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Expresso

Luís Freitas Lobo

O Ferrari e o helicóptero

O ego dos jogadores e a construção da equipa. Do balneário para o relvado. O espelho e o gel, a bola e a chuteira. Todos rumo ao Mundial.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

Ronaldo a chegar de helicóptero a um estágio. A selecção na fronteira do surrealismo

Ronaldo a chegar de helicóptero a um estágio. A selecção na fronteira do surrealismo

José Oliveira/TV Mais

Uma selecção é uma babilónia de egos. Cada jogador transporta consigo os seus sonhos. A noção de equipa ou do adepto não existe à partida como num clube. Como não existe a imagem de autoridade do presidente e até a do treinador é mais ténue. Ele não decide o futuro, só o presente. Com este contexto, a primeira tentação do jogador é sentir-se mais importante do que o grupo. Cada um chega com o seu 'mundo particular'. De boleia com a namorada, em grupo quando são amigos mais próximos, sozinhos no seu carro (variando a cilindrada), há de tudo. Um Ferrari, um jacto para ir passar um fim-de-semana a casa e até um... helicóptero. Na mala, playstation, iPod, iPhone, DVD, e tudo aquilo que pode ajudar a compor o visual. Um jogador com gel, penteado na moda, roupa de marca. Está criado o cenário ideal para começar a 'trabalhar' (treinar).

Cristiano Ronaldo há muito que disparou do terreno do futebol português para outra galáxia onde é difícil estabelecer contacto. Ver um jogador chegar de helicóptero ao estágio de uma selecção coloca-nos na fronteira do surrealismo. Um gesto hollywoodesco que foge à noção de grupo. Porque isto é 'apenas' futebol. A base, jogo e construção da equipa, não foge muito ao que se fazia há 40 ou mais anos, com jogadores só de 'carne e osso'. Por isso, quando no Brasil voltamos a jogar com a 'bola quadrada' (como diria o saudoso Carlos Pinhão) sugeri que uma medida a tomar seria a de tirar os espelhos do balneário. Continuo a pensar o mesmo. Queiroz sabe construir egos. Formou uma nova mentalidade de jogador português. Outro desafio é gerir egos. Mais difícil, ainda, num tempo em que o jogador se sente mais importante do que a equipa. Isto é, respeita o colectivo, mas não o preconcebe na sua mente.

Mas, de repente, a bola começa a rolar. O 'ego táctico' desta selecção ainda não se libertou do 'ego dos jogadores'. O jogo vive de 'picos'. Muda de velocidade sobretudo através de iniciativas individuais. Falta a interacção (mental e táctica). O sistema é importante mas só como princípio da acção.

Tacticamente, discutir hoje a selecção é pensar em Pepe. Vai ou não recuperar e em que condições? Vendo a missão que Queiroz pede àquela posição (médio-centro defensivo) ele é a 'âncora' do sistema, o pilar (táctico/atlético) da organização defensiva. Pedro Mendes, o seu substituto natural, até é mais evoluído com a bola e no passe, mas a questão é que, naquele espaço, Queiroz prefere antes um jogador com maior dimensão física, jogo aéreo (também nas bolas paradas) e velocidade.

Ronaldo continua na selecção, tal como no Real Madrid, a jogar (e a querer resolver as coisas) demasiado depressa. Sempre que pega na bola é uma passagem para outra fronteira de velocidade que só ele entende. Corre e joga mais depressa do que o resto da equipa. Tal não implica, porém, que pense primeiro o jogo, colectivamente falando. Nesse ponto, Deco, mesmo parado, pensa o jogo (a decisão mais correcta a tomar) pelo menos 'cinco segundos' antes de Ronaldo. Ou seja, a velocidade no futebol tem interpretações (e aplicação) diferentes de outro desporto. Nesta fase da sua carreira, maturidade futebolística atingida, é este factor que mais confunde ao ver o jogo vertiginoso (empolgante mas difícil de acompanhar) de Ronaldo. Às vezes, desde a bancada, fico com a ideia que ser seu companheiro de equipa não deve ser fácil.

