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Expresso

Luís Freitas Lobo

Quim e uma baliza: eis a questão

Deve ou não Quique tirar Quim e colocar Moreira? Mais do que uma pergunta, é uma forma de fugir a um problema.

A última imagem que fica quando uma equipa sofre um golo é a do guarda-redes batido. O último obstáculo que o torna como o primeiro responsável. É cruel colocar as coisas desta forma. Porque até a bola e os adversários chegarem a esse ultimo momento, o do remate para a baliza, ela já passou por tantas outras zonas do terreno, por tantos outros adversários.



Por isso, nunca consigo discutir uma equipa a partir do guarda-redes. Por vezes, é um hábito injusto. Fala-se em 4x4x2 ou 4x3x3. Devia-se falar em 1x4x4x2 ou 1x4x3x3. "Mea culpa". Essa última imagem de responsabilidade - porque é, na maioria dos golos, o último jogador por quem a bola passa antes de entrar - devora muitas vezes o valor do guarda-redes.



Quim passou do cortejo de elogios à chuva de críticas em poucos dias. Treze, para ser mais exacto. O mesmo número de golos que sofreu nesses mesmos dias. Revemos todos esses golos e, em muitos detecta-se que o guarda-redes podia de facto ter feito mais, socado melhor a bola ou cobrido melhor o ângulo, mas é um erro conceptual debater os problemas do actual Benfica a partir desses 13 golos. A questão, no entanto, dominou a semana "encarnada". Deve ou não Quique tirar Quim da baliza e colocar Moreira a titular?



A forma como tem sido colocada a questão foge à mera competência desportiva. Porque fala-se que essa opção seria uma forma de 'proteger' Quim desse momento 'cinzento'. Embora seja uma questão que só pode ser debatida e decidida dentro do gabinete do treinador, falando com o guarda-redes, não me parece que este seja um caso desses, os tais em que um jogador necessita de 'protecção'.



Desde logo porque Quim é o tipo de jogador, guarda-redes, que não 'treme', que nunca fugiu à exposição dos momentos difíceis. Pelo contrário, cresce com eles. Como cresceu na Luz quando era assobiado mesmo antes do jogo começar, quando entrava para o aquecimento. Aos poucos, a cada grande defesa, foi conquistando as bancadas.



Penso que esta sua pequena história na Luz devia servir de base para decidir agora se ele devia ou não sair da baliza. Penso que não. Até porque trocar um guarda-redes não é a mesma coisa que trocar outro jogador, um médio ou um lateral, por exemplo. É, em geral, uma decisão para vários meses e não se esgota num mero jogo. Não imagino Quim fora da baliza do Benfica (e da selecção, acrescente-se) durante muito tempo, no limite, todo o resto da época.



O Benfica devia procurar a raiz táctica dos seus problemas noutros pontos e colocar a questão do guarda-redes no seu espaço limitado. Quim sabe estar na baliza em todos os momentos. Uma grande defesa na Madeira e tudo ficaria desvanecido num ápice. Sem essa grande defesa, vendo o jogo do banco, ficaria 'desprotegido' por vários meses.