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Expresso

Vencer o conservadorismo

Há 35 anos, tinha eu 35 anos, nasceu o Expresso. Era, na altura, em Janeiro de 1973, um projecto arrojado em que muito pouca gente acreditava.

Como se sabe, enganaram-se os que não acreditavam. O jornal, desde o nº 1, conseguiu ser líder na venda de exemplares e afirmar-se como uma publicação de referência.

As razões deste êxito, que persiste em 2008, são essencialmente duas:

- A qualidade do jornalismo praticado. O que implica ter bons profissionais no quadro e bons colaboradores externos, distinguir notícia de opinião, ter sempre presente que as chamadas fontes são quase todas interessadas, quando não interesseiras, ser humilde e transparente quando se erra e, sobretudo, ser inovador quanto aos temas escolhidos para publicação e à forma como são escritos, ilustrados e paginados.

- A independência perante os poderes instituídos e ocultos. O que implica seguir uma linha editorial coerente e pré-anunciada, e, portanto, não ceder às pressões, que sempre existiram e continuam a existir, sejam elas da Censura ou dos senhores do PREC, dos Governos ou dos cortes de publicidade, das agências de comunicação ou das 'corporações' da cultura, do desporto, dos sindicatos, dos empresários e dos próprios jornalistas.

Ao longo destas três décadas e meia, interroguei-me por vezes sobre as razões que levaram vários amigos meus a não quererem investir, em 1973, no projecto do Expresso. A minha conclusão é de que não o fizeram por conservadorismo.

Foram conservadores por temerem que a situação vigente se alterasse, mesmo que ela não lhes agradasse, por não quererem desagradar a quem exercia o poder, por recearem que a sua adesão ao projecto do Expresso pudesse ser interpretada como apoio às posições da Ala Liberal na então Assembleia Nacional. Mas, para além disso e mais profundamente, foram conservadores por não acreditarem na viabilidade - e mesmo na necessidade -, em Portugal, em plena segunda fase do marcelismo - mais rigorosa, mais desencantada, mais salazarista - de um jornalismo totalmente diferente do que existia, de inspiração anglo-saxónica, abordando assuntos até aí não tocados.

A aceitação do amável convite da Direcção do Expresso para dirigir esta edição do Expresso obrigou-me, apesar de o 'cargo' ser algo simbólico e durar só uma semana, a olhar para o jornal e para o mundo que o rodeia numa perspectiva diferente: o que é novo, o que é importante, o que merece ser publicado no sábado, 5 de Janeiro de 2008.

O que é grave é que há muito pouco de verdadeiramente novo; e, por isso, jornalisticamente, o importante é noticiar e denunciar o conservadorismo.

Mal-grado a globalização, a Web, a clonagem, a liberalização do aborto ou o casamento dos homossexuais, as coisas não mexem, no plano político e social, porque os detentores do poder querem conservá-lo, querem manter-se no poder. Dos resultados das primeiras primárias nos EUA à sucessão de Benazir Bhutto, do impasse no Kosovo à história dos reféns na Colômbia, do atoleiro do Iraque à situação na Palestina, da consolidação de Putin à permanência do PC chinês, do reforço dos "ayatollahs" iranianos à eternização da família real saudita, os sinais são todos no mesmo registo.

Em Portugal, bastaria referir o recente acomodamento do poder económico à solução política do caso BCP. Mas, em termos mais genéricos, é bom recordar a imutabilidade do aparelho do Estado, a começar pela justiça, a influência do Governo em empresas fundamentais - CGD, PT, EDP, Galp, etc. -, a fúria legislativa do Governo contra os meios de comunicação social, o excedido prazo de validade de muitos dirigentes desportivos, o funcionamento dos mercados das artes plásticas, a actuação da CGTP, etc., etc. Como também é conveniente assinalar que, quando o actual Governo tenta sair do marasmo conservador, logo lhe caem em cima os outros poderes, acolitados pelos "opinion makers", esforçando-se por que tudo fique na mesma.

Ficar na mesma significa estarmos cada vez mais longe dos países com quem nos podíamos comparar, renunciarmos à luta, à competição, transferirmos cobardemente as responsabilidades para quem vier a seguir.

É mais difícil, fazer o Expresso em 2008 do que era em 1973?

Não, porque não existe a Censura.

Sim, porque, além de uma maior concorrência, da própria Imprensa, e, principalmente, da Televisão e da Internet, o conservadorismo é mais difícil de suportar e vencer em democracia.

Num jornal, o espaço é sempre limitado. Há, portanto, matérias que entram e outras que não são aproveitadas e, entre as que entram, a hierarquização, a colunagem dos títulos, a ilustração fotográfica ou infográfica permitem dar mais relevo a umas que a outras (a Internet resolverá o problema do espaço, mas, também nela, há que seleccionar o que tem lugar, e que lugar, na 1ª página do site, o que tem links e o que não tem, etc.).

A escolha e atribuição de prioridades às notícias e opiniões que agitem o pântano, incomodem seriamente os conservadores no poder, apresentem pistas e soluções novas para os problemas que os mesmos conservadores não querem resolver, constituem provavelmente o maior desafio para o jornalismo de qualidade e independente do nosso tempo.

Felizmente, o Expresso não é poder. Nunca aceitei que os "media" fossem o quarto poder. Um jornal não deve nem pode substituir-se ao Estado, não tem de assumir-se como grande educador do povo. E muito menos estar ao serviço de um projecto de poder pessoal, político ou económico.

A qualidade e a independência de um jornal revelam-se pelo percorrer de um caminho próprio: dar informação e veicular opinião, de acordo com critérios deontológicos, e permitir que o leitor tire, por si próprio, as suas conclusões.

Dizer que esta edição dos 35 anos do Expresso foi inteiramente dirigida por mim não corresponderia à verdade. Ultrapassei, porém, os termos mínimos da proposta inicial - substituir Henrique Monteiro neste espaço e escrever o editorial - e acabei por me empenhar pessoalmente em muitas das peças principais e secundárias, sobretudo do 1º Caderno e da Economia.

Dizer que isso não me deu um enorme gozo seria uma enorme mentira. Gostei francamente de tomar iniciativas, contactar fontes, filtrar e contrastar informações, editar prosas, arrancar com a nova secção das promessas cumpridas e incumpridas, escrever notícias, orientar entrevistas, escolher fotografias, fazer títulos, discutir a paginação e o grafismo, em suma, procurar dar um sentido ao jornal, atrair e servir o leitor.

Neste meu regresso temporário, encontrei, uma Direcção e uma Redacção do Expresso preparadas e motivadas para prosseguir a tarefa que há 35 anos encetámos, incluindo o desafio e a oportunidade que a Internet e as novas tecnologias de informação em geral nos oferecem.

Fizemos, penso eu, mais uma boa edição, com a inestimável colaboração de companheiros da primeira hora, como João Bosco Mota Amaral, Fernando Ulrich e Juán Luis Cebrián e de tantos outros amigos que contribuíram com pistas para notícias e com artigos de opinião.

Daqui a 5 anos, se me convidarem, cá estarei, para comemorar os 40 anos. E para não perder a mão...

Francisco Pinto Balsemão