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Expresso

Luís Freitas Lobo

O código de Quique: a sombra

Juan Felpa foi um antigo guarda-redes. Podia ter sido famoso e recebido medalhas, mas tudo se desvaneceu num segundo, quando na final da Taça da Patagónia, depois de defender um penálti no último minuto, inebriou-se pelos aplausos e foi buscar, com a bola debaixo do braço, o chapéu dentro da baliza. Nunca mais ninguém lhe perdoou. Teve de sair a cidade, deixar o clube e o futebol, passando a viver incógnito. Esta história é um conto de futebol argentino. O mais certo é mesmo ser tudo inventado, mas gosto de pensar que aconteceu mesmo. Porque mostra, de forma exemplar, como o futebol é uma história de heróis e vilões.

Quim não precisou de ir buscar o chapéu ao fundo da baliza para conhecer o lado 'cinzento' desta história. 13 golos sofridos em 13 dias colocaram-no como o vilão do 'casa encarnada'. Revemos alguns desses golos e em alguns sente-se que podia ter feito mais, mas centrar o debate da equipa do Benfica no guarda-redes é fugir à essência dos problemas do seu jogo. A questão está na ligação entre sectores. Ou seja, em campo, a equipa 'parte-se' facilmente e passa a existir uma excessiva distância entre meio-campo e ataque. Sucede quando tenta controlar o jogo. Nessas alturas, sem capacidade para segurar a bola a meio-campo, fazendo-a circular, o sector intermédio recua e encosta-se à linha defensiva, ficando muito perto da área. Noutras fases do jogo, quando o domina, também 'parte' o jogo, mas nesses momentos, a atacar, com o meio-campo subido, está no espaço onde se sente melhor e tem melhores jogadores (extremos e avançados). Sem uma afinação perfeita do duplo-pivô central (base do 4x4x2 clássico) e sem definir o jogador capaz de ser o chamado "box to box" (isto é, que joga de área a área) o onze 'parte-se' sempre pelo corredor central. O losango era uma solução, desde logo no posicionamento inicial, para unir melhor a equipa, mas sem Aimar esta alternativa perde o elemento essencial do vértice ofensivo.

Sem inteligência e classe individual a meio-campo para controlar um jogo escondendo a bola, a equipa, que muitas vezes até entra bem no jogo, demonstra depois incapacidade táctica para 'reagir' ao desenrolar dos jogos.

Neste momento, mais do que a questão europeia, é fundamental posicionar o treinador Quique Flores em relação ao futebol português para perceber o futuro deste Benfica. Neste mundo particular existem muitas equipas cujos comportamentos são naturalmente previsíveis. Em geral, reagem de forma diferente da maioria das equipas espanholas. De uma forma mais desordenada mas difícil de controlar. Quique ainda não se sente uma personagem deste mundo e passa ao lado das "nuances" estratégicas específicas que cada jogo pede. A equipa ressente-se disso. E reage mal ao jogo. Sobretudo quando o tenta controlar sem ser antes capaz de o entender, circunstâncias e equipas adversárias. A importância de um adjunto português é fundamental nesses momentos quentes do jogo. Até uma 'velha raposa' como Trapatonni o sentiu e puxou para seu lado. Diamantino vê os jogos na tribuna, longe do banco. O seu posicionamento na equipa técnica é hoje algo que faz sentido debater.

É difícil, portanto, vagueando por todo este mundo benfiquista, encontrar lógica para o analisar a partir do guarda-redes. Não é uma mera questão de descobrir heróis e vilões. Mais do que uma bicicleta mortífera no último minuto, a sua 'caixa de pandora' abre-se a partir dos códigos tácticos de Quique.

O valor da imagem

Quanto vale a imagem na construção de uma carreira no futebol? Pensemos nos treinadores. No banco do líder sensação, o insolente Leixões, um homem que não imaginamos em campanhas publicitárias. José Mota veio das profundezas do futebol arrancando pela raiz. Na época passada, o boné com que surgia a falar à imprensa quase o levava para o campo dos "cartoons".

