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Fernando Madrinha

Sem desculpa

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Após seis meses de ilusão e teimosia, José Sócrates enfrenta a realidade. O plano de austeridade que aí está contraria todas as promessas, desautoriza todas as previsões, desmente todas as proclamações solenes e definitivas com que tentou fugir ao inevitável. E, mesmo assim, foi preciso ser colocado entre a espada e a parede por Bruxelas, que agora se tornou abertamente a sede do poder político nacional.

A situação piorou nas últimas semanas, diz Sócrates. Mas os ataques ao euro não explicam tudo e talvez não chegássemos a este ponto se tivesse dado atenção aos alertas que há muito se fizeram ouvir, nomeadamente de Belém.

O longo processo de transição no PSD retardou o acordo político para fazer passar no Parlamento as medidas duras que o PS não tinha condições para aprovar sozinho. Mas ainda teve que ser o novo líder social-democrata a dar os passos necessários, engolindo muito do que disse na campanha interna e pedindo agora desculpas por essa incongruência.

O plano conhecido na quinta-feira é para um ano e meio. Mas, no fim de 2011, o défice estará nos 4,6%. Mais austeridade será necessária para que fique abaixo dos três por cento. E mais ainda para o conter nesse valor, como admite o próprio ministro das Finanças. É esta perspectiva de austeridade perpétua num país já exaurido que mata a credibilidade e a confiança de que fala Sócrates - mas a credibilidade e a confiança nos responsáveis políticos. Como pode essa confiança existir quando um chefe de Governo nos declara campeões do crescimento económico num dia, sabendo que, no dia seguinte, vai tomar medidas tão drásticas como as que foram anunciadas? Ou quando um líder da oposição pede desculpas, horas depois de subscrever um acordo com o Governo, por estar a fazer o contrário do que afirmou semanas antes?

Se forem para valer, as tréguas entre os maiores partidos propiciarão um mínimo de estabilidade política e pode ser que o compromisso desta semana seja levado a sério por quem, lá fora, tem o nosso futuro nas mãos. Mas a credibilidade e a confiança dos portugueses no que lhes dizem os dois líderes da austeridade essa está ferida de morte.

O Papa que não sorria

Este era o Papa que, segundo os seus críticos, não condenava os casos de pedofilia na Igreja Católica com a clareza necessária, apesar de já o ter feito repetidas vezes. Na viagem para Lisboa, afirmou: "O sofrimento da Igreja vem do interior da Igreja, dos pecados que existem na Igreja". Mais: "O perdão não exclui a Justiça". Isto para quem ainda tivesse dúvidas, ou estivesse para as inventar, sobre o modo como Bento XVI entende que devem ser tratadas as "ervas daninhas" da sua Igreja.

Este era o Papa retrógrado e fundamentalista, supostamente intolerante para com as outras religiões e os que não têm religião alguma. No Centro Cultural de Belém, disse: "A convivência da Igreja com outras 'verdades' e com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer".

Este era o Papa enquistado na sua fé, conservador passadista e portanto incapaz de promover o diálogo inter-religioso e de fomentar o ecumenismo. Afirmou a propósito: "O diálogo, sem ambiguidades e assente no respeito entre as partes envolvidas, é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai". E ainda, sobre a diversidade cultural e a relação entre culturas: "É preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem a enriquecer-se com ela".

São exemplos apenas de como, nestes dias de visita a Portugal, Bento XVI passou o tempo a desmentir os mitos, as falsidades e os juízos errados que muitos críticos encartados põem a correr sobre ele e sobre o seu pensamento.

Este era também o Papa que não sorria, incapaz de um gesto afectuoso e de estabelecer empatia com as audiências. Mas vimos como se dirigiu aos jovens na Nunciatura e como eles lhe responderam, vimos como as multidões o receberam no belíssimo palco do Terreiro do Paço, no impressionante cenário de Fátima e na Avenida dos Aliados, ou como o aplaudiram no Centro Cultural de Belém. Compreende-se que tudo isto irrite os que detestam o Papa e o que ele representa. Mas enquanto não lhes for possível mudar o povo, esse empecilho que lhes trava o passo na política e nos seus esforços para derrubarem os valores que a Igreja defende - muitas vezes de modo incoerente, é certo, e não raro contraditório com a prática de alguns dos seus membros -, têm que ter paciência. Eles, que são criaturas perfeitas e exigem uma Igreja perfeita, embora só esta que combatem assanhadamente e não outras bem menos tolerantes, o que têm a fazer agora é meter a viola no saco.

O TGV do Poceirão

Os políticos - os de cá e os de todo o mundo - andam à procura de um economista que não existe: aquele que tenha uma receita segura para acabar com a crise. Enquanto tal não acontece, as opiniões dividem-se e baralham quem tem que decidir: um país endividado e sem crédito não pode fazer investimento público; mas se não for o Estado a investir, ninguém o faz por ele em tempo de crise. O debate sobre as obras públicas é, por isso, menos bizarro do que parece. Bizarro, sim, será um TGV para Madrid com embarque no Poceirão, visto que não se sabe quando nem se haverá dinheiro para o trazer até Lisboa. É a anedota que faltava na história das obras públicas em Portugal.

fjmadrinha@hotmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010