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Expresso

Luís Freitas Lobo

De Moscovo, 'mister football'

Em Moscovo, por entre a beleza histórica e sumptuosa da Praça Vermelha, do império do czars à pátria dos sovietes, o frio disfarça a mágoa e o silêncio convida à reflexão. São momentos em que o homem, como o tempo, reflecte desamparado. Sente-se como um "buraco negro" na história. Uma "farpa de gelo" que, no atravessar do século passado, provocou as alucinações dos sonhos utópicos. A história da velha URSS inquietou o mundo. Deu-lhe razões para sonhar. Deu-lhe razões para ter pesadelos. Ao mesmo tempo. No campo desportivo, gerou um laboratório de lendas, mas os novos tempos trouxeram outras formas de vida, outras formas de respirar e tocar o gelo com a ponta dos dedos.

Milhares de ingleses passeiam pelas suas zonas como se estivessem em Oxford Street, Regent Street, Picadilly ou os grandes armazéns do West End, em direcção às pequenas catedrais onde a bola é o 'santo graal'. O "football". Atravessaram a história e o mapa da Europa para instalar o seu futebol como se estivessem no clima cinzento-metálico dos fins de tarde de Londres ou Manchester, uma atmosfera que rasga, como um gato siamês em movimentos de "top-model" um mundo outrora tão distante. A chuva copiosa ajudou a dar-lhe contornos épicos.

Na madrugada de Moscovo, duas equipas inglesas frente-a-frente na final da 'Champions'. Os dribles de Ronaldo, as arrancadas de Rooney, o carácter de Scholes. Os cortes de Ricardo Carvalho, a classe de Lampard, a busca pelo tesouro de Drogba. A bola na barra e no poste, o corte em forma de milagre sobre a linha de Terry ou a promessa de golo que Cech com perfil de polvo foi buscar. Tudo isto será eterno na nossa memória. Como a certo ponto, nesta adaptação romanceada de futebol, ouvir "segura bem essa bola, Nani!". Uma, duas, três vezes seguidas. "Segura Nani!". São as ordens de Queiroz. Na berma do relvado, o mundo português também fura pelo eixo moderno Londres-Moscovo. Ganha lugar de destaque. Portugal penetrou no mundo do futebol e hoje ele já não sabe viver sem ele.

Mas há, claro, o lado táctico do jogo. Uma lição de como ir ganhando o meio-campo. O Manchester entra melhor porque entendeu os espaços e neles ora activou o "pressing" feroz de Scholes e Carrick, ora soltou a velocidade com imaginação técnica de Rooney e Ronaldo. E dominou. E marcou. O Chelsea vai percebendo o filme. E vai agarrando o sector vital. Lampard e Ballack passam a jogar nos sentido dos ponteiros do relógio de Makelele. Escapa ao segundo golo, respira, e, aos poucos, seguindo os ressaltos da bola e o escorregar de um guarda-redes gigante com orelhas de Dumbo, faz o seu golo.

Terry tem o mundo nas mãos. Faltam 20 minutos para as duas da manhã. A 'Champions' à distância de um remate. A chuva torna-se um dilúvio, mas ninguém a sente. Como tudo aquilo só fizesse sentido sob chuva torrencial. Parte para agarrar o sonho, mas escorrega, a bola não entende o que se está a passar, confunde-se e não entra. A seguir, o 'Dumbo' holandês volta a voar. Ronaldo regressa à vida. Terry cai no abismo. Sentimentos tão opostos, tão próximos, mas lado a lado, ao mesmo tempo. É fantástico. É perturbante. Não sei o que me toca mais. Sinceramente, é o sonho a escapar como areia fina por entre os dedos. Acima disto, no futebol, já não há mais nada. Giggs e Ferdinand levantam a Taça e tocam o céu. A chuva abraça-os. Como Steve Clarke abraça Terry. Que já não se acha deste mundo, temendo a progressiva adaptação à vida real de 'Les Miserables', sentida na relva de Moscovo como nas esquinas de Charing Cross, onde vagabundos de barbas compridas abrigam a sua existência com a mesma intensidade de um Bentley ou um Austin Martin nos filmes de James Bond. É o futebol do séc. XXI. Globalizado. Perturbante. Mágico.

Ronaldo 'humano'

Por entre toda esta bela encenação de futebol, o gel de Ronaldo vai perdendo brilho. O golo nas alturas dera-lhe perfil de habitante do Olimpo. O resto do jogo devolve-o ao mundo dos terrenos. O penálti é metáfora do jogo. E da vida. Parte para a bola com o peso do mundo nas costas. Faz uma paradinha interminável que lhe faz vergar as costas. Pensa demasiado quando devia agira. E falha. Depois de Nou Camp, na meia-final, contra o Barça. Moscovo, na final, contra o Chelsea. Que síndroma de futebol é este? Um enigma. Ter de ser o melhor do mundo onde é preciso ser... o melhor do mundo. Onde se ganham Bolas de Ouro. É como se o céu lhe caísse em cima da cabeça, tal como temiam os irredutíveis gauleses. E caiu. Mas levantou-se. Para continuar a sonhar. Mas de forma terrena. Com novo gel, capas de revista e fascínios de "griffe" ou "pop-star". É o "showbizz" do futebol. O que fará nisso tudo um ou dois penáltis falhados?

Sir Bobby, eterno

Há quem diga que lembra uma tartaruga no banco. É a face impenetrável de Avram Grant. Há quem diga que está no fim da carreira. Olha-se para os seus grandes planos no banco seguindo as jogadas e parece que tem 18 anos. É a emoção do miúdo veterano Alex Fergusson. O futebol vive muito das emoções que transmite, Ferguson e Grant têm estilos opostos no jogo de imagens que devora o futebol mundial. Quase pairando sobre eles, na tribuna ou quando no fim desceu à relva, também seduzido pela chuva, Sir Bobby Charlton, história viva, o homem que explica o que é um sentimento. Mas não vejam jogos antigos dele para perceber isso. Basta olhar para ele hoje. Sobreviveu ao desastre de aviação. Passaram 50 anos e é ele que lidera o grupo para receber a "taça das orelhas grandes" como lhe chamou Di Stefano. Nada faz mais sentido. Às vezes, acredito que o destino está mesmo escrito.

Valdano Futebol!

No princípio, era a bola. Depois surge o homem para a tocar. E inventa um jogo. Ao ponto de hoje, a vida ser um jogo, e todos saberem qual é: futebol! Mas, depois, ainda falta entender a bola. Ler-lhe os pensamentos. Decifrar-lhe os segredos. Só quem viveu pelos seus caminhos mais secretos, o pode explicar. Com emoção escrita. Esta semana toquei esse céu do pensamento durante algumas horas, primeiro partilhando uma conferência conjunta, depois, na atmosfera solta da noite, conversando num jantar longo com a personagem que melhor entende todo este universo: Jorge Valdano, um "best-seller" do futebol. De todos os ângulos. Disponibilidade fantástica para falar de futebol. Porque o lado emocional é aquilo que nos aproxima. Num ápice. Falámos de tudo. Das histórias com Maradona, do belo Real Madrid dos 80, a alma de Juanito, até o novo futebol argentino, o que é feito de Griffa, o homem que o descobriu, os livros velhos, as dúvidas se Messi vai evoluir mais, tantas coisas para onde o futebol nos leva. Falamos de tudo mas, no fim, fiquei com a ideia que não falámos de nada. Fica a promessa de continuar em Madrid. Despedi-me da única forma possível: "Maestro! És grande!". São momentos como este que, por fim, dão sentido a gostar tanto de futebol.