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Luís Freitas Lobo

O meu reino por um ponto

Nunca um ponto pareceu tão gigante. Um pequeno passo para um jogador, um grande passo para o "mundo benfiquista".

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

Diz Arsenio Iglesias, logo no início do livro "Arsenio: El Futbol de El Brujo", que "detesto vencedores natos". E ninguém melhor do que ele sabe do que fala. Arsenio Iglesias, agora na reforma, mas acariciando todos os dias uma bola, era o treinador do Corunha naquela sobrenatural noite de Maio de 1994 quando, com o resultado 0-0, o seu defesa-central sérvio Djukic falhou, no último minuto do derradeiro jogo do campeonato, um penálti que daria o título inédito de campeão ao clube galego. Nenhum romance de futebol consegue ser mais dramático do que esta realidade.

Domingos lembrou este caso após um dos últimos jogos do Braga. Pretendia, assim, quase apelar ao sobrenatural futebolístico para sustentar a possibilidade de o Benfica ainda poder perder o campeonato, a única forma de, consequentemente, o seu Braga o ganhar. Disse-o um pouco sorridente. Depois disso, na jornada seguinte, o Benfica perdeu no Dragão. Uma derrota no plano mental (descontrolo emocional em momentos-chaves do jogo) e táctico (dificuldade para entender as diferentes fases pelas quais o jogo passou e, de início, renúncia a uma estratégica que pedia maior astúcia defensiva em vez da permanente visão ofensiva que marcou toda a época).

Não há drama nenhum, claro, em perder um jogo. Sobretudo após 28 em que a equipa esteve tão perto de uma perfeição que quase fazia os jogadores voarem em campo e levantarem os adeptos nas bancadas. A forma como quebrou nos três maiores testes táctico-emocionais (Braga, Liverpool e Porto) diz, porém, algo mais da realidade benfiquista. Uma espécie de 'subterrâneo táctico hostil' onde a equipa ainda não se consegue mover. Jesus sabe disso, mas a confiança nos seus processos de jogo levaram-no a renunciar a essa mudança estratégica com receio de, assim, perder a sua identidade, o ADN táctico de bom futebol que marcou a época.

O melhor que uma equipa (e um treinador) deve fazer é viver (ganhar e perder) com as suas ideias e personalidade. Mas o futebol tem muitos caminhos (e atalhos) tácticos. Em certas ocasiões, há que correr para atacar. Noutras, há que parar para defender. No Dragão, o Benfica não conseguiu descobrir esta fundamental lógica de jogo e perdeu. Uma derrota que voltou a encher o peito de Domingos que, desta vez, não teve de recorrer ao sobrenatural argumento do penálti no último minuto.

A pressão emocional é, por vezes, mais forte do que a questão táctica, mas, neste caso, Jesus não viveu toda a semana nessa "pressão de medos e receios". O jogo com o Rio Ave tem os contornos idênticos àqueles em que o Benfica goleou. Estádio da Luz cheio, atmosfera empolgante, o adversário meio assustado. Faltam Di María, o mágico que finta e inventa no um-para-um. Falta Javi Garcia, a âncora que equilibra toda a equipa desde trás. E falta Coentrão, o lateral que vira extremo quando decide atacar. Poderão surgir Airton, para a casa de Javi, Aimar, de novo titular na casa do maestro, e Weldon, o avançado mais perigoso no qual, estranhamente, Jesus hesita tanto em apostar de forma firme. Todos jogadores (talentos) com qualidade suficiente para ultrapassar o gigantesco fosso de um ponto que separa o Benfica do título. Mesmo com um penálti no último minuto.

90 minutos para o final. A última fronteira. Um jogo e o estádio com o secreto desejo de que pudesse existir em campo uma bola para cada jogador benfiquista. Não é possível. A potência sem controlo não existe. Entender as lógicas de cada jogo é o segredo. Este Benfica sempre elegeu a opção mais tremenda, voraz e ofensiva. Será a indicada para dar o último passo. Ou não?

