosso mundo. Discretamente, sem qualquer alarido, fui conduzido a um escritório com uma grande janela, uma secretária e um computador e umas três ou quatro estantes repletas de livros com títulos nas mais diversas e estranhas línguas. Perguntei o que eram aqueles livros. "São traduções dos meus", respondeu como se não fizesse caso. Quase todo o mundo está representado naquelas estantes, porque quase toda a obra de José Saramago é talentosamente universal.

Embora ele não queira, estou certo de que irá para o céu. Deus, se é o Todo-Poderoso, não há-de permitir que um homem destes habite longe dele. Como a de um pequeno deus, também a obra de Saramago perdurará no tempo, per omnia secula seculorum, enquanto houver quem goste de uma grande ou pequena história com uma boa e honesta moral.

Não nego que escreveu coisas que me chocaram. Acho que escreveu que "Deus é um filho da puta". Pois bem, enganou-se. Se é omnisciente, Deus nem liga a insultos, pois estão fora do âmbito do seu entendimento. E na sua bondade e perdão infinito vai dizer-lhe que também gostou de alguns livros, como "As Pequenas Memórias", onde se lê a dureza de uma infância, ou "O Ano da Morte de Ricardo Reis", no qual se vê a reconstrução de um passado negro e sombrio.

E assim irá ele para o céu, para perto de Deus, onde habitam os imortais. Os da literatura, e os das outras artes, sejam quais forem. Porque o tempo da verdadeira arte é infinitamente maior do que o tempo dos homens. E o tempo de Deus é incalculavelmente superior a todos os outros tempos.

Ao fim e ao cabo, as polémicas agitam águas que não tardam em se acalmar. Mas fica a arte. Tal como fica Deus.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010