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Henrique Monteiro

A obrigação de dar o exemplo

Há um ano escrevi que, se a crise assim obrigasse, era necessário um bloco central, um acordo PS/PSD. Hoje, isso é evidente. Mas há algo que falta - dar o próprio exemplo antes de pedir mais aos outros.

Henrique Monteiro (www. expresso.pt)

A discussão sobre se as agências de rating querem prejudicar-nos é tão ociosa como a de saber se os bancos querem ganhar dinheiro à nossa custa: claro que sim. As agências de rating querem atacar e jogar com o euro, assim como os bancos adoram fazer-nos empréstimos. E ambos nos tratam lindamente quando temos dinheiro, levando-nos à loucura quando estamos falidos.

Portugal está cercado pelos abutres do rating porque eles sabem bem que, de tão doentes, é elevada a probabilidade de nos tornarmos alvos fáceis da sua voragem. Mas queixarmo-nos disto é como queixarmo-nos da vida. Há muito que o sabíamos, muito antes das eleições. Por isso, a posição de Sócrates e do PS foi e é irresponsável, ao prometer TGV, auto-estradas e aeroportos quando sabem que, em breve, terão de voltar com a palavra atrás. Ninguém pode, impunemente, viver décadas a gastar mais do que ganha. Houve quem avisasse, mas isso agora não conta para nada... Não vale a pena chorar sobre o leite derramado.

Segue-se o que tem de ser. Mais uma vez, humilhantemente, imposto de fora pelos abutres da Standard & Poor's, pela rigidez da Alemanha, pela inconsistência da UE, pela facilidade com que os gregos entraram no euro, mas sobretudo pela nossa incúria. Poderíamos ter tomado a iniciativa e sermos agora livres... Mas também isto já não conta.

Vamos, pois, ao que interessa, ao que é necessário fazer - e já!

1. A primeira coisa a fazer é um acordo político PS/PSD e, antes mesmo de outras considerações, esse acordo deve baixar os salários de políticos, o número de assessores por gabinetes e as mordomias gerais. Não porque isso traga poupança substancial, mas porque a lógica sacrificial e simbólica é importante para gerar confiança e solidariedade naqueles a quem se vai pedir mais: os remediados e os pobres. Estes, serão, como sempre, os sacrificados... Sem exemplo, não há liderança.

2. É necessário um acordo dos dois maiores partidos para um orçamento do Estado e um PEC mais a sério (o OE apresentado parece uma fantasia em dó menor).

3. É necessário um acordo entre socialistas e sociais-democratas, que parecia estar a ser desenhado esta semana, para cortes na despesa pública e controlo sério das despesas sociais.

4. É imperioso um acordo com os sindicatos no sentido de um esforço colectivo geral que baixe a conflitualidade social. É preciso transparência e partilha nas empresas, correr com os boys, premiar o mérito, envolver todos os trabalhadores na produção e obtenção de riqueza.

Não se resolve tudo. Mas este seria, a meu ver, um bom começo.

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010