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Luís Freitas Lobo

O que queres ser quando fores grande?

Chegou a hora de responder às perguntas mais difíceis. A mais clássica faz parte do crescimento de qualquer ser vivo (individual ou colectivo).

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

Nani, um jogador em grande momento de forma, que pode fazer a selecção levantar voo

Nani, um jogador em grande momento de forma, que pode fazer a selecção levantar voo

No início do crescimento, a primeira pergunta que mais nos atormenta é simples. O que queres ser quando fores grande? Numa altura em que é possível "querer ser tudo", é difícil dar uma resposta tão concreta. Uma equipa de futebol (como o jogador) também passa por um processo semelhante. Até que surge um momento em que a pergunta faz mais sentido. É obrigatória mesmo. E exige uma resposta clara. A selecção "queiroziana" pós-Scolari foi confrontada com esse dilema cedo de mais. Tremeu, hesitou, mas acabou por descobrir um rumo. Agora, com o Mundial no horizonte, chegou a altura certa de a confrontar com essa questão nos relvados da África do Sul. A selecção atingiu um ponto de maturidade ao qual se pode exigir saber "o que quer ser".

Esta forma de colocar a questão surgiu-me ao ver como, no último jogo contra os Camarões, Nani entrou, jogou, marcou e festejou, com semblante mais fechado, o seu golo num remate encantado que parecia ter feito levitar a bola. O seu percurso, num processo de crescimento humano e desportivo (de Alvalade a Manchester, suplente ou titular) é uma metáfora do caminho feito por esta selecção. Nesse sentido, Nani é hoje o jogador que melhor personifica a sua alma. Porque, no fundo, passou por um processo individual de crescimento (com avanços e recuos, frustrações e alegrias) muito idêntico.

A verdade é que as ideias, quando são apresentadas com coerência e dentro de um plano estratégico consistente, captam a atenção e seduzem a audiência. Pouco a pouco, a selecção de Queiroz foi respondendo aos "porquês" do público mais exigente, através da fidelidade a um projecto e respeito a uma filosofia de jogo. Os jogadores também "cresceram" com ela. Nani é hoje o que mais revolucionou esse pensamento e arrombou com um "chapéu" de grande classe a porta da titularidade no onze. Com a sua atitude, "disse" que a selecção pode ser, no cenário mundialista, tudo "o que quiser". Sonhar com o título mundial será, num mundo futebolisticamente "normal", utópico. Mas combater essa lógica pode ser, no entanto, um bom princípio para esta equipa decidir o que quer ser, agora que já é "grande".

Este será o quinto Mundial da história do futebol português. Antigamente, como aspirante a "primeira figura", parecia um caso perdido. Agora, é diferente. Olhando o passado e o presente, acredito que será aquele em que os jogadores menos sentirão o peso do cenário. Imagino Cristiano Ronaldo a pousar no relvado sul-africano com a mesma segurança de uma ave migratória. Coração forte e detector de minas. Isto é, personalidade com a bola e capacidade de fuga aos defesas adversários. Aos 25 anos, está no auge da sua carreira. A idade onde se cruzam, com maior impacto táctico-atlético, todas as qualidades. Antes da equipa jogar para ele, deverá ser ele, primeiro, a "entender" a equipa. Nesse contexto, o passe que fez para o golo de... Nani pode ser outro sinal de uma boa resposta à pergunta que faz o título deste artigo. Embora não cresça mais fisicamente, Deco, o guia táctico-espiritual-mor, será outra forma ideal de "falar" em campo (através do passe e organização de jogo ofensivo).

Futebolisticamente, este é o tipo de resposta que já só pode ser dada pelos jogadores. Ou melhor, por alguns jogadores com poderes espirituais dentro do onze. Vindos de pontos diferentes, estes três jogadores (Nani, Ronaldo e Deco) marcam a personalidade híbrida desta selecção onde o treinador deve ser sobretudo uma espécie de "coreógrafo táctico". Mais do que a palestra táctica, a palestra emocional. Para a equipa (jogadores) se sentir "grande". E responder sem medo à questão que tanto assusta o nosso crescimento.

Questão de Imaginação

André Villas-Boas é o novo dono do "banco do Dragão". O FC Porto troca um treinador velho caminhante, Jesualdo, com centenas de jogos, 64 anos, por outro, novo profeta, de 32, com pouco mais de duas dezenas, após uma época de estreia.

Ao longo dos anos, em diferentes ciclos, o FC Porto tem apostado (e ganho) com diferentes perfis técnicos, mas esta é a primeira vez em que, mais do que contratar um treinador por aquilo que ele é, contrata-o por aquilo que imagina que ele pode vir a ser. O seu percurso de 'aprendiz de feiticeiro', durante sete anos ao lado de Mourinho, tem um poder de atracção irresistível. A fronteira entre a identificação e a imitação é, porém, tantas vezes tão ténue que muitos não conseguem distingui-la.

Jesus disse não acreditar num grande treinador sem antes ele ter vivido o cheiro do balneário durante longas épocas. Não basta só alguns anos na universidade. Villas-Boas é, nesse sentido, um desafio ainda maior ao actual poder 'encarnado'. É um erro, porém, vê-lo apenas como um projecto de 'clone' (no estilo e nos métodos) de Mourinho. Não é o 'tiro no escuro' que o seu passado invisível pode sugerir. Em 4x3x3 e com 'pressão alta', foi, durante o seu percurso de fiel escudeiro, um 'bom ladrão' que, ao mesmo tempo, criou uma filosofia própria de futebol. Não é isso, no entanto, que o torna treinador do FC Porto nesta fase embrionária da carreira. A sua eleição é uma questão de imaginação. Porque só com um novo 'toque de Midas' fórmula-Mourinho, capaz de transformar a realidade, o FC Porto colmatará o grave erro de cálculo em relação ao crescimento benfiquista feito a época passada.

Só pode existir um

Mourinho tornou-se treinador do Real Madrid e a primeira pessoa com quem falou foi com um... jogador. Não foi, no entanto, com um simples jogador. Raúl, mais do que um símbolo, é uma espécie de alter ego do balneário e da afición. Aos 32 anos, passa mais tempo no banco do que em campo, mas a sua influência na equipa continua intocável. É visto como uma espécie de 'bomba-relógio' que vai estourar nas mãos de quem ousar dizer-lhe que chegou o fim.

Mourinho percebeu isso desde o primeiro instante. Como também se percebeu que Raúl já não faria parte da sua equipa. A conversa foi, por isso, um acto de sedução. Preparar todos os cenários. Sobretudo o mais perigoso, se Raúl decidir ficar como jogador. Porque, nesse caso, nunca será mais um simples elemento do plantel. Terá de ser uma espécie de prolongamento do treinador entre o balneário. Como neste momento é impossível existir essa cumplicidade entre os dois, tudo parece um casamento de conveniência. Por perto, o homem que o lançou aos 17 anos, seu amigo e confidente, o director-desportivo Valdano, que um dia escreveu ser Mourinho o tipo de treinador demasiado interventivo que elimina a ideia de felicidade nos jogadores.

Os três, Mourinho, Raúl e Valdano, cruzam-se agora como chaves de um Real Madrid em busca do renascimento desportivo pós-galáctico. Antes do relvado, o primeiro (e talvez maior) combate espanhol de Mourinho é dentro do próprio "mundo merengue". Até, no fim, dos três só restar apenas... um.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010