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Expresso

Luís Freitas Lobo

De Veloso a Djaló, o Sporting e os labirintos de Paulo Bento

A forma de um jogador festejar um golo diz muito do seu estado de espírito. Com a força dos grandes planos das transmissões televisivas, transformara-se, também, numa forma de expressão que vende e é manipulado pelo jogador como forma de transformar um simples gesto num acto de protesto, alegria, revolta ou satisfação. O mesmo sucede na altura das substituições. Quando os jogadores amuam, mesmo discretamente, o "zoom" está lá e a mensagem passa. É a força da imagem que vale por mil palavras. Ao treinador, tudo isto deixa passar ao lado. Como deveriam fazer quando o jogador sai do campo após a substituição e vão cumprimentar. Nunca entendi bem esse gesto porque, no risco máximo, o que pode suceder (e já sucedeu várias vezes) é o treinador ficar de mão estendida face ao jogador insolente ou, se esse limite não suceder, o cumprimento do jogador ser acompanhado de qualquer esgar desagradado, um pontapé numa garrafa o arremessar da camisola, etc. O melhor mesmo é deixa-los passar. Dixer "boa, boa", no máximo e siga. Ou então fazer como Cajuda que se levanta, agarra o jogador e dá-lhe um beijinho. Assim ele já não pode fugir. Mesmo que esteja nos limites da fúria.

Paulo Bento utilizou a conferência de imprensa para reprimi Veloso e Djaló, concluiu a imprensa depois das críticas sem nomes do técnico do Sporting após o jogo difícil contra o Marítimo. São grandes amigos, mas são casos diferentes, Veloso joga numa posição que não lhe agrada e isso devia ser debatido em privado com o treinador. Porque não acho nada mais legitimo do que isso. Nunca compreendi aqueles jogadores meios submissos que costumam dizer" jogo onde o treinador me manda, o importante é a equipa, blá, blá, blá". Nada disso. O colectivo resulta das qualidades individuais em interacção. O facto do jogador se sentir bem em campo é fundamental para isso. Sem subverter, claro, o ideal colectivo. Não é esse, claramente, o caso de Veloso, um jogador em crise existencial. Djaló é diferente e os problemas parecem saltar do relvado e irem para o plano contratual. Aqui a questão escapa ao treinador. O jogador deveria então saber qual o verdadeiro território desse debate. Legitimo mas com regras e espaço próprio. Que não é quando está com a camisola do clube, símbolo sagrado, vestida e marcar um golo. Nessa altura, não o festejar, e esboçar antes um acto de indiferença, é, na minha leitura, um supremo acto de desrespeito com adeptos e clube para lá do papel do contrato. Yannick Djaló é um miúdo que tem alegria até no nome. O seu empresário não. É legitimo lutar pelo melhor contrato. Não faz sentido fazê-lo daquela forma em campo. O treinador não deve confundir as duas situações num sermão público que fazia mais sentido ser em privado.

Porque o futebol tem os seus confessionários próprios. Tal como os jogadores tem as suas personalidades próprias. Insolentes ou carinhosos. Em qualquer caso, o golo e a camisola são coisas sagradas. Não o festejar, não a respeitar, nunca tem justificação. O resto é a velha história do êxito e do fracasso. Dois grandes impostores!