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Luís Freitas Lobo

A 'contaminação' dos estilos

Ronaldo no lance do 6-0 frente à Coreia: o golo apareceu, quando a bola quis

Oleg Popov/Reuters

Três jogos, três expressões da seleção. Receio, coragem e calculismo.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

É das perguntas mais intrigantes do futebol: o que leva uma equipa a transformar-se tanto de um jogo para o outro?

A inquietação aplica-se para o bem ou para o mal. Os dois primeiros jogos de Portugal tinham deixado essa questão no ar. Após o empate deprimente (fazendo só um remate) com a Costa do Marfim, receando perder, surgiu uma goleada fantástica (com chuva de golos) frente à Coreia do Norte, jogando sempre ao ataque.

A resposta estará em perceber que as realidades, de um jogo e outro, foram muito diferentes. O adversário, claro, mas sobretudo o processo de crescimento da seleção que, após perceber a alta sensibilidade do primeiro jogo (uma derrota deixá-la-ia praticamente fora do Mundial), conseguiu pegar no segundo com outra intensidade e sentido do risco ofensivo.

O jogo com a Coreia libertou também a equipa (e também adeptos e analistas e o próprio Queiroz) de uma terrível preocupação existencial: que fazer se faltar Deco. Pois bem, Deco não jogou (por lesão) e em vez dele, no seu espaço, surgiram... dois jogadores: Tiago e Meireles. Vendo-os nesse jogo, parecia que jogavam juntos há anos. Combinaram na perfeição as subidas, alternadas, e, depois, na frente, os timings certos de passe e desmarcação (e até remate). Manteve-se o 4x3x3 mas libertou-se o meio-campo das amarras do primeiro jogo.

Além disso, chegou o golo de Ronaldo. Da forma mais incrível. Depois de tanto tentar, de duas bolas na barra com remates fulminantes, e a sua face já denotar quase descrença, ela transformou-se, num ápice, quando a bola quase parecendo ter vida própria resolveu ir falar pessoalmente com ele ao ouvido, trepou-lhe pelas costas e caiu aos seus pés, solícita: "Anda, OK, faz lá o golo". O sorriso de Ronaldo revelou a cumplicidade. E o golo apareceu. Quando a bola quis! Como é justo acontecer no futebol.

Antes do jogo com o Brasil, apuramento adquirido, a preocupação principal só podia ser uma: evitar que algo aconteça capaz de impedir a equipa de surgir na máxima força nos oitavos-de-final. Nessa perspetiva três fatores: a questão motivacional (só uma derrota clara poderia delapidar o capital de confiança conquistado com os 7-0 à Coreia); a questão física (proteger do desgaste alguns jogadores fundamentais mais sensíveis, como Pedro Mendes); e a questão disciplinar (o risco de, vendo um amarelo, Ronaldo não jogar os oitavos). Ou seja, damage control (controlo de danos) por antecipação.

Queiroz apenas ignorou a última. Correu bem. No resto, mudou três lugares. Ricardo Costa a defesa-direito ou Duda a médio-ala revelaram que são apostas curtas quando se quer pensar numa grande equipa. Pepe regressou, mas longe da boa forma, beneficiou da baixa intensidade do jogo. Durou 60 minutos. Na frente, jogar sem ponta-de-lança (Liedson ou Hugo Almeida) em 4x3x3 é quase como pensar em jogar num campo sem balizas. Ronaldo é fantástico a aparecer no centro. É limitado a começar no centro. Sem Kaká (suspenso) e Robinho (por opção), o Brasil entrava sem os seus maiores elementos criativos. E o seu jogo sentiu isso dando protagonismo excessivo a dois 'pica-pedra', Gilberto Silva e Felipe Melo. Nessas bases, o jogo tinha tudo para não ter uma 'grande história'. E não teve. 0-0.

No fundo, cada jogo 'contaminou' o seguinte. Sua abordagem e estilo. Os oitavos-de-final são outra história. Em jogos de eliminação direta, o espaço para pensar é mínimo. Cada jogada pode ser decisiva. O primeiro desafio é impedir que a pressão sufoque a criatividade. Depois do receio, da coragem e do calculismo, resta manter a identidade e aumentar a imaginação.

Medo da verdade

Desde sempre, os italianos foram mestres em converter o secundário no mais importante e vice-versa. Todas as suas histórias futebolísticas começaram por dramas táticos. Mesmo as que acabaram bem. Ao lado, os franceses cultivaram uma pose mais intelectual. Para eles, o futebol nunca foi caso de 'vida ou morte'. Neste Mundial venderam um degradante espetáculo interno que devorou uma imagem de longos anos construída sobre os passes de Platini e Zidane. Ambas, Itália e França, finalistas do Mundial 2006, caíram na primeira fase do Mundial 2010. Nunca tal tinha acontecido. O caso italiano é, futebolisticamente, mais problemático. O francês tem razões de relacionamento institucional (Federação-treinador-jogadores) interno. Em Itália, Lippi era um herói há quatro anos. Hoje, assumiu-se responsável por não ter conseguido dar corpo a uma equipa. As razões começaram no mais óbvio: faltaram os melhores jogadores. Por opção (Cassano e Totti), por lesão (Pirlo e até Buffon). Outros, como Cannavaro, desafiaram os limites físicos e, no fim, ganharam os... limites. O problema do futebol italiano é hoje um problema de criatividade. Os latinos nunca viveram sem jogadores que façam "coisas bonitas" com a bola. Esta Itália não tinha glamour nem quando os jogadores desembarcavam com fatos Armani no aeroporto. Não penso, porém, que esta derrota vá mudar muito a mentalidade do futebol italiano. Em termos de jogo, as raízes são demasiado profundas. Daqui a dois anos, no Euro-2012, os seus problemas vão ser exatamente os mesmos. E então, se calhar, já vai ganhar. Com e apesar deles. O problema é outro: ter medo de encarar a verdade.

