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Luís Freitas Lobo

"Nós não queremos a bola!"

Em Barcelona, o cínico guião de Mourinho derrotou o futebol bonito de Guardiola

Alessandro Bianchi/Reuters

A bola não é imprescindível para vencer. Mourinho e o seu exército táctico ganham Barcelona. 11 jogadores e um muro.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

Quando, cerca de meia hora para começar o jogo, Mourinho entrou sozinho no relvado do Camp Nou para acompanhar o aquecimento da sua equipa, a explosão de assobios que 100 mil pessoas enlouquecidas lhe dirigiram levava toda aquela atmosfera para dimensões quase sobrenaturais. O seu semblante esfíngico, sobrolho carregado, enchia os ecrãs gigantes do estádio. Naquela altura os seus jogadores como que deixavam de existir. A pressão estava toda sobre ele. Mourinho é hoje muito mais do que um simples treinador. Mestre da táctica, defensor de um futebol científico, desenhando em blocos de papel quadriculado fórmulas defensivas com o sorriso do diabo, joga com a mente como mais nenhum outro.

O Barcelona com a bola (76% de posse!). O Inter com o controlo do jogo. Como é possível estas duas realidades coexistirem simultaneamente? Simples: o futebol não respeita percentagens. Só ideias. E, neste mundo de paradoxos, nem sempre as esteticamente mais sedutoras vencem. A explicação quase nos leva para um 'labirinto'.

Pode parecer estranho, mas no táctico futebol moderno um dos factores mais importantes numa equipa é em campo saber perder a bola! Ou seja, quando têm a posse da bola, os jogadores devem estar sempre conscientes de que a única coisa inevitável (não marcando golo, o que é raro) é perderem-na! 'Saber perder a bola' significa que quando o adversário a recupera e parte para o ataque a equipa não fica desequilibrada a nível de posicionamento defensivo. Não é fácil. Por isso, Mourinho explicava no final do jogo contra o Barcelona que, durante o jogo 'dos milhões', os momentos de maior preocupação foram aqueles em que a sua equipa... tinha a bola!

A razão é simples: receava que quando a perdesse, também perdesse o rigor posicional defensivo, sem dar um centímetro de espaço para os artistas do Barça furarem. Por isso, confessou ter mesmo dito aos seus jogadores: "Nós não queremos a bola. Deixem-na para eles!". E todos respeitaram, sem mexer um nervo da face, esse cínico guião táctico, erguendo um autêntico muro à frente da sua baliza.

Dirão que o Inter não joga sempre assim, que estava com dez, que já fez boas exibições a atacar ou em contra-ataques (como na primeira-mão ou em Londres com o Chelsea), mas, em Barcelona, contra o futebol de passa-recebe-passa de Guardiola, aquela seria uma opção estratégica consciente.

É este o ponto a que chegou o futebol actual. Elogie-se a mestria estratégica ou condene-se o futebol ultradefensivo, ele espelha as equipas da actualidade, que são, cada vez mais, 'exércitos tácticos' comandados pelos seus treinadores. Nesse universo, a bola é quase um ser estranho. Já não é indispensável para ganhar. Leva aos pensamentos mais bizarros. Comentando o jogo em directo, cheguei a dizer coisas como "Diego Milito está a fazer uma grande exibição mas sinceramente... não me lembro de o ver tocar na bola alguma vez!". Tudo isto perturba mais do que fascina. Por isso, num ápice, o génio de Messi eclipsou-se, Eto'o virou defesa-esquerdo, Ibrahimovic foi substituído, passando um defesa-central para ponta-de-lança, Piqué, que fez um golo, e o melhor em campo é um 'trinco', Cambiasso, o 'aranha', que cortou tudo o que lhe apareceu à frente.

Mourinho inventou uma personagem que, em forma de treinador de futebol, vive muito para lá do 'ser humano'. Nesse contexto, até a bola parece um objecto misterioso dentro do relvado. É quando o seu 'exército' se sente melhor.

Orgulho Clássico

Como ciência fria, a matemática seria a forma mais implacável de dizer a importância do resultado de um jogo e, por inerência, a carga emocional que o iria rodear. Nesse sentido, este FC Porto-Benfica, no crepúsculo do campeonato, pouco importaria. Está quase tudo resolvido. O Benfica ainda tem de fazer um ponto para ser campeão, mas para isso até tem, depois, um jogo em casa com o Rio Ave. Só que o futebol não é mera matemática. Mete orgulho e rivalidade histórica. É nesse plano que este clássico se coloca.

No orgulho, a alma azul-e-branca. Impedir que o Benfica festeje o título no seu castelo. Reforçar a "teoria da conspiração", ganhar com Hulk à solta. Para Jesualdo, quando todos o olham desconfiados, uma questão quase de orgulho pessoal no confronto com o treinador-alquimista, que, dizem, marcou a diferença na época. Para Jesus, chegar ao título no Dragão seria a suprema insolência. Confirmar que o melhor Benfica também se expressa nos territórios emocionais mais hostis.

Não será um jogo para grandes duelos tácticos. Será para duelos mentais. Nesta fase final, os treinadores já nada têm de novo a dizer aos jogadores nem eles o apreenderiam. Por isso, a equipa mentalmente mais forte será tacticamente a melhor dentro do seu plano de jogo habitual. No duelo goleador falta um protagonista, Falcão. No relvado, solitário, Cardozo, o outro maior 'caça-golos' da Liga. Não muda o jogo todo, mas muda uma parcela decisiva dele: o que se passa dentro de área, onde os dois, com estilos diferentes, marcam a diferença. Esqueçam a questão simbólica dos três pontos. Aqui joga-se outra coisa: orgulho. Uma palavra que, no futebol, devora qualquer análise matemática. Ainda bem.

Buscam-se 'craques'

Procurar os jogadores que, em cada posição, brilharam mais no campeonato, leva-nos até ao Benfica e ao Braga. Em colectivos tacticamente fortes, o talento do jogador respira melhor. O maior enigma é a quebra do FC Porto. Ver como Bruno Alves escureceu o seu futebol ou como Fernando e Rodríguez foram uma sombra do passado. É sobretudo um problema colectivo a que escapou um fabuloso ponta-de-lança, Falcão.

Nessa linha, até a adaptação de Coentrão a lateral-esquerdo no Benfica produziu efeitos, porque nessa posição pensa sobretudo em atacar e as exigências competitivas do nosso campeonato são baixas. Custa não ver nesta lista a classe discreta de Ruben Amorim, médio ou lateral. Na magia da finta veloz, Di Maria, um extremo que arrancava desde o espaço dos médios.

O Braga foi perdendo jogadores pelo caminho, mas Moisés, pelo carácter defensivo, e Alan, pela imaginação ofensiva, são os seus maiores símbolos.

Para recordar fica a aparição de André Santos e Ruben Micael, médios de classe, e as boas defesas de Nilsson.

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010