Siga-nos

Perfil

Expresso

Luís Freitas Lobo

A terrível depressão do 'futebol-ketchup'

Cristiano Ronaldo e Demel desentenderam-se, no início do jogo. O árbitro mostrou cartão amarelo aos dois

O primeiro jogo de Portugal "não teve" balizas. Apenas uma bola no poste e um n.º 10 amuado. O triunfo do receio.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

O futebol tem muitas 'portas secretas'. A mais evidente é a do resultado, mas o jogo tem outros espelhos menos sinceros. Bruno Pesaola, velho italiano dos anos 70, dizia que o 0-0 era o corolário máximo de um jogo perfeito e sem erros. O primeiro jogo da selecção portuguesa no Mundial, frente à Costa do Marfim (expressão africana de força física) terminou com esse resultado. É difícil, no entanto, encaixar a lógica de Pesaola neste jogo onde quase não 'existiram' balizas. A tese, quase maquiavélica, tinha, claro, outro raciocínio subjacente mas, vendo bem, em muitos momentos, o futebol actual (o dito moderno, competitivo até à exaustão) trouxe com ele, talvez até mais do que nos anos 70, um conceito de perfeição táctica que talvez seja de seguir para abrir a "porta secreta" que explique o jogo cinzento de duas equipas a jogar 90 minutos com o receio metido no corpo. Tão no fundo, a frase de Pesaola pode ser uma subtil "porta secreta" para entender um jogo em que duas equipas (cada qual no seu estilo) entenderam que (num grupo onde está o Brasil) uma derrota colocaria a equipa mais perto da eliminação do que uma vitória do apuramento. Por isso, o triunfo do receio. Tão natural como perturbante.

A selecção, além da questão táctico-mental, jogou 90 minutos presa à questão táctico-dinâmica. Ou seja, em termos tácticos jogou como habitualmente. O tal 4x3x3. Logo no início, uma recepção e finta de Cristiano Ronaldo, 'comendo' nesse gesto o gigante Yayá Touré, abriu-lhe a inspiração para um remate que parecia levar vida própria que foi bater, como o sorriso do diabo, no poste da baliza marfinense. Parecia ir ser o 'toque de Midas' para fazer levitar a nossa (pop)star para o jogo. O início do "ketchup" (aquele onde os golos custam a sair mas que quando parecem nunca mais param). Pura ilusão. Nunca mais apareceu depois disso. Para entender o porquê é necessário abrir então essa tal 'porta secreta' de Pesaola. O sistema era o tradicional, mas a dinâmica (na mente e no jogo) tinha sobretudo a intenção de trabalhar sem bola, não cometer erros defensivos, pressão e recuperação à frente de acção e criação. Em vez de abrir espaços a atacar, a prioridade táctica da equipa no jogo foi fechar espaços a defender.

Esta é ainda uma fase por pontos que permite estes jogos estratégicos. Matematicamente, o resultado não é muito preocupante. Pelo contrário. Se os próximos dois jogos seguirem a lógica (vitória de Portugal e Brasil), no terceiro, um empate, apura os... dois (Brasil e Portugal). Não tenho dúvidas que estas contas (simples) estão na cabeça de Queiroz desde o início do jogo. A selecção jogou com elas. E empatou com elas.

Cabeça em baixo, colando os olhos no chão, Deco saiu amuado perto dos 60 minutos. No final desabafou. Disse que não era extremo e que não entendia que pouco depois de o pôr nessa posição, de que não gosta, o treinador o tivesse tirado. É natural que pense isso. Não é bom (para a saúde mental da selecção) que o diga (pelo menos em voz alta). Mas fazia sentido esta opinião de Deco? Abriria ela outra 'porta secreta' do jogo? Sim e não.

Sim, porque a sua saída aconteceu curtos instantes depois de (com a troca de Danny por Simão) a equipa ter passado a desenhar o 4x4x2 (com Pedro Mendes e Meireles atrás de perfil à frente da defesa, Simão na esquerda, Deco a descair para a direita e Ronaldo-Liedson no centro do ataque). Tacticamente foi o momento em que o onze esteve melhor distribuído para poder circular melhor em posse de bola (pois passara a ter superioridade numérica a meio campo perante o 4x3x3 marfinense) e atacar melhor (pois Liedson, incapaz de jogar bem sozinho em 4x3x3, passou a ter outro avançado por perto).

Não, porque Deco não estava a jogar a extremo. É verdade que partia da direita como posição inicial, mas tinha liberdade para se mover e surgir em zonas mais interiores como gosta e sabe. Tudo isto, porém, só durou 7 minutos. Até sair Deco, entrar Tiago, regressar o 4x3x3, a intenção de amordaçar o jogo e enfiá-lo até ao fim na 'jaula' do 0-0. Missão cumprida.

Agora, frente ao exército coreano onde, a defender, só falta alguns jogadores pendurarem-se nos postes da baliza, é um desafio completamente diferente. É necessário abrir uma porta 'menos secreta' e meter pelo menos uma baliza em campo, a do 'futebol-ketchup' de Ronaldo...

QUADRO TÁCTICO

Eis a distribuição táctica que tanto amuou Deco. De início, a selecção no seu 4x3x3 que durou quase todo o jogo. A excepção foram os curtos 7 minutos, mas que, em termos de dinâmica táctica, podiam ter dado a Portugal outro jogo se, nessa altura, os jogadores agarrassem essa nova ideia. Não se pretendia que Deco fosse um extremo-direito puro. Antes um organizador que partisse da ala, garantindo melhor circulação de bola. Além disso, percebendo-se que Liedson não é ponta-de-lança para jogar sozinho na frente de um 4x3x3, a hipótese de, desenhando o 4x4x2, lhe dar maior companhia e colocar Ronaldo mais vezes na zona de remate podia ser bom sistema alternativo para Portugal dar respostas diferentes nos jogos quando os adversários já entenderam (e anularam) tudo o que dissemos tacticamente desde o início. Com as 'setas' tenta-se mostrar como nada disto é estático e pede dinâmica táctica, ora para equilibrar a defender, ora para desequilibrar a atacar.