O maior 'ladrão'

Jesus revolucionou o Benfica, Domingos inventou um candidato em Braga, Paulo Sérgio vai para Alvalade e Jesualdo ainda mostra que sabe muito. Depois de uma longa fase aberta às influências estrangeiras (de liderança, personalidade e saber táctico), o futebol português reconciliou-se com os seus treinadores. Perdeu os complexos.

Esta regeneração do treinador português levanta o ego lusitano de pensar futebol. Traduz um novo ciclo, mas, olhando o contexto, fica a ideia de ser uma construção vinda do seu interior. Isto é, não foram os clubes a chegar a esta conclusão. Foram os treinadores, ideias e resultados, em contraste com as opções estrangeiras do passado, a mostrar que estava na identidade portuguesa de pensar o jogo a melhor forma de responder às questões que actualmente se colocam aos nossos clubes e ao futebol jogado.

Perceber uma realidade muito própria é a melhor forma de lidar com ela. Nesse sentido, Jesus e Domingos, para lá das diferenças de estilo, fizeram muito, no plano global, pelo eclodir desta 'nova vida' do treinador português ao mais alto nível.

Neste ponto da história (com o melhor treinador do mundo também português), esta opção era fundamental. Tacticamente, o treinador nacional é dos mais inteligentes do mundo. Domina o treino e a leitura de jogo. É multicultural, sem complexos de ouvir outras escolas, mas tem um orgulho que não o deixa converter-se. Prova, como diz Capello, que "o melhor treinador é o maior dos ladrões". Aprende em todos os sítios e com todos os outros técnicos, mas, no fim, mete as suas ideias e cria uma filosofia própria global. O futebol português, não duvidem, sempre esteve cheio de grandes 'ladrões'. E Domingos é um dos maiores.

O melhor FC Porto

O cabeceamento 'arranha-céus' de Bruno Alves ganhando a Luisão, o instinto de Farías e o remate fulminante de Belluschi. Três nomes, o 'capitão' e dois 'incompreendidos' da época, para três golos que resgataram o orgulho portista no clássico contra o Benfica.

Jesualdo não gosta de falar do 4x4x2, mas é nesse desenho táctico que a equipa se aproxima do seu melhor futebol desta época. O 4x3x3 perdeu-se com os alas desaparecidos. O FC Porto viveu muito tempo da época preso a 'respostas velhas' em termos de filosofia de jogo, quando os novos jogadores pediam respostas diferentes. Nesse contexto, até Guarín parece outro jogador. Jesualdo diz que, por fim, eles apreenderam os conceitos de jogo da equipa. Disse-o quando falta uma jornada para terminar o campeonato. A refundação táctica não é, no entanto, apenas questão de um sistema de jogo. É uma questão de jogadores e, sobretudo, entender as suas características. Só depois disso faz sentido falar em desenhos para encaixar jogadores.

Que bases leoninas?

Com o seu futuro treinador, Paulo Sérgio, a lutar pela Europa em Guimarães, o Sporting encerra a época com o actual técnico a divagar sem direcção pelos corredores da Academia. Mais de meia época depois da saída de Paulo Bento, ainda não se detectou verdadeiramente o que fica do trabalho de Carvalhal para a seguinte. A equipa (os jogadores) estabilizou emocionalmente, pelo meio ficaram algumas boas exibições (sobretudo na Europa) e uma ideia mais clara das assimetrias que marcam o plantel em muitos sectores. Na personalidade, porém, fica uma imagem mais clara: antes de formar um 'onze-base', o Sporting precisa de encontrar um 'cinco-base'. Isto é, reinventar os líderes de balneário, jogadores que com um simples olhar indiquem o caminho ao resto do grupo. É um processo complexo, mas nenhum treinador sobrevive se não tiver este 'núcleo duro' dentro de qualquer grupo. No futebol, é como se a alma tivesse calções e chuteiras.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010