Quatro equipas, quatro estilos

Tevez-Higuaín ou Milito-Aguero? Escolha a melhor dupla. É difícil. A Argentina vive presa a estes "problemas". Atrás deles, Messi. É a seleção que inventa melhor futebol. Mas o verdadeiro Mundial só agora começa. Nesse mundo mais cruel, a força mental alemã, com disciplina tática, pode valer mais do que a imaginação. São leis do futebol. Apontar a melhor equipa até ao momento é um exercício que cruza vários fatores. Técnica, tática, imaginação, disciplina.

Idolatrada pelos profetas da "técnica feito tática", a Espanha dos baixinhos (Xavi, Iniesta, Villa) tornou-se o zénite dessa conciliação. O jogo, porém, já lhe disse que os oásis nunca surgem muitas vezes.

Com a força da história, o Brasil dogmatizado, em vez de aplaudir dribles, passou a aplaudir carrinhos. Ideologia reciclada que vem dos anos 90. O melhor é mesmo olhar a Argentina.

O jogador

VIP Forlan

A FIFA gosta de eleger o melhor em campo. Em geral, ganha quem faz o(s) golo(s), mas o bom futebol obedece a critérios mais amplos. Se tivesse de eleger o jogador VIP da primeira fase não teria dúvida: Forlan, do Uruguai. Um avançado que 'sabe tudo' do jogo. Os seus movimentos cruzam diferentes fases. A construção quando recua para pegar na bola. A organização, pela forma como distribui jogo. A criação, quando inventa lances e espaços que mais ninguém vê. A definição como baliza nos olhos, remata com certeza. Vê-se como a equipa o respeita e procura com os olhos. Para lhe passar a bola ou ouvir um conselho. Cada centímetro de relva que pisa tem uma razão. Cada bola que toca tem um saber. Equação simples: Forlan+bola+espaço=bom futebol.

Coreia do sul

Quebra regras

Conta Azkagorta, treinador espanhol, que no Japão nos anos 90 aquilo que mais o impressionou foi a disciplina dos jogadores. Treino, exercícios, posição. Um pragmático ficaria encantado. Azkagorta não, e decidiu que a melhor estratégia era ensiná-los a... infringir regras. Queria dar-lhes liberdade para criarem e soltarem a criatividade escondida. Surgiu, então, o novo jogador japonês. Estilo Nakata, Nakamura ou Honda. Penso que a ousadia de Azkagorta seria a ideal para o futebol asiático. Nesse sentido, a Coreia do Sul é, hoje, a mais evoluída em termos de imaginação. Os jogadores não receiam criar. Procuram inventar. Correm muito, mas percebem que mais importante é a mudança de velocidade. Cresceram ao perceber como quebrar regras.

Gana

África solitária

Primeiro Mundial em África. O habitat ideal para as seleções africanas explodirem. A lógica futebolística não é tão simples. Mesmo no seu território, revelaram os velhos problemas. Pouca solidez tática e os jogadores, já estrelas da 'burguesia' europeia, a sentirem-se acima da equipa. Os treinadores chegam sem projeto de construção sustentada. Aterram meses antes, fazem o Mundial e partem. Um 'futebol beduíno'. Resiste apenas o Gana. Não é por acaso. Rajevac, treinador sérvio, lançou trabalho em profundidade (campeão do mundo sub-20). Sem Essien, até montou um 11 mais sólido. Com raiz na defesa, qual 'Itália de África', desdobra-se com um médio criativo (Ayew) e um avançado rápido (Gyan). ADN africano, pedigree europeu.

Estados Unidos

A voz de um golo

A frase: "Gosto de pessoas que nunca desistem". Foi Clinton quem a disse, no fim de um jogo de futebol (EUA-Argélia) resolvido com um golo ao minuto 93. O soccer tem crescido mas a nação do Tio Sam continua sem se apaixonar por ele. Muitos acreditam que aquele empolgante golo de Donovan possa fazer mais pelo seu futuro do que as estrelas estrangeiras que a MSL contrata. É verdade que o jogo não ficou 101-98, como na NBA, ficou só 1-0, mas ao perceber a importância do golo, raridade e emoção, os americanos podem perceber melhor a essência do futebol. Para os auxiliar, uma bela equipa combativa mas também dotada com bola. O soccer pode ainda não ter voz própria mas faz-se ouvir.