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Expresso

Luís Freitas Lobo

Futebol numa bola de cristal

Pode-se falar de futebol de várias formas. Os grandes debates tácticos ou os excessos das discussões de café. Todas são legítimas. E uma não impede a outra. Em banda desenhada também. De forma séria. Como faz o gaúcho Caloi, em livros profundamente disparatados, mas com grande astúcia, como em 'Com o desporto não se brinca', onde conta o diálogo entre treinador e jogador na hora da substituição: "Nota bem, joga como médio recuado mas atacando. Fecha no meio e sobe em diagonal. Faz passes cruzados curtos e longos, e surge de surpresa na área". O treinador falava, falava, na sua obsessão táctica. "Não te esqueças. Pára, acelera e desmarca-te de meia distância". O bombardeamento de instruções prolonga-se por vários quadradinhos. A cara do pobre jogador é de alguém confuso e assustado. "Mete a bola, abre e joga entre linhas quando caíres na faixa". No último quadradinho, o jogador já está com um pé dentro do campo quando o treinador se levanta como uma mola e diz-lhe: "Ah, outra coisa: Joga solto, alegre, sem te preocupares com nada!".

É uma boa história. Exagerada, claro, mas que traduz, em caricatura, a mente de um treinador durante um jogo. O que pretende ele, afinal? Misturar vários tipos de jogadores. Artistas e rústicos. Disciplinados e rebeldes. Controlar o risco, tornar o jogo previsível. Um alquimista, portanto. Jesualdo Ferreira, Paulo Bento e Fernando Santos vivem por entre este mundo. Todas as semanas. Como a personagem de Caloi. Mas não há que fazer confusões. Nem tanta ordem, nem apenas "entra e joga". Extremos filosoficamente entre o medo e a ilusão.

O FC Porto continua a ser uma equipa construída à navalha por Jesualdo. A intenção é dar maior robustez física e táctica ao meio-campo. Dirão que são assim as grandes equipas europeias do presente. É verdade, mas o "habitat" onde jogam é diferente. Ou seja, esta filosofia parece ideal para lutar com esses monstros na dimensão internacional. Nas clivagens da nossa Liga, tal arrisca retirar criatividade, táctica e técnica, à equipa que mais do que entrar a pensar em controlar o jogo, devia antes entrar a pensar em dominá-lo. Parece a mesma coisa, mas não é. No primeiro, em muitos momentos perde autodeterminação ofensiva e acaba a correr mais por onde o adversário quer, do que por zonas onde ele estaria menos preparado. A SuperTaça foi um bom exemplo.

Perdendo ou ganhando, Paulo Bento ergueu uma aura que o torna o treinador menos contestado dos últimos 25 anos em Alvalade. Nem Boloni e Inácio, únicos campeões nesse ciclo, o conseguiram. Como o explicar? Mérito do trabalho de Bento, claro, na mensagem táctica transmitida aos jogadores, mas, o grande clique que abriu o cofre da comunicação deu-se ao criar um estilo que cruza várias sensibilidades. É, ao mesmo tempo, o jovem técnico que fala de transições e linhas, mas conserva, simultaneamente, o cheiro a bálsamo do balneário, a velha escola do treinador, oposta aos novos teóricos universitários do presente.

Do alto da sua sabedoria sexagenária, envolto no fumo do cigarro, Jesualdo assiste a toda esta encenação com desconfiança. Tem uma desvantagem em relação a Bento. Sabe que, no Porto, a lei do futebol é muito mais simples. Só tem razão se tiver o resultado do seu lado. Nem que a bola entre aos tombos, como no golo que deu o título a época passada na chuva de Paços de Ferreira. Em que momento este cenário será igual para Bento em Alvalade?

Gritos de ironia

Há jogadores que gostam de dizer não terem nada a demonstrar. É mentira. Há sempre mais coisas para provar. Até ao último jogo da carreira. Ou até depois, entre veteranos ou com os amigos no jardim de casa. Rui Costa ainda o faz num grande estádio. Ainda bem. Para o futebol e, claro, para o Benfica.

