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Expresso

Luís Freitas Lobo

Dr. Jamor', a taça que dribla o tempo

Nas matas, a bifana e a sardinha assada. No relvado, a táctica e a técnica apurada. Mundos distantes que se tocam num palco que resiste ao tempo e sofreu das vezes que lhe roubaram o 'seu jogo'. O Jamor ultrapassa épocas no futebol português, viu heróicas contestações estudantis à ditadura, admirou a corrida curvada para a frente de Eusébio até ao potente remate que fulminou Damas, viu os golos de Arsénio e Matateu, a dupla Hernâni-Jaburu no primeiro Porto a erguer a Taça, o drible-macumba de Jota-Jota ou o sonho do rebelde Leixões da II B desafiando o super-Leão de Jardel. No início, foi Peyroteo, autor de dois golos do Sporting ao Atlético na primeira final da história jogada no Jamor em 1946, depois da remota era das Salésias. Futebol de diferentes cores, desde o tempo do preto-e-branco.

FC Porto e Sporting regressam este domingo ao mesmo palco. Na memória do passado, outros duelos, com diferentes contornos mas igual força emocional. Mas, há 30 anos, data da primeira final Porto-Sporting viviam-se outros tempos. O comboio azul-e-branco ainda procurava superar o medo de 'passar a ponte', o momento em que, como dizia Pedroto, o FC Porto começava a perder quando se deslocava a Lisboa. Chegava-se à outra margem e já 'perdia' 3-0. Mas as coisas mudaram. A final de 2008 é diferente de 78 mas há elos que acontecimentos recentes despertaram. O poder do futebol português (dentro e fora do relvado) começara a sentir novas tendências exactamente nessa altura. Hoje, o FC Porto continua a mover-se na 'arte do conflito' como o seu território. Mas os tempos são outros.

Esta equipa do FC Porto, embora com o mesmo ADN histórico, já é mais aburguesada. Sabem onde penso que isso se nota mais? Na forma como joga nos minutos seguintes a ter marcado um golo. Em vez de redobrar o perfil 'guerreiro', ganha então mais o discreto charme da 'burguesia portuense'. Será das 'trivelas' do Quaresma ou do olhar de desprezo pelo jogo de Bosingwa, mas sente-se que este Porto necessita de outros estímulos competitivos. Jogar com o Sporting pode ser uma boa forma de resgatar esse perfil. O lado táctico do jogo também carrega ainda mais o sobrolho de Jesualdo. Em duas épocas, foi sempre com o losango de Paulo Bento que o seu 4x3x3 sentiu mais dificuldades. Jogando com os espaços, Bento transforma o meio-campo numa 'teia-de-aranha' que se estende a toda a largura do terreno. Com isso, força o FC Porto a jogar quase sempre no chamado 'lado escuro' do jogo. Isto é, em vez das suas próprias qualidades, em função do adversário. Nenhuma equipa, em todos os jogos nos quais de defrontaram, conseguiu fazer tanto isso ao FC Porto como o Sporting. E isso foi decisivo para os resultados finais.

 

Não será muito diferente o jogo da Final desses outros confrontos Jesualdo-Paulo Bento. O Sporting não sabe jogar de outra forma. Para alguns jogadores isso tornou-se um problema. Digo isto ao pensar em Miguel Veloso. Como pivô-defensivo, fica com demasiado terreno livre à sua frente quando recebe a bola. Quer sair a jogar e vê que os médios mais próximos já 'foram embora', abrindo nos flancos. Para quem é lento, esse espaço livre dá então a sensação de ele ter um jogo travado. Resolve a situação quase sempre com um passe longo, mas isso não combina com a tese da 'teia-de-aranha', a estratégia onde o Sporting perturba mais o pensamento táctico de Jesualdo.

O Jamor é célebre mais pelas emoções que desperta do que pelos debates tácticos, mas é este segundo ponto que faz explodir o primeiro. Como se o futebol aburguesado perdesse a compostura, e, em 90 minutos, fosse decido apenas pelo lado emocional. Pura ilusão. Jesualdo e Bento gostam de relvados 'quadriculados'. Ganha quem mexer melhor as peças.

Selecção 'sombra'

Escolher os jogadores para uma equipa passa antes por escolher uma ideia de jogo. Scolari escolhe antes os jogadores para um estado de alma. Dirão que isso também faz uma equipa. Não é bem assim. Faz é um grupo unido. Não faz uma forma de jogar. A convocatória para o Euro voltou a seguir o princípio de blindagem do grupo. E, assim, dele caiu o único lateral-esquerdo (embora adaptado) que vinha ocupando a posição eficazmente nos últimos jogos. Caneira. A seu lado, três laterais-direitos convocados (Miguel, Bosingwa e Paulo Ferreira), numa lista onde surgem oito defesas e cinco médios. Podem surgir mais adaptações (Meira a trinco, Jorge Ribeiro ala-esquerdo) mas as grandes equipas precisam da ordem dos especialistas.

A base de uma selecção competitiva em torneios como europeus ou mundiais está na qualidade e intensidade do meio-campo, a nível táctico e mental, ter sempre jogadores com alto poder de rotação. São palavras utilizadas para definir Maniche, outro enigma que caiu da selecção.

Mexendo em pontos muito sensíveis de dois sectores, defesa e meio-campo, Scolari mexe em princípios de jogo solidificados. Poderá ter no subconsciente outra ideia de jogo ou, mais uma vez, acreditar na força mental como suporte do plano táctico.

Será o definitivo teste ao verdadeiro Scolari treinador, o que vive para lá da bandeira na janela. Dar uma ideia de jogo a um grupo. Por isso, mais importante do que saber como vai jogar a selecção, é saber como ela vai treinar até ao dia da estreia com a Turquia de estilo truculento.