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Luís Freitas Lobo

As portas da imortalidade

Van Gaal e Mourinho. O "feiticeiro" e o seu "aprendiz". Uma história clássica que, a dado ponto, se torna num supremo confronto.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

Quando, nos anos 60, Bill Shankly, mítico treinador que fez o grande Liverpool, recebeu Jock Stein, outro mito dos bancos, após ter ganho a Taça dos Campeões Europeus pelo Celtic (3-1 na final ao Inter), apenas lhe disse: "Jock, a partir de agora és imortal!" A actual Champions segue a mesma linha de pensamento. Mourinho e Van Gaal já têm esse lugar na eternidade futebolística vindo de épocas anteriores e em clubes onde isso parecia impossível. Van Gaal, Ajax, 95; Mourinho, FC Porto, 2004. Mas querem mais. Ambos com processos de construção invulgares, que a dado momento se cruzaram, mas sempre muito diferentes entre si.

Mourinho, saído das profundezas do mais cinzento futebol português (onde os treinadores são despedidos com um telefonema que interrompe um almoço de Natal - o acontecimento que mais o marcou quando viu isso acontecer ao seu pai), abriu fronteiras (na mente e no treino) vagueando por escolas diferentes. A tradicional inglesa, fighting spirit e ataque, de Robson. A metódica holandesa, táctica e disciplina, de Van Gaal. Se Robson foi o lado emocional, Van Gaal foi a ciência. Um general do treino mas que, a dado momento da cadeia de evolução, deixou de seduzir o 'aprendiz' Mourinho, que, a certa altura, sentiu que podia fazer as coisas de 'forma diferente' do 'feiticeiro' mestre. E fez. A filosofia-Van Gaal ficou, porém, em muitos traços do pensamento-Mourinho.

A importância capital da preparação prévia do jogo a partir do estudo do adversário, a estratégia baseada num forte processo defensivo a todo o campo e os blocos de notas, os inúmeros rabiscos feitos durante os jogos, método iniciado pelo "general laranja". Hoje, porém, existe um abismo a separá-los.

Van Gaal, mais velho, ganhou de formas diferentes em locais diferentes. O seu Ajax campeão europeu foi feito com promessas que jogavam ainda com uma 'casca de ovo na cabeça'. Seedorf, Kluivert, Davids e um 'avô' em fim de carreira, Rijkaard. Depois, em Barcelona, com super-estrelas, impôs a sua disciplina, pondo de lado Rivaldo ("porque só acredito no talento se dentro dele também estiver o homem com vontade de aprender"). Foi, a seguir, campeão holandês pegando numa modesta equipa do meio da tabela, o AZ, e, agora, em Munique, reacendeu o monstro bávaro na Europa.

Mourinho faz as equipas de forma diferente. Procura os 'seus jogadores'. Homens que o sigam até à berma do precipício. E, se for preciso, saltem com ele. Uma atitude que também gere a sua equipa técnica. Em vez de fazer jogadores, procura despertar neles instintos e forças escondidas. Foi assim, a níveis diferentes, no FC Porto e Chelsea. Ganhar o campeonato italiano com o Inter era quase uma 'formalidade obrigatória'. O grande passo para a eternidade está na Champions, o título que foge ao Inter desde 65 (há 45 anos), quando no banco ainda estava um treinador mescla de mago e diabo, Helenio Herrera, inventor do catenaccio, avançado no tempo a todos os níveis, no estilo, poder da imagem, tácticas e jogos mentais. Tal como Mourinho, afinal.

Ao eliminar o Barcelona do futebol bonito, através de uma estratégia defensiva que fechou todos os caminhos para a baliza, aumentou ainda mais a carga dramática do seu futebol, entre a 'diabolização' (dos que viram o triunfo de uma ideia de jogo repressiva) e a admiração (dos que viram uma grande estratégia táctica).

Não faz sentido, porém, falar no perigo do triunfo do 'futebol defensivo'. Qualquer grande equipa no futebol actual tem de ser muito mais do que só uma atitude no jogo. As melhores são mesmo as que mesclam os conceitos mais básicos e melhor manejam as diferentes formas de dar importância à bola, muitas vezes da forma mais estranha. Como? Defendem bem quando a têm na sua posse e atacam melhor quando a perdem. Estranho? Nem por isso. O segredo está em adivinhar o que o adversário vai fazer quando ela muda de dono e, depois, saber com antecedência o que fazer quando ela volta aos nossos pés. É o moderno 'futebol-total'.

Inter de Milão

Um 'gigante' atrás, Lucio, um 'ladrão' e um 'criativo' no meio, Cambiasso-Sjneider, e um 'matador' no ataque, Milito.

A derrota, na época passada, em Manchester, disse o que a equipa precisava na dimensão internacional: dois defesas-centrais fortes; um especialista em bolas paradas que marque a diferença; um médio capaz de ter a bola e um ponta-de-lança para as grandes ocasiões, daqueles que faça pelo menos um golo em cada duas oportunidades. Nesse sentido, chegaram Lucio (para chefiar a defesa), Sjneider (para controlar criativamente o meio-campo), Pandev (para marcar os livres e dar força a atacar), Eto'o e Milito (avançados que raramente falham).

