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Expresso

Henrique Monteiro

As 'directas' e o triunfo da demagogia

As primárias do PSD não têm a elevação das primárias americanas, mas são, ainda assim, muito importantes.

Da qualidade da oposição depende, em boa parte, a qualidade do Governo e a exigência dos eleitores. O líder do PSD não pode, por isso, limitar-se a satisfazer a clientela interna; tem de ter propostas claras, credibilidade e potencial de ameaça suficiente para obrigar o Governo a colocar os pés na terra e ir à luta em torno de projectos e ideias para o país. Ao mesmo tempo, tem de ser estável e transmitir confiança, de forma a que possa garantir entendimentos ou acordos que se considerem indispensáveis para reformas que careçam de consensos alargados.

Infelizmente, um excesso de 'democratismo' levou os partidos portugueses à eleição directa dos líderes. Isso significa que votam não as mil pessoas que num congresso representavam uns 40 ou 50 mil militantes, mas sim estes 40 ou 50 mil militantes.

Ou seja, a progressão em termos de representatividade é quase nula (uma gota de água no oceano dos eleitores de cada partido). Mas baixou substancialmente a qualidade das propostas e a elevação de atitude dos candidatos.

Hoje as campanhas não visam captar os votos de delegados que constituíam a elite dos partidos, mas os votos dos militantes de base, o que acarretou, como era previsível, um substancial aumento do populismo.

Também terminou a possibilidade de acordos e consensos entre delegados. Com os estatutos de hoje seria impossível Cavaco vencer o congresso que venceu em 1985, ainda que convencesse o congresso, como o convenceu. E se falo no modelo do PSD, lembro que ele é igual ao do PS.

A ideia das 'directas', que foi aprovada em nome de mais democracia, tem, em geral, resultado no aumento do poder de militantes menos interessados em ideias do que em lugares nas autarquias e nas pequenas comissões disto ou daquilo.

A tendência é, por isso mesmo e cada vez mais, a de eleger candidatos que vêm de dentro dos partidos, sem vida própria que não seja o partido sem outros horizontes que não sejam o seu próprio poder e os pequenos poderes dos apoiantes. Não é por acaso que, salvo honrosas excepções (que me dispenso de nomear), quase todas as figuras na política activa encaixam hoje neste quadro.

As directas, ao liquidar os chamados 'barões' (pessoas com interesses próprios e vida própria) tendem a dar o poder aos 'espertalhões', àqueles que dependem de um lugarzinho ou de um favorzinho do Estado.

Henrique Monteiro