Os dois remates que, esta semana, terminaram no fundo da baliza do Copenhaga foram como gritos de ironia no actual futebol do Benfica e processo de construção da equipa. Fernando Santos volta a começar a época com muitos problemas por resolver. Desta vez, Simão saiu mesmo. Manuel Fernandes entrou e esfumou-se. Continua em busca de um central.

No início da época, deve-se valorar mais as intenções do que os acertos. Por isso, as falhas por si só são menos preocupante do que ver onde e como se falhou. Ou seja, o mais problemático não foram os erros defensivos e a falta de equilíbrio a atacar. O mais preocupante foi ver como falta uma ideia de jogo definida à equipa. Um processo táctico de intenções. O Benfica até podia ter falhado o seu plano de jogo naqueles aspectos e isso não ser tão grave, desde que tivesse revelado uma ideia clara para o pôr em prática. Nesse caso, seria só uma questão de tempo para lhe dar solidez e a dinâmica certa. Mas não. O que falhou, logo à partida, foram as ideias. Nessa indefinição vagueou entre o 4x4x2 em losango e um 4x3x3 sem mecanização. Passou de posse e circulação para o jogo directo. A chave está na falta de velocidade de transição defesa-ataque a meio-campo. Falta um médio que ligue esses dois momentos.

É verdade que raramente a equipa que começa a época em Agosto é a mesma que a termina em Maio do ano seguinte, mas estar, nesta fase, com tantas dúvidas e ainda preso aos ventos do mercado denuncia um labirinto do qual Fernando Santos ainda não descobriu a saída. Já o devia ter feito. Mesmo que ainda estivesse longe dela.

A fuga dos artistas

Leio uma entrevista com a cantora islandesa Bjork. "Respeito todos os gostos. Mas dêem-me o que brilha!". Quando o disse não pensava em futebol. Falava de música e de todas as coisas da vida. Por isso, mesmo indirectamente, falava de futebol. Anderson no FC Porto. Simão e Miccoli no Benfica. Nani no Sporting. Quem gosta de futebol não pode ficar feliz com estas partidas do futebol português. Cada vez mais pobre. Acrescentem-lhe Pepe, Manuel Fernandes e Caneira. Até Dady. Mas o que nos abala mesmo é a fuga dos grandes artistas. As equipas continuam, é certo, a ter onze jogadores. Os grandes não sentem o seu domínio ameaçado. E até pode conseguir projectos exibicionais interessantes. Com jogadores respeitáveis. Não é bem este o termo para conseguir aquilo que eu acho que devia ser o maior objectivo de um treinador: obrigar os seus adeptos a verem o jogo de pé. Para tal acontecer, mais do que aqueles que respeitamos, têm que nos dar aqueles que brilham! Por isso, duvido seriamente que esta época vamos ver a maior parte dos jogos sempre sentados.

O quarto candidato?

Belenenses em 1946. Boavista em 2001. Os únicos campeões nacionais que furaram o domínio secular dos três grandes. Será provável esta época um novo herói? É quase impossível. Pelo visto nos últimos anos e pelo valor da equipa, o Braga é o único, em breve, a poder sonhar. Em 2005, lutou quase até o fim, numa época em que os grandes estiveram longe do auge. Será essa uma das condições para existir nova intromissão.

Depois de uma época com três treinadores, vai finalmente poder falar-se no verdadeiro Braga de Jorge Costa. A prioridade é dar uma identidade à equipa. As fintas malandras de Wender, o relógio de cuco de Madrid, os golos e as perdidas incríveis de João Tomás e, claro, as pinturas de João Pinto. O título é outra questão. Não é, porém, razão para se sentirem frustrados. O nível que o clube atingiu nas últimas épocas, tornou-o, desportivamente, no quarto grande. Em muitas ocasiões a melhor resposta em Portugal à pergunta o que é jogar bem, foi sugerir ver um jogo do Braga. E maior elogio do que esse não pode existir.