Inteligentes, juntaram-se a Cambiasso (médio que rouba todas as bolas) Samuel (o outro central, renascido como 'muro') e Maicon (uma 'locomotiva' em forma de lateral-direito). Como alma-mater, Zanetti, o polivalente que parece especialista em qualquer posição onde jogue.

O sistema é, no papel, um 4x3x3. Na relva, ele move-se. Com dois homens à frente da defesa e Pandev a recuar pode tornar-se um 4x2x3x1. A atacar, solta um avançado da faixa para o centro (Eto'o) e já parece 4x4x2. Noutras ocasiões pode ser um 4x3x1x2, com mais um médio, soltando Milito-Eto'o na frente, apoiados por Sjneider. Um jogo táctico que tem como bases a força mental e o rigor total na ocupação dos espaços.

Bayern de Munique

Uma equipa que, com um n.º 9 lutador, Olic, é o exemplo de como um extremo voador, Robben, pode mudar uma forma de jogar.

Começou a época com muitas dúvidas, hesitou tacticamente, perdeu jogos, testou jogadores, mas manteve sempre a frieza. Sem nunca mexer um nervo da face, reconstruiu o carácter da equipa desde as bases e ganhou Bundesliga e Taça. Sem pestanejar. O jogador-chave para levar a equipa até outra dimensão (a das grandes fintas, velocidade, arranque e grandes remates para golo) é Robben, o 'holandês voador'. Parece um mero extremo mas é muito mais do que isso. É um avançado-total, um 'protótipo' do futebol holandês. Sem Ribéry (castigado), é ele que faz a equipa voar.

A ponta-de-lança um croata que parece quase sempre não ir controlar a bola (luta mais do que joga) mas que, depois, encontra sempre forma e espaço para rematar. É Olic. A meio-campo um monstro: Schweinsteiger. Só o nome mete medo. Cada passada sua deixa um buraco na relva.

O sistema? Depende. Do 4x3x3 do Ajax, passando pelo 3x2x3x2 de Barcelona (com Guardiola a médio-centro), até ao 4x4x2 do AZ e do Bayern, também reciclado em 4x2x3x1. O maior problema estará na defesa, forte mas lenta, e na falta de um grande médio-centro, lugar onde Van Gaal adaptou Muller, que de origem é ala-direito.

Europa: os campeõs

Os poetas e os caçadores de títulos

Depois da época passada (2008/09) ter consagrado internacionalmente um estilo de jogo feito de milhões de passes por todo o campo, jogando como se montasse uma "teia de aranha" feita passes e toques por todo o campo até descobrir o espaço livre para o golo, a presente época (2009/10) vai consagrar outro estilo de futebol, quase oposto. Aquele para quem se é possível chegar à baliza em 4/5 passes, porque se vai perder tempo com 14 ou 15?

São confrontos filosófico-futebolísticos. Fórmulas diferentes para ganhar. Os devotos da arte admiram o primeiro modelo. Os fiéis da ciência idolatram o segundo. Nas 1001 formas de ganhar um jogo, ambos coexistem no mesmo relvado. Enquanto um toca as emoções, o outro toca o cérebro. Para uns, a táctica é uma 'causa'. Para outros é uma 'consequência'.

Guardiola continua, no entanto, a dominar no cenário espanhol. Driblou ao ritmo de Messi o mundo galáctico de Madrid, onde Cristiano Ronaldo pareceu sempre, em cada jogo, muito mais importante do que toda a equipa. Pela forma como jogava (querendo sempre resolver tudo em velocidade, por vezes excessiva) e pelas deficiências tácticas (a nível do meio-campo) que o colectivo de Pellegrini sempre apresentou.

Em Inglaterra, o Chelsea voltou a vencer a Liga (e Taça) sem... Mourinho (que o eliminou da Champions). No banco, um treinador italiano, Ancelotti, que, no ainda tacticamente rudimentar futebol inglês, faz muita diferença. As referências do onze permanecem. Terry na defesa, Lampard no meio-campo e Drogba no ataque. Em Manchester, Ferguson vive ao ritmo do carácter de Rooney, que em cada jogada parece tentar escavar um túnel até à baliza, tal a forma como cavalga com a bola à sua frente (garra e técnica misturadas), mas perdido o CR7 perdeu uma forma de ganhar sozinho jogos atrás de jogos.

No chamado futebol europeu de 'segunda linha', a Liga Europa, a imagem algo 'estranha' de ver Quique com a velha Taça UEFA (o troféu permanece igual) nas mãos. Quique é, no entanto, 'mais treinador' do que a sua passagem pela Luz pareceu dizer. O seu Atlético de Madrid, uma equipa que vive pelos grandes avançados que tem (desde Simão e Reyes até aos fantásticos Aguero e Forlan), sombra errante na Liga espanhola, destacou-se na Europa com o sistema de jogo ideal (4x4x2) para triunfar internacionalmente.

GUARDIOLA

O Barcelona falhou a reconquista da Europa mas, campeão espanhol, o seu projecto de jogo continua a ser o mais sedutor da actualidade.

DROGBA

Depois de Mourinho, o Chelsea, com Ancelotti, voltou a ganhar (Liga e Taça). A marca dos golos permanece a mesma: Drogba.

QUIQUE

Depois dos olhares desconfiados na Luz, resgatou o brilho das vitórias guiando o At. Madrid à conquista da Liga Europa.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010