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Expresso

Luís Freitas Lobo

A liderança do 'vagabundo'

O poder. Uma palavra afrodisíaca. Nunca caminha só, no entanto. Incorporada por um ser humano, coexiste com a personalidade deste. É bom saber que o poder e a coragem coexistem. Como o poder e a sabedoria. É assustador saber que vivem juntos poder e medo. Ou, pior, poder e insensatez. Os clubes de futebol são hoje um meio fácil de teorizar sobre estas correlações entre o poder e os que o rodeiam. O presidente no topo da pirâmide. O treinador no fundo, rente à relva. Parece que no espaço que os separa se trava uma batalha interna. Quantas pessoas cabem no meio deles? Só duas. Apenas as que traçam as directivas desportiva e económicas.

Conta-se que, nos anos 80, Juan Corbalán, então capitão da equipa de basquetebol do Real Madrid, recebia os novos jogadores, fazendo-lhes um pergunta: "Quem é mais importante no clube? O presidente ou tu?" Parecia uma pergunta simples e todos respondiam sem hesitar: "O presidente, claro!" Corbalán ficava indignado, abanava a cabeça e logo lhes ensinava uma premissa básica sobre o compromisso que cada um deve ter com o clube desde que chega: "Repara, quando o jogo começa e a bola está nas tuas mãos, o presidente não existe. Nesse momento, para todos, adeptos, jornalistas colegas, etc., o Real Madrid és tu!"

Rui Costa foi sempre um jogador diferente. Desde os tempos de júnior até ao presente. No campo, pela personalidade com que conduz a bola. Fora dele, pela personalidade com que conduz o discurso. Penduradas as botas, o futuro está, claro, no segundo caso. O presente ainda cruza, no entanto, os dois cenários. E confunde-os. Até turvar a visão de qual terreno vive hoje exactamente Rui Costa.

Muitas vezes, vendo-o jogar, lembro Tom Peters, um guru da gerência de negócios, no livro 'Em Busca da Excelência', onde defendia a teoria da "liderança por vagabundagem", ou seja, que é indispensável andar vagueando por entre a equipa, como um vagabundo sem direcção, sendo parte dela, lendo olhares e mentes, para a saber entender e seduzir. Rui Costa faz isso dentro do campo. Acredito que também saiba vagabundear da mesma forma fora dele. E qual seria então o papel do presidente nesse momento? Talvez o mais simples e o mais difícil: o papel de 'desaparecer'. Naquela altura não cabe mais ninguém entre a equipa e o seu tutor-director desportivo.

Liderar uma equipa de futebol não é muito diferente de gerir uma empresa. Em ambas, é preciso visão. Estudar os comportamentos humanos. No futebol, o jogador sente a 'agressão' do êxito desde que nasce. Por isso, os seus gestores devem ser 'domadores de feras'. As feras são construídas pelos egos dos futebolistas. É por isso que não acredito na teoria do 'bom balneário' numa grande equipa. São demasiadas estrelas, demasiados egos gigantescos, em confronto no mesmo espaço.

Passeando por uma livraria, são muitas as obras que surgem agora sobre gestão e liderança. Gosto de as folhear. Durante muito tempo, porém, não entendi uma resposta que o gestor de uma grande empresa dera quando lhe foi perguntado quais os seus livros de referência nessa área. Falou no 'Príncipe de Maquiavel' e na 'Alice no País das Maravilhas'. Só depois os ler e ver, percebi o alcance - lendo em 'O Príncipe' que algumas 'virtudes' levam os príncipes ao desaparecimento, ao passo que alguns 'vícios' permitem-lhes sobreviver, ou reparando como em Alice se destacam as personagens das cartas humanas que se movem loucamente e de um coelho que a leva para um poço. Analisadas pela realidade, todas conservam uma curiosa lógica em seus actos, Cabe a Alice, que cresce ou encolhe conforme aquilo que come, assistir, compreender e manipular todo este jogo. Metaforicamente, como numa empresa ou numa equipa de futebol. A figura mais importante é sempre quem, a cada momento, tem a bola.

'Animal' táctico

Olhamos as fotos de há cinco anos, numa tarde de Inverno na velha Luz, rendido a um indomável Gondomar, e parece que foram tiradas noutra vida. E foram, de facto. Seria do bigode?, dos óculos?, não sei. Jesualdo nasceu de novo após esse dia. Ainda bem. Para ele, primeiro. Para o futebol português, depois. Mudou o visual, adaptou-se à moda. Sem o fumo do cigarro, as suas reacções no banco ficam mais perceptíveis. E passou a rir-se mais. Como quando abraçou Lisandro após sair contra o Braga. Como esboça um esgar, mas altera logo para um encolher de ombros compreensivo, quando Quaresma falha uma finta num lance que podia ter resolvido com um simples passe.

A "Champions" vai colocar outras exigências tácticas. Em geral, quase todos os problemas tácticos mais complexos têm resposta no meio-campo. O principal problema do FC Porto é esse. Olha-se para o seu meio-campo e parece impossível imaginá-lo de outra forma. Olha-se para o banco e tem-se ainda mais essa certeza. O 4x4x2 é uma miragem que esbarra nessas limitações. Os poucos estímulos competitivos internos travam o crescimento internacional da equipa. Se conseguir descobrir outra forma de vida mais 'táctica' para o seu meio-campo, sobretudo com quatro elementos, e manter Quaresma feliz ao mesmo tempo, Jesualdo descobrirá a fórmula de responder à grande questão de como crescer.

Parede invisível

Mais do que um estado de espírito, um sentimento de impotência perante as carências, colectivas e individuais, da equipa. Como se batesse numa 'parede invisível'. Sem extremos, é difícil pensar em sistemas alternativos ao 4x4x2. O 4x2x3x1 é, apenas, um esconderijo táctico para a equipa disfarçar a sua incapacidade em jogar actualmente no sistema para o qual foi pensada desde o início da época.

A equipa já percebeu isso. O jogo começa, a bola chega a Izmailov, parece sempre que pode resolver as coisas de forma mais simples, mas enreda-se em zonas mais complicadas e a jogada perde-se. O grande plano seguinte mostra que ele reconhece o erro. Com um gesto ou um simples olhar entristecido. Moutinho continua a calcorrear todo o relvado como se buscasse nele um pote de ouro escondido. Ainda não o encontrou esta época. Deita as mãos à cabeça. O golo do empate surpreende Veloso, perto do lance mas incapaz de lá chegar, que, desesperado, estica os braços apontando o erro de marcação. Parece que nenhum destes episódios são muito significativos para o grande problema. Errado. Eles ajudam a conhecer o actual Sporting, uma equipa aprisionada a pequenos detalhes em cada posição. O melhor Sporting de Bento começava no meio-campo e no respeito pelos detalhes de cada movimento. Montava uma 'teia de aranha'. O pior, na incapacidade de respeitar estes seus princípios.