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Expresso

Fernando Madrinha

Um português na Europa

A história política de Francisco Lucas Pires, que há dez anos faz falta na vida pública nacional e europeia, é a história atribulada de um líder partidário que nunca chefiou um governo, mas que se preparou melhor para governar do que muitos primeiros-ministros. É a história de um constitucionalista emérito que pôs o seu saber académico ao serviço do pensamento político, nomeadamente nos parlamentos para que foi eleito repetidas vezes (Lisboa e Estrasburgo). É a história de um professor cativante que marcou gerações de alunos de Direito em Coimbra. E é a história de alguém que, num país cronicamente alheado da Europa, pensou a construção política europeia tão bem ou melhor do que as figuras de proa que essa Europa inteira se habituou a venerar.

Eleito eurodeputado pelo CDS e, depois, pelo PSD, Francisco Lucas Pires foi, em Portugal, o primeiro 'senhor Europa'. Criticaram-no por ter começado na ponta direita e acabado no centro-direita. Mas houve quem fizesse viagens bem maiores e mais vertiginosas sem que se percebesse o porquê. No seu caso, foi o trabalho em Bruxelas e Estrasburgo que lhe granjeou apoios e reconhecimento num eleitorado bem mais vasto do que o do primeiro partido por que se candidatou. Tanto assim, que, concorrendo pelo mesmo CDS que em eleições legislativas foi caindo até aos 7% de hoje - e que se ficou pelos quatro com Adriano Moreira ao leme -, Lucas Pires chegou a ultrapassar os 15% como candidato ao Parlamento Europeu. Eram eleitores que só por sua causa votavam no CDS e que não vinham da extrema-direita antieuropeia, a qual nunca teve expressão eleitoral fora do próprio CDS: vinham do centro político que alimenta o PSD e PS.

O divórcio do CDS foi, aliás, forçado pelas distâncias em relação à Europa que o partido tomou após a saída de Freitas do Amaral e que viria a abandonar mais tarde. Um dos 'ideólogos' dessa tal política era, por sinal, o então jovem Paulo Portas, hoje europeísta convicto e defensor do Tratado de Lisboa. Não foi Pires que mudou, portanto, mas o partido por que se candidatava. A sua aproximação ao PSD correspondeu, por isso, a uma aproximação natural aos seus eleitores.

Quando digo que Lucas Pires se preparou melhor para governar Portugal do que muitos primeiros-ministros, não estou a usar de palavras de circunstância em tempo de homenagem. Enquanto líder do CDS, ele inspirou aquela que foi, seguramente, a mais profunda e sustentada reflexão à direita sobre os caminhos que Portugal devia tomar no pós-revolução.

No Programa para uma Nova Década, que ficou conhecido por Grupo de Ofir (1984-85), foram enunciados os principais problemas e bloqueamentos do país, que são praticamente os mesmos de hoje. E foram apresentadas soluções - desde a urgente reorganização do Estado a uma aposta forte na Educação, na Ciência e na Cultura - que são as soluções de que o país ainda hoje carece e que, por curiosa ironia política, começaram a ser ensaiadas pelo actual Governo socialista. Vinte e quatro anos depois, o essencial do programa de Ofir continua actual e por cumprir - o que diz tudo sobre a lucidez de quem o inspirou.

Poupar na demagogia

Agora já ninguém tem dúvidas de que a crise vai bater forte e feio. Por mais que se tente controlar esse cavalo sem freio a que chamamos mercado, os preços dos combustíveis induzirão aumentos em todos os sectores da economia. E por mais que as boas colheitas previstas para este ano a nível mundial possam travar o ritmo da subida de preços dos bens alimentares, é certo e sabido que não voltarão ao que eram. O último ano de mandato do actual Governo adivinha-se, pois, ainda mais complicado do que os anteriores.

A emergência da crise não põe, nem deve pôr o combate político entre parêntesis; pelo contrário, tenderá a torná-lo mais duro. O facto de o maior partido da oposição estar em fase de mudança de líder e este precisar, a seguir, de se afirmar contra o Governo, mais agitação prenuncia. E pode até ser útil.

Há dois pontos, porém, em que Sócrates tem razão e que as oposições talvez devessem ponderar. O primeiro é o de que tudo deve ser feito para evitar que as contas públicas derrapem de novo. Se o país concluir que os sacrifícios dos últimos anos foram inúteis, nunca mais ninguém terá autoridade moral e política para lhe falar de défice e justificar novos apertos de cinto. O segundo é o de que, especialmente em época de crise, a oposição tem, tanto como o Governo, o dever de poupar na demagogia. Lá porque Manuela Ferreira Leite defende que o PSD deve preocupar-se com os novos pobres, Santana Lopes não precisa de vir a correr gritar que hoje há fome no país. Como se algum dos 15 governos anteriores - para falar só dos constitucionais - alguma vez a tivesse eliminado.

O lobo do homem

Entre a civilização e a barbárie vai um passo, todos sabemos. Mas uma coisa é sabê-lo pelo que diz a História, ou porque Hobbes nos ensinou, outra coisa é ver com os próprios olhos, ainda que pela televisão, o homem como lobo do homem. Quando o Estado se demite ou se revela incompetente - sucedeu agora na África do Sul, mas pode suceder em qualquer lugar - a natureza humana logo revela o pior de si. A caça ao imigrante moçambicano e zimbabweano, morto a eito, à paulada, com catana ou pelo fogo, aí está como explosão brutal e perturbadora do ódio ao outro, incontrolável. Enquanto espécie, parece que pouco avançámos, afinal.

Fernando Madrinha