Da varanda de casa vê o relvado do Paços de Ferreira e foi nesse espaço que inventou um futebol com estilo próprio. As suas equipas são feitas à sua imagem. De sobrolho carregado. Por isso quando se dizia que ia jogar "à Paços" logo se pensava numa atitude aguerrida e carácter ganhador. Por vezes, até tinha técnica mas ninguém vê Zé Mota por esse prisma. A sua imagem cimentou-se no plano da atitude e imaginámo-lo sempre como um sobrevivente. Um homem, um treinador para transformar jogadores em guerreiros.

O seu Leixões é, porém, mais do que uma mera equipa lutadora. É uma equipa que joga bem. Com atitude, na táctica e na técnica. Apesar desse aroma, Zé Mota continua com a mesma imagem. Nem poderia ser de outra forma. Porque é a sua essência. Que faz dele um sobrevivente. Do que depende então para dar o salto e ganhar outra forma de vida no futebol? Olhando todo este cenário, parece que para um treinador o bom futebol da relva só tem projecção se acompanhado com o culto da imagem. Entrar na moda. Barba de três dias, cabelos grisalhos e golas do sobretudo para cima.

O síndroma de Zé Mota é apenas mais um "flash" da feira de ilusões em que se tornou o futebol actual. Mais do que competências, vende imagens. Zé Mota sobrevive com a "primeira parte" desse jogo. Sincero, sem maquilhagem. Como o verdadeiro bom futebol, e o bom treinador, deve ser. Tudo o resto são apenas miragens. O ilusório valor da imagem.

Marítimo: uma ilha

Os olhares desconfiados que o receberam esfumam-se com a mesma velocidade com que Djalma passa adversários. Lori Sandri, depois de Lazaroni, um novo treinador brasileiro na Madeira. Pegou na babilónia que nas últimas épocas tem sido a equipa do Marítimo e deu-lhe uma personalidade sólida. O primeiro passo foi criar um onze-base. Depois, dar-lhe um padrão de jogo. Mobilidade. Por fim, soltar os melhores jogadores.

 

Esta equipa do Marítimo tem isso. Vê-se que sabe os terrenos que pisa em campo. Na forma como a defesa se desdobra, fazendo variar o sistema, está o segredo da segurança defensiva (a melhor defesa do campeonato) e da construção de jogo (terceiro melhor ataque). A chave é o lateral-direito Paulo Jorge. Com bola sobe e é médio ou até extremo. Fica então com três defesas (3x4x3). Sem bola, recua e recompõe o quarteto defensivo. A atacar, o tal jogador que desliza por entre os defesas: Djalma.

Como moldura de tudo, a técnica. De pé para pé até à área adversária. Uma equipa, uma ilha de bom futebol.

Labirinto Vukcevic

O losango do Sporting é um edifício em permanente construção. Cada vértice tem um jogador. Cada um como uma peça daquela máquina geométrica. Há peças, no entanto, mais sensíveis do que outras. Moutinho, Izmailov e Romagnoli conhecem as suas dinâmicas, mas depois falta à 'máquina' o traço rebelde. Falta o rasgo de Vukcevic. O lado 'humano' confunde o seu talento.

Por isso, tornou-se quase como a 'ovelha negra' desse losango. Dirão que sem esse temperamento o seu jogo ficaria igual aos outros. É um pouco verdade. Afinal, as 'ovelhas negras' apenas são sacrificadas, na vida como na lenda, por serem diferentes. Entender a diferença de Vukcevic é o primeiro passo para o integrar na equipa. Antes é necessário entrar na sua cabeça. Tudo isto é trabalho do treinador.

Todos têm as suas 'ovelhas negras'. Para Paulo Bento, porém, esta não é só diferente. Ela faz mesmo a diferença. Se encontrar a saída do labirinto que é a personalidade de Vukcevic, encontra a fórmula certa para o losango ganhar asas na relva.