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Expresso

Luís Freitas Lobo

Para que serve um mágico?

O jogo caminha para o fim e o golo não aparece. O treinador olha o relvado impotente. Os adeptos, impacientes, assobiam. Estamos num Estádio português, convém frisar. No relvado, o jogador pega na bola. Toca-a como se ela estivesse domesticada pelas suas botas. Sussurra-lhe os caminhos. Na preparação do remate, pisa a relva como ela fosse de veludo. O Estádio fica suspenso. O adepto sem dentes, os pássaros e a lua. O remate parte. No ar, a bola descobre a baliza e encosta-lhe o ombro, ainda acariciando a barra, decidida, dócil e irresistível como uma mulher fatal de meias de seda num ambiente de lusco-fusco. Golo! A seguir toca música cigana. No 'banco', o treinador perde o semblante esfíngico, abre um sorriso e, para o resto do mundo, já parece um iluminado.

Último minuto. A vitória tangencial permanece no marcador. A equipa defende, o treinador grita, os adeptos acreditam. É só mais um pontapé para a bancada e está feito. O adversário insiste e mete a bola na área. Sem requintes nem estratégias de sedução. Como num "saloon" de um "western". Luta-se mais do que se joga e quando ela fica meio perdida, há quem a descubra. 'Bang!'. Golo. A vitória esfuma-se. Os jogadores põem as mãos na cabeça, pregam os olhos no chão. No 'banco', o treinador sente cair-lhe o mundo em cima e todos o olham como um incompetente.

Tudo isto pode parecer demasiado simples ou poético, mas poucas actividades serão tão implacáveis como o futebol e suas sentenças. Diz-se que uma imagem vale por mil palavras. No futebol, devora uma carreira.

Fernando Santos não é o tipo de pessoa que imaginamos a fazer anúncios a um banco ou a abrir o guarda-chuva antes de começar a chover. Olhamos para ele durante o jogo e sentimos apreensão. O olhar meio vazio, o ar apreensivo, o tique com o pescoço como se a gravata, que não existe, estivesse a apertar. Com Simão e Miccoli em campo, no entanto, fazendo do modelo de jogo montanha russa por entre as defesas, até parecia outro em muitas ocasiões.

Jesualdo anda no futebol há duas ou três vidas. A sua imagem também não desperta paixões. Pouco lhe importa. Sabe que no futebol, como na vida, o êxito e o fracasso, como disse Kipling, são dois grandes impostores. Os únicos que nunca enganam são mesmo os mágicos. Como Quaresma quando tirou um coelho da cartola no ocaso de Braga e mudou o curso do jogo.

No início da época, o Benfica perdeu os seus. Simão e Miccoli. O tipo de jogadores que fazem logo um treinador parecer melhor. Como se fosse um feiticeiro das tácticas. Mais do que o jogo de imagens, carisma é ganhar.

Imagino Fernando Santos a percorrer o túnel do Bessa após levar com o golo do empate no último minuto. Na metralhadora de emoções que assaltam a sua mente a caminho da conferência de imprensa, tem de existir, no entanto, espaço para a racionalidade. Pensando com frieza, por segundos que seja, ele sabe que o presidente vai 'matá-lo' na próxima intervenção. Nesse momento, porém, ele ainda tem uma grande vantagem. No jogo de xadrez em que se transformou a sua existência, é ele que vai fazer o primeiro movimento. Só lhe resta, então, uma saída. Disparar primeiro. Não o fez. O resto são as primeiras páginas dos dias seguintes.

Era por isso que Cruyff dizia que "a um presidente, tens de o tratar, desde o primeiro dia, como o teu inimigo que ele será no futuro!". Santos só quis perceber isso tarde de mais.

