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Henrique Monteiro

É a economia global, estúpidos!

O crescimento económico no Brasil ou na Índia, a instabilidade social na Grécia, as eleições regionais na Alemanha, o desemprego na Espanha são aspectos decisivos para a nossa vida em Portugal.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

Claro que as decisões do Governo são importantes; é óbvio que a vontade de superar a crise, de produzir mais e de poupar é levada em conta pelas agências. Mas, no essencial, a questão joga-se a outro nível. Quem ler, nas páginas seguintes, a lúcida análise de José Cutileiro, um dos portugueses mais experientes nas relações entre Estados, fica a perceber o quanto está em causa.

Há umas eleições no estado da Renânia do Norte-Vestfália que podem influenciar a Bundesrat, a câmara alta do parlamento de Berlim. Esse facto leva Merkel a ter cuidado e a não dar passos em falso - ou seja, a não apoiar sem reservas o euro e os países do euro que estão em perigo; ao mesmo tempo, na Grécia, activistas de extrema-esquerda mobilizam demagogicamente a população para se opor aos sacrifícios que resultam da concessão às suas exigências e do desbragamento orçamental do país. Na Espanha, o aumento do desemprego para níveis impensáveis faz temer novos confrontos. A Europa não cresce, os EUA lá vão andando, mas crescem Brasil, Índia e China. O que vale a Europa neste mundo?

Os europeus criaram o mais perfeito sistema social de todo o planeta - o estado-providência. É certo! Os europeus querem que as agências de rating percebam que a Europa não é só lucro, é distribuição, solidariedade, subsidiariedade. Querem, inclusive, criar uma agência própria que não leve apenas em conta os lucros, enfim, as variáveis económicas, mas também as componentes sociais. Do nosso ponto de vista, do ponto de vista europeu, as coisas não estão assim tão mal.

Mas o resto do mundo quer crescer, sobretudo aqueles que são menos desenvolvidos. Se for à custa dos europeus, pior para nós. Podemos olhar-nos e não ver onde está o mal, mas isso será esquecer que o mal não tem, por força, de ser nosso. A economia é global. Todos devíamos escrever cem vezes num quadro, como Bart nos 'The Simpsons', "A economia é global, estúpidos" para nunca nos esquecermos. Aquela globalização que a nossa esquerda achava que era para esmagar os pobres fez crescer os pobres do mundo e estagnar os seus senhores, que éramos nós. Neste momento, as regras não são as nossas e, não obstante os nossos desejos, temos de as levar em conta. É difícil - se é! - e exige reestruturações profundas. Não se pode competir com salários chineses e indianos - mas tem de se competir. Como vamos relacionar-nos com países com a riqueza natural de Angola ou do Brasil? Temos de o fazer. A dificuldade está nas reformas necessárias. Como sempre, elas não vão ver a luz sem dor...

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010