O CRAQUE Ozil, E.T. mágico

Primeiros jogos, primeiras fintas, remates e por entre a história alemã surge um médio mais franzino, com olhos esbugalhados e origens turcas, que faz o que quer da bola. Mesut Ozil, 21 anos e uma intimidade com o jogo que arrepia. Ele é o melhor projecto de craque para o futuro que este início de Mundial mostrou. Joga e faz jogar. Cada passe seu é um poema. Os arranques ligam finta em progressão a visão de jogo quando, perto da área, tem de definir o timing para passar ou rematar. A ausência de Ballack abriu-lhe um maior espaço. A responsabilidade táctica que, no sistema 4x2x3x1, o treinador lhe deu, ainda o estimulou mais. A naturalidade e serenidade com que está no campo e resolve o que fazer quando recebe a bola diz tudo da matéria de que é feito. Ozil, o futuro alemão escreve-se com letras turcas.

ITÁLIA O 'diabo azzurro'

Estreia da Itália e entram em campo os maiores dramas tácticos. Primeira consequência: o melhor marcador da última Liga italiana não tem lugar na equipa! Tão perturbante como natural. O homem é Di Natale, um avançado baixinho que marcara 29 golos a jogar no 15º classificado do último campeonato. O jogo com o Paraguai (espécie de Itália da América do Sul, pela forma como defende) acabou por ser um exercício de clássica matemática táctica italiana. Jogou Iaquinta, ponta-de-lança possante encostado a um flanco. Sem Pirlo, falta quem pense o jogo e acabou por empatar porque o guarda-redes paraguaio deixou passar uma bola fácil. Nada disto, porém, perturba os espíritos italianos. Esta é a forma mais estranha de uma equipa dizer que é candidata ao título.

VELHA GÁLIA Educado 'de mais'

Será sobretudo pelo seu treinador, Domenech, mas, mesmo sem a classe de outros tempos, a França continua a ter perfume. É hoje uma espécie de 'patinho feio' deste Mundial. Se seguir a fábula, pode ser uma boa forma de explicar que, apesar dos treinadores, o melhor futebol esconde-se sempre nos melhores jogadores. Lizarazu, antigo jogador, viu um problema diferente ao analisar Gourcuff, o maior craque do presente: "Está demasiado bem educado no jogo". Parece uma frase sem sentido mas vendo bem tem um fundo de verdade. Porque Gourcuff parece, de facto, muitas vezes desligado do jogo. Joga como mais ninguém na França, mas quase sempre após perder a bola ou não a passar em condições ninguém o vê muito irritado. É o que lhe falta no jogo: zangar-se mais (com o mundo e, já agora, consigo próprio).

ESPANHA Classe a perder

Nem sempre perder um jogo significa friamente uma derrota. A Espanha perdeu com a Suíça (0-1) mas não perdeu, nunca, a identidade do seu bom futebol. Joga com classe e aproxima-se da baliza através da qualidade de passe. Esta derrota (frente a um onze helvético forte a defender a meio-campo) não é, por isso, um drama como os que a pátria espanhola está habituada a viver nos Mundiais. Xavi, Iniesta, Torres, Xabi Alonso sabem qual o melhor caminho para ganhar o próximo jogo. Voltar às bases e reproduzir o mesmo projecto exibicional. Só respeitando mais a baliza. Não se trata de não procurar alternativas, trata-se de ser fiel a um estilo. Ganhar ou perder com as mesmas ideias é a melhor forma de uma equipa construir uma personalidade forte.

O TREINADOR A Argentina de Maradona

O mundo não acredita nele como treinador, apenas como estado de alma divina, mas os primeiros dois jogos da Argentina neste Mundial mostraram outra realidade. Maradona pode acabar o treino a fumar charuto mas, em campo, o seu onze tem revelado um equilíbrio táctico realista, longe de meras aventuras individuais, com rigor defensivo e arte a atacar. Falou-se na aposta num aventureiro 3x4x3, mas Maradona, que no apuramento jogara quase sempre em 4x4x2, mudou para um inteligente 4x1x3x2. O jogo com a Coreia do Sul tornou mais evidente essa opção. Nesta táctica, Messi surge no centro, atrás dos dois avançados (Tévez-Higuaín) com liberdade para andar por todo o lado, recuando ou caindo nas faixas. Quando quiser defender mais, mete Veron para perto de Mascherano, o trinco, e tira um homem mais avançado (Maxi Rodriguez). Na esquerda, Di Maria continua com o seu 'futebol particular'. É o mesmo lugar que tem na Luz mas os espaços são diferentes. Mais curtos na selecção, onde raramente tem oportunidade para surgir embalado desde trás, aproveitando a sua velocidade. O futebol argentino pede um jogo mais apoiado.

Juntamente com o Brasil e, claro, sempre a Alemanha (mesmo quando todos a vêem em crise), a Argentina é um candidato que se afirma pelo seu jogo, não pela sua história. Nos seus melhores momentos explica que, de facto, como disse Pier Paolo Pasolini, "existe um futebol em prosa que é o europeu e existe um futebol em poesia que é o sul-americano". Os actuais poemas argentinos têm a inspiração de Maradona, enigmaticamente de fato e gravata no banco gaúcho, neste Mundial quase tornado um local de culto para os devotos da 'igreja maradoniana'.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010