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Expresso

Luís Freitas Lobo

Na terra onde vive Ronaldo...

Vamos recuar cem anos. Ou, fazendo um esforço, até um pouco mais. Procurar registos de jornais velhos nesta altura de final do ano é quase como viajar até ao centro da existência moderna. Vida, sociedade, política e, claro, futebol. Retenho-me no 'Sunday Times' de 1905. Há 103 anos, portanto. Figura do ano no futebol: Alf Common. Quem era? Pois bem, era um craque que, no tempo em que o profissionalismo na bola começava a mostrar os dentes, causara sensação, não só pelo que jogava, mas sobretudo porque o Middlesbrough perdera a cabeça e contratara-o ao Sunderland pela soma astronómica de 1000 libras! Indignados, os jornais perguntavam: "Onde é que isto irá parar?".

Imaginemos que esses jornalistas viajavam no tempo e abriam o jornal de hoje. Figura do ano no futebol: Cristiano Ronaldo. Descontando o espanto por ver um português a dominar o planeta do futebol, um simples olhar para a proposta de contrato que o Real Madrid fez para o tirar de Manchester por 60 milhões de euros, faria num ápice desmaiar os escribas desse tempo. O que mudou então no passar do século?

Pensemos no jogador tentando diluí-lo numa fórmula química: Talento (cabeça) + carácter (coração) + técnica (pé) = futebol. É, acredito, uma boa forma de descodificar o genoma de Ronaldo. Como seria, talvez, o de Alf Common. Ou, ainda, nos dias de hoje, Kaká, Messi ou Ibrahimovic. Depois, cada um deles, tem o seu estilo, a sua forma de expressão. Mais guerreira ou malandra, mais "griffe" ou "dandy". Como moldura da fórmula, o jogo (táctica).

Bertold Brecht disse que "o ser humano que não se diverte com as coisas que faz não pode pretender que essas mesmas coisas sejam fonte de prazer para os outros". Pensava em teatro, não em futebol, mas esta frase faz lembrar uma história, de Ernesto Sábato em 'Heróis e Tumbas', na qual dois jogadores, o Chaca e o Lalín, conversam ao intervalo sobre como resolver um jogo que seguia 0-0. Então, Chanca vira-se para Lalín e diz-lhe: "Cruza-me a bola ao primeiro poste que eu entro e faço golo". Começa a segunda parte e Lalín cumpre o combinado. Chanca entra com tudo e, como dissera, faz o golo. Corre depois eufórico para abraçar o colega: "Viste? Eu não disse?". Lalín, impávido, nem festejou: "Sim, mas assim eu não me divirto!...", respondeu amuado.

Ronaldo fez o passe para Rooney fazer o remate que bateu o simpático LDU Quito, do Equador, dando o título mundial de clubes ao Manchester United. A seguir foi festejar, de braços abertos, com o colega. Sentiu a fórmula do jogo. Não sentiu a fórmula do jogador que faz a sua essência. Porque a grande diferença através das épocas tem sido feita sobretudo pela força das imagens. É por isso que a imagem de Ronaldo ao preparar-se para marcar um livre, encenando a concentração, o encher do peito, a pose de culturista que num ápice vai virar jogador de futebol, devora muitas vezes todo o jogo. No início, até pode olhar para o ecrã gigante e ver se tudo está perfeito, ajeitar inclusive o gel no cabelo. Depois é o "rocket" remate, a bola quase como uma serpente que sobe e desce vertiginosamente ao chegar à baliza. Só estas bolas modernas descrevem esses efeitos, impossíveis com as antigas com o couro atado por cordas. É outro futebol. Consomem-se imagens. Perderam-se as crenças. Como diria Osvaldo Soriano, é "desenhos animados para adultos".

Os sábios do ano

Não existe idade para ser jovem. Não existe tempo certo para ganhar. No futebol, não faz sentido falar em destino. O minuto 92 da carreira de um treinador pode ser o ideal para dar sentido a todo o 'jogo da vida' no futebol. Jesualdo, no FC Porto, e Aragonês, em Espanha, ambos velhos caminhantes da bola, chegaram por fim aos grandes títulos quando a estrada da carreira já escurecia. O 'avô' espanhol aos 70 anos. Jesualdo na alvorada dos 60. Esqueçam as velhas e novas gerações. São treinadores da nova vaga a viver e pensar o jogo. Costuma dizer-se que os jogos ganham-se nos detalhes. É dos maiores erros que ouço no futebol. Os jogos, como as carreiras, não se decidem nos detalhes. Decidem-se nas grandes competências. Vale para os jogadores. Vale para os treinadores.