A babilónia da selecção está, porém, garantida. O Ferrari de Hugo Almeida, o jacto de Deco, o helicóptero de Ronaldo. Upgrades estilísticos fora das quatro linhas. Falta, agora (entre o 4x3x3, o 4x4x2 e a noção de equipa) o upgrade, táctico e humano, dentro do campo.

Estratégia Estética

Ao longo do tempo, a discussão sobre a estética do jogo dividiu escolas. Mais do que a táctica, o confronto entre as diferentes prioridades de uma equipa em campo: fechar ou abrir espaços, 'matar' o jogo adversário (jogando sem bola) ou assumir o nosso (com a maior posse possível), 'pressionar' ou jogar.

Mourinho é um ícone dos tempos modernos. Mais do que o futebol, o culto da imagem. O fashion-style como instrumento de força e sedução para conquistar adeptos e liderar grupos de jogadores. "D. Juan dos bancos". Mas, depois, há a bola e a equipa na relva. Nesse ponto, a primeira tentação é colocá-lo no chamado "lado lunar" do jogo. O tal futebol defensivo que vive à espera do erro do adversário. Do outro lado, Guardiola, o romântico que, com técnica poética, faz a bola sorrir 90 minutos.

No geral, esta dicotomia até pode ser verdade, mas, em rigor futebolístico, é muito redutora. Porque Mourinho joga sempre um jogo 'diferente' por cada jogo que disputa. Ou seja, ele é, na forma distinta como prepara cada jogo (estudando o adversário) o auge do futebol mais forte da actualidade: o quase maquiavélico "futebol da estratégia".

Cada jogo seu na Champions teve o mesmo "genoma ideológico", mas, depois, com as chamadas "nuances tácticas", teve sempre respostas diferentes para perguntas (jogos e adversários) diferentes. Desta forma, leu sempre primeiro o jogo do que Ancelotti, Guardiola ou Van Gaal. Sem grande sedução estética, é verdade. Com grande estilo, táctico e humano, sem dúvida. É esse o grande treinador (e futebol) dos tempos modernos. Seduzir (e ganhar) pela estratégia. Dentro e fora do relvado. Em 4x2x3x1 e barba de três dias.

Baliza Solitária

Titular em todos os jogos no clube, grandes defesas na selecção. Duas realidades que desenhariam quase o mundo ideal para um guarda-redes. A vida, porém, não é assim tão simples. E, de repente, tudo muda. Dispensado pelo clube, não convocado para a selecção. É difícil entender a lógica futebolística da situação em que caiu Quim, o guarda-redes campeão, que acabou 'despedido' em directo pelo seu treinador na televisão.

É legítimo querer "um melhor guarda-redes". É quase "paradoxal" abordar essa ideia partindo da dispensa do nº 1 menos batido do campeonato. No fundo, Quim acabou vítima da sua imagem pouco convencional de guarda-redes. Não tem a pose elegante imperial de Baía ou do velho Damas. Mas, se recuarmos na história encarnada, lembro-me logo de um guarda-redes ainda mais inestético, cabelo desgrenhado e baixo. Bento, claro. Não existe, porém, lugar em campo mais solitário do que uma baliza. Para Quim, essa metáfora futebolística tornou-se a história da sua vida.

Jogar de 'costas'

Falcão, o ponta-de-lança do FC Porto, foi de férias e, no balanço da época, disse o que mais o faz crescer: "Aprendi a jogar de costas para a baliza!". A frase, por si só, pode parecer quase um contra-senso. Como pode um goleador viver no sentido contrário das redes? Pois, não só pode como é indispensável para fazer golos (ou começar a fabricá-los).

Cada posição tem as suas especificidades. O jogador sul-americano na Europa necessita sempre de um período de adaptação. Uma nova relação com o espaço, mais reduzido, com marcações mais apertadas. Na prática, isso obriga o clássico nº 9 a ser mais... jogador do que só finalizador. Tem de jogar numa maior área de terreno. Ou seja: rematar já Falcão sabia desde o berço; agora, aprendeu a não 'matar' a bola na recepção e, muitas vezes, passá-la a colegas que vêm desde trás, desmarcando-se logo depois. Continuou goleador, cresceu como jogador.