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Luís Freitas Lobo

A realidade não tem limites

Braga ganhou em Sevilha e está na Champions. Equipa com talento para fazer sonhar

Marcelo de Pozo/Reuters

Como nasceu este sensacional Braga? Domingos fala em sonho, mas, no fundo, esta explosão bracarense é só o espelho de tudo o que o rodeia.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

De repente, após dias a queimar com mais de 40 graus, Sevilha parecia, no fim da noite, ter passado a fazer sentido. Foi quando, no meio da confusão da saída do estádio Sanchez Pizjuan, se começou a ouvir o som do samba. Viraram-se os olhares e eis Salino, com sorriso malandro e um rádio debaixo do braço, a abandonar o balneário rumo ao autocarro, deixando no ar o volume dos batuques quase no máximo. O toque brasileiro deste Braga é, porém, apenas um traço de um cocktail de talentos que, a cada jogo, se expressam com uma linguagem comum.

À medida que a aventura avança, Domingos fala na construção do sonho. Este sonho de futebol tem, porém, bases reais, jogadores de "carne e osso" que em campo pensam todos a mesma coisa ao mesmo tempo. Mas, se a explosão na relva é visível, mais complexo é detetar o que, fora dele, faz este projeto bracarense. Será um fenómeno conjuntural ou é mesmo um 'grande' a nascer?

Questionar se é um crescimento sustentado leva a buscar as bases de uma história com sete anos, tempo da gestão do presidente António Salvador, que, sem ruído, saiu das profundezas do 'mundo bracarense' (entenda-se cidade e seus poderes) para abalar o status futebolístico português, historicamente macrocéfalo.

O cruzamento entre o 'tecido empresarial de cimento' mais forte da região, com o beneplácito municipal, e uma política desportiva que entendeu o novo 'futebol dos empresários', movendo-se no mercado através de uma relação privilegiada com o seu representante mais forte, foi a moldura perfeita para, sabiamente, com uma rigorosa gestão financeira, congeminar este novo fenómeno. No fundo, este sensacional Braga e seu cruzamento de poderes espelha a idiossincrasia social, política e empresarial que marca a própria cidade no seu conjunto. As próximas épocas projetam um aumento desse poder competitivo, agora reforçado com os milhões da Champions.

A dúvida que se pode colocar ultrapassa a equipa e está na realidade que a precede: o clube. Isto é, a oportunidade de, aproveitando este momento histórico, criar riqueza própria que, no futuro, assegure a manutenção do estatuto de 'grande' quando um dia todas aquelas condições se esfumarem. Isto é, ser o 'quarto grande' não só circunstancialmente por resultados desportivos (como já foram Boavista, Guimarães ou Belenenses) mas pelo poder estrutural do clube, mesmo quando não ganhar. Mas o não procurar esse património também evita projetos de endividamento, como sucedeu com o Boavista, que caiu, depois, por não suportar esse enorme peso. É uma encruzilhada histórica. Sustentar o estatuto, fugindo ao perigo das 'crises de crescimento'.

No relvado, jogadores e treinadores antes desprezados saem depois como grandes estrelas. Neste processo, o primeiro responsável surgiu no fim de 2002/03: Jesualdo Ferreira. Nesse ano, o Braga não desceu por um ponto. Nas três épocas seguintes, regressou à Europa e, em 2005, entrou na luta pelo título. À saída do professor seguiu-se uma 'tempestade' de treinadores. O nível competitivo mais alto regressou com Jesus e prosseguiu com Domingos, uma transição pacífica entre dois treinadores de diferente perfil. Pelo meio, muitos jogadores. De João Tomás, Nem ou Wender até Alan, Moisés e Matheus. Cruzando todos eles, um incansável viajante, Vandinho. Por tudo isto, o rádio de Salino em Sevilha é um traço engraçado que diz como Domingos e o Braga podem continuar a sonhar. Porque a realidade não tem limites!

Como joga o Braga

Existem, claro, defesas, médios e avançados, mas o segredo é como todos invertem posições conforme a equipa tem a bola (para atacar) ou perde a sua posse (para defender). A melhor forma de perceber este "futebol completo" é seguir com atenção os movimentos dos alas Alan ou Paulo César e ver como eles tanto soltam imaginação a atacar como depois recuam a defender. Dos novos laterais que entraram, Sílvio, reciclado à direita, é aquele que tem tudo para no futuro se tornar uma referência nessa posição.

Mas, afinal, como joga este sensacional Braga de Domingos? Em termos de sistema (posicionamento inicial dos jogadores) Domingos não mexeu na sua tática preferencial, o 4x2x3x1, mas procurou, na pré-época, que a equipa aprendesse a jogar noutro sistema, próximo do 4x4x2. Viu-se em Sevilha essa elasticidade quando na segunda parte, na intenção de "esticar" mais a equipa a atacar, Domingos trocou Luís Aguiar, médio mais ofensivo, por um avançado puro, Lima, dando nesse caso mais liberdade de movimentos a Matheus. Ou seja, mexendo apenas uma "peça" (um jogador) do onze, consegue uma espécie de upgrade tático ofensivo.