Relâmpago do ano

E de repente fez-se um clarão de luz no jogo. Abrese uma clareira de relva e nela surge um jogador fininho com pés compridos. Um chapéu sobre a Nigéria e a eternidade conquistada. Dí Maria é conhecido por caminhar na outra Luz, aquela onde a águia voa, mas foi na sua Argentina que surgiu, no Verão, como um 'relâmpago' para decidir o título olímpico. É um jogador de 'picos'. O seu jogo em frequências cardíacas estaria na maior parte do tempo perto da "flatliner". Mas, de repente, batida forte do coração. O jogo subitamente acelerado. Outro instinto e arranca com a bola. A velocidade e o golo como ouro olímpico. Dí Maria, um relâmpago na relva.

A 'girafa' do ano

Não tem o estilo elegante do craque "top model", estilo Ronaldo, nem o andar 'moleque' do génios da rua, estilo Messi. Esta girafa é diferente e veio do frio. Um 1,92m que fazem a bola ser pequena. Num ápice, porém, ela transforma-se numa 'bomba' a caminho da baliza adversária. Noutras vezes, um toque impossível ou um calcanhar nas alturas e o jogo parece desenhos animados. Ibrahimovic é, em campo, um jogador 'bomba-relógio'. Porque caminha sem fazer muito ruído. Quase parece planar sobre o relvado. Visão de pássaro que depois se transforma com a aproximação da bola até explodir, no passe e remate. O melhor projecto sueco para a 'Bola de Ouro'. É mais do que um ponta-de-lança. É uma máquina de bom futebol. Uma 'girafa' com pés de bailarino.

A 'âncora' do ano

Cada equipa tem a sua forma de se agarrar à relva durante 90 minutos. Os responsáveis são 'âncoras' de todo o relógio táctico. Um tique-taque, tique-taque que se ouve da bancada. Os nossos relvados conheceram essa precisão nos pés de um jogador que mesmo depois de sair continuou a ser dos mais falados. Porque, mais importante do que a sua presença, só mesmo a sua ausência. É Paulo Assunção, relógio do FC Porto campeão. Partiu para Madrid. Deixou a herança. O onze abalou nas raízes. O treinador ao mexer nesse espaço é como um cirurgião numa operação de coração aberto. É o peso do 'homem-âncora', o jogador mais importante na posição mais delicada do futebol moderno.

O segredo do ano

É o eterno debate do futebol português. A busca pelo ponta-de-lança, o último elo entre o nosso jogo, sempre com superioridade moral, e a baliza. Nem com Pauleta os corações suspiraram. Faltará trabalho de base, escola, para fazer crescer um jogador desse tipo desde o berço. Aprender o jogo nesse espaço e lapidar movimentos (diagonais curtas e poder de desmarcação) que o tornem num nº9 especialista. Talvez por isso sinto hoje tanta atracção por um miúdo que há tempos foi para as escolas do Arsenal, seduzido por Wenger, buscando refinar esse jogo. É Rui Fonte. Fez 18 anos em Abril. É, ainda, uma estrela escondida. Quem o vê jogar, porém, ganha fôlego para sonhar com o fim dessa quimera do nº9. Estará aqui o ponta-de-lança do futuro para o nosso futebol?

O 'poema' do ano

Médios especialistas (Senna-Xavi-Iniesta-Fabregas) para o coração de uma equipa que fez da técnica a... táctica. Na frente, avançados (Villa e Torres) que definem. Nas costas, os médios que pensam o jogo. A bola segura. Tratada com carinho. Depois, mudam de velocidade. É o momento de mostrar quem melhor constrói o jogo. Diferentes momentos e ritmos sublimados nesta Espanha através da posse, do passe e da recepção orientada de todos os jogadores (isto é, ao receber a bola já a encaminham ao mesmo tempo para o espaço certo de forma a dar seguimento ao jogo). Uma equipa para pendurar na parede de qualquer balneário, com uma moldura bonita. Todas as equipas deviam olhar para ela antes de entrar em campo. Porque 'jogar bem' é isto!

A 'nuvem' do ano

Imaginamos uma coisa, na relva e nas primeiras páginas. A realidade, insensível à imaginação, traz outra ideia. E tudo se desmorona como um 'castelo de cartas'. Não há drama nenhum nisto. A vida é assim mesmo. Uma feira de sonhos destruídos. O futebol também. A nossa selecção respeitou esta lógica, mas por caminhos que tornaram esse fim do sonho menos pacífico. Em campo, a equipa foi uma sucessão de impulsos individuais. E perdeu, fiel à dura realidade. Fora dele, Scolari partiu e no novo ciclo, o regresso de Queiroz, 2008 parece resgatar 1993. A bola que não entra, uma goleada no Brasil e o seleccionador no banco com as mãos na cabeça. A selecção passou o ano a jogar sob 'nuvens escuras'. O problema maior, porém, é ver como elas surgem agora no horizonte.