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Expresso

Henrique Monteiro

A ilusão das directas

Os principais partidos portugueses optaram, nos últimos anos, por eleger os seus líderes através de eleições directas. Mas esta forma de escolha não será uma ilusão?

Aparentemente, as directas, tal como os referendos, parecem ser o instrumento mais democrático do mundo.

Porém, a realidade é diferente. Existe um custo de contornar o esquema representativo (e colocar a decisão em todos e cada um dos militantes ou eleitores). Esse custo é conhecido: populismo e demagogia, dois adversários temíveis da democracia.

Os níveis de contaminação da política por critérios que nem sempre são racionais – como o carisma ou a telegenia – são já imensos. Os meios de comunicação social, com óbvio destaque para a televisão, contribuem bastante para esse fenómeno.

O puro bom senso deveria, pois, levar-nos não a reforçar a vertente mais directa e emocional da política mas, pelo contrário, a vertente mais representativa e ponderada, de forma a que haja equilíbrio entre o escrutínio e a escolha pública, que são indispensáveis em democracia, e a necessária ponderação, critério e seriedade de procedimentos, que também não podem nem devem ser descartados.

Mas nestes tempos os políticos parecem preferir ser amados pelas massas a servir convenientemente o país. Daí que – dos referendos às directas – têm ajudado a reforçar o lado mais emocional e irracional da política, jogando no que é fácil e popular e deixando de lado as decisões mais difíceis. Só quando se tornou claro que algumas reformas difíceis seriam, também elas, populares (nisso Sócrates foi mestre) se passou a fazer "marketing" com decisões duras.

Porém, à medida que o tempo passa, e que a opinião pública e publicada mudam (porque estas opiniões são instáveis) esse tipo de propaganda vai perdendo a sua eficácia. É nesse ponto que estamos, no que toca ao Governo.

Nos partidos, como se pode verificar com o PSD, o efeito não é melhor. Mendes, segundos antes de se autocongratular pelo facto de ter introduzido as directas no seu partido, tinha-se queixado de uma espécie de encenação feita por Menezes na festa que o PSD realizou no Pontal. Não sei se tem razão quanto a Menezes, mas a ter havido encenação é porque há público e não (como antes) apenas delegados a um Congresso que escolhia o líder.

Atribuir apenas ao critério da maioria a bondade das decisões é um erro que já se paga caro e que mais cedo ou mais tarde terá riscos insuportáveis.

Os congressos partidários são os locais privilegiados dos 'barões'. Mas os líderes sem 'barões' ou têm excessivo poder ou são meros executores da vontade da maioria que anda ao sabor das modas e dos estados de alma.

Henrique Monteiro