Em síntese, Domingos, no seu primeiro ano, construiu a equipa respeitando as bases deixadas por Jesus. No segundo ano, reconstrói-a a partir das suas ideias. Entraram jogadores novos e a qualidade de jogo manteve-se, mas, neste processo de transformação, entre este Braga de Domingos e o de Jesus já não existe qualquer ponto de contacto. São ideias de jogo muito distintas. A atual poderá não ser tão atraente ofensivamente no plano estético, mas é mais "italiana" na forma como tenta gerir os jogos, escondendo a bola, ou não se importando de viver sem ela, empurrando a posse adversária para zonas longe da sua baliza. Nessas alturas a equipa quase que "descansa" no jogo, espera o timing certo para a recuperação e, depois, lança o contra-ataque, soltando as suas mudanças de velocidade. Para tudo isto ser possível, os avançados transformam-se em defesas (fechando espaços) sem bola, e os jogadores aparentemente mais defensivos (como Vandinho e, sobretudo, Salino) tornam-se, com bola, operacionais atacantes.

Os homens do sonho

É a frase que melhor define uma boa equipa. Foi dita por Menotti, quando falou nela como um conjunto de "pequenas sociedades". É a equipa numa lógica de duplas que, no jogo, vão combinando entre si ao longo do campo. Uma interligação que respeita sobretudo as posições mais próximas umas das outras por onde a equipa se move: a dupla de avançados, a complementaridade do duplo-pivot, a sincronização dos centrais. Seguindo o onze do Braga, detetam-se muitas dessas "pequenas SAs" de bom futebol.

Moisés - Rodriguez

No terreno dá quase a sensação que eles jogam ligados por uma corda, tal a sincronização de movimentos e perfeito sentido posicional que revelam para, sobretudo nos cruzamentos, estarem sempre no caminho para cortar a bola, imperais no jogo aéreo (mais Moisés) como nas antecipações e dobras (mais Rodriguez). A eleger um líder é Moisés. Fala o jogo todo (quem o conhece diz que "relata" o jogo em campo como se estivesse na rádio). Rodriguez é o oposto. Serenidade total. Pouco fala, chamam-lhe El Mudo.

Vandinho - Salino

São uma espécie de relógios táticos da equipa. À frente da defesa, controlam os equilíbrios defensivos e, depois, buscam o espaço certo para o primeiro passe da transição defesa-ataque. Nessa missão, Vandinho fica mais preso, fazendo passes curtos, deixando para Salino a missão de sair com a bola. Baixote, à medida que avança no terreno até parece que cresce, ao ponto de quando chega à área adversária já ser um gigante. Acredito mesmo que aproximando-se dele deve ouvir-se o roncar de um motor.

Alain - Paulo César

No papel, seriam meros extremos para atacar. No relvado, são mais do que isso. Metem velocidade no jogo, mas o momento em que mais desequilibram é quando num ataque fazem uma pausa com a bola (a chamada "temporização") e, depois, ora arrancam no um para um, metendo imaginação (Alan), ora buscam um espaço e procuram passe ou remate (Paulo César). Depois, sem bola, recuam e ajudam os laterais a fechar o flanco, tornando-se em meros operários.

Matheus - Lima

A velocidade como forma de marcar a diferença num jogo. É o estilo de Matheus. Antes visto como um mero extremo rápido para entrar na segunda parte quando os espaços livres aumentam, está hoje transformado num avançado móvel completo, capaz de jogar entre os centrais, e, esquivo, a buscar o espaço certo para se desmarcar e fazer golos. Com Lima ao lado ou em seu redor, encontra outro jogador móvel, mas mais de área, para combinar. O segundo golo em Sevilha é uma lição de como contra-atacar.

Como o "Leão" mudou tanto numa semana?

Os processos de transformação são complexos de entender. Em geral, quando no sentido positivo, estão relacionados com a (re)descoberta da essência. Em apenas uma semana, o Sporting alterou a face do seu futebol. De duas derrotas (Paços de Ferreira e Brondby, 0-2, em casa) para duas vitórias (Marítimo e Brondby, 3-0, fora). É impossível alguém (alguma equipa) mudar tanto (melhorar tanto) em tão pouco tempo. No fundo, o que aconteceu foi a equipa ter reencontrado a sua essência, resgatando a tática e os princípios de jogo que tanto seduziram na pré-época. Desta forma, o onze (e jogadores) como que resgatou a estabilidade em campo.

Sem Pedro Mendes, a colocação de André Santos ao lado de Maniche, formando a dupla de médios-centro à frente da defesa, devolveu a segurança ao meio-campo que (com Yannick e Vukcevic abertos nas alas) exibiu melhor circulação de bola e maior lucidez na saída para o ataque (sempre bem apoiados pelas subidas dos laterais). É o 4x4x2 clássico. Depois, em busca de uma alternativa, Paulo Sérgio percebeu as limitações da equipa para o fazer neste momento e cingiu a transformação apenas à entrada de um jogador (Matias Fernandez) capaz de, por si, mudar o sistema de 4x4x2 para 4x2x3x1 (sai um avançado, Postiga, e entra o chileno, dando maior presença no lado ofensivo do meio-campo).

Respeitando a sua melhor essência e percebendo as atuais capacidades de variação tática da equipa, o Sporting reencontrou-se com o seu melhor futebol. Agora, é tempo de estabilizar esta fórmula, crescer mentalmente e, assim, solidificar as bases para construir uma boa equipa.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010