Os dias de Camacho

Com Camacho não chega um novo estratega táctico. Nem, em rigor filosófico, um novo treinador. O que chega é um novo estado de ânimo. Afinal, parece, é isso que se pretende. À imagem do futebol espanhol que, mais do que um estilo, tem um estado de espírito, a chamada 'fúria'. Camacho sempre foi um símbolo dessa forma de estar. Hoje, no 'banco', como, antes, no relvado, onde, pelo Real Madrid, como lateral, já se habituara a seguir o jogo junto à berma das quatro linhas. Agora são apenas dois ou três passos atrás. E como os adeptos gostam de ver um treinador a gritar e a gesticular para dentro do campo. Trata-se do acto mais primitivo e estéril do futebol. Nesses momentos, os jogadores, salvo excepções, quando chegam ao 'banco' para beber água numa paragem de jogo, nem ouvem nem têm disponibilidade para tal. Mas, como é tão bem visto, convém na mesmo fazê-lo.

Dele recordo sempre uma história, contada por Valdano, que espelha bem a sua personalidade. Numa aula de psicologia, quando ambos tiravam o curso de treinador, o professor sugeriu um exercício para jogar com a imaginação. Pediu silêncio absoluto e que todos fechassem os olhos com as mãos nas têmporas. A seguir começou a falar lentamente. Quase sussurrando. Apelava ao poder da mente: "Vejam os vossos ossos da mão. Um por um. Só os ossos, vejam…". Em silêncio, a classe ia entrando no campo imaginário. Perfeito. Foi então que um aluno mais realista, derrubou, impetuosamente, a magia do momento: "Eu não vejo nada!". O aluno realista era Camacho.

Já passaram vários anos desde esse episódio. Repeti-lo agora, mas imaginando um plantel construído por 4 médios, 7 avançados e 2 (!) defesas-centrais seria um exercício de imaginação ainda mais complicado. Já o terá feito. Acredito que a magia do momento da chegada também tivesse sido derrubado num ápice. Neste caso, à porta fechada.

A selecção: csi Scolari"

O adversário correu demais – nunca vira mesmo uma equipa correr tanto durante 90 minutos – e o relvado no centro só tinha uns tufos de relva. Duas explicações dadas por Scolari para a fantasmagórica exibição portuguesa na Arménia. Um jogo só iluminado por um lance de sonho que, mais uma vez, mostrou para que serve um mágico dentro das quatro linhas. Ronaldo fez um golo genial de tão simples que mais parecia estar a jogar na praia ou com os amigos no jardim da sua casa. Nesse momento, iluminou a careca de Scolari, pelo meio do batatal que era o centro do terreno de jogo. Explicou, também, que ninguém, seja um jogador ou a equipa toda, joga melhor só por correr muito. Poderão é jogar mais. Correr mais. Jogar melhor é outra questão e tal não depende do que se corre, mas sim da qualidade de jogo, técnica e táctica, que, individual e colectivamente, se demonstre em campo. Portugal é das selecções que, num dia normal, melhor explica a pouca relação entre correr mais e jogar melhor. Não o fez em Erevan. Salvou-se o mágico.

Derlei e os fantasmas

A partir de certa altura é difícil criar motivações em muitos jogadores de futebol. Já tem o carro, a casa de sonho, jóias, relógios de milhares de contos, uma mulher loura bonita, outra casa, etc. A ordem é arbitrária. O risco, em muitos casos, é que isso começa a acontecer cada vez mais cedo.

Quantas vidas tem Derlei? Do "ninja" do FC Porto ao renascimento em Alvalade, passando pelas sombras da Luz no Benfica, parece que estamos a falar de três jogadores diferentes. E estamos, em certa medida. Não na personalidade, nem na forma de jogar, mas na confiança. Um atributo para lá das questões tácticas ou técnicas que resultam do "habitat" que o rodeia. A forma como foi recebido no Sporting tem bases emocionais fortes. O desejo leonino de provar como um jogador se pode transformar só por mudar de faixa de rodagem, da Luz para Alvalade. O jogador sente-o e o seu futebol espelha esse estado de alma. É essa nova motivação que assusta os adeptos portistas na hora do regresso ao Dragão. Uma espécie de terceira vida futebolística.