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Fernando Madrinha

Ouvir os gregos

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Um banqueiro lúcido e capaz de dizer o que pensa sem panos quentes nem rodriguinhos, Fernando Ulrich, afirmou esta semana que é "impensável" obter no estrangeiro o dinheiro que o Governo, as autarquias e as empresas públicas que dão prejuízo tencionam pedir e gastar até ao fim de 2013: a módica quantia de 45 mil milhões de euros. Quer dizer, num país sob "bombardeamento fiscal", segundo a expressão de Paulo Portas, e ao qual vão ser extorquidos dois mil milhões de emergência para pagar juros de dívidas, há quem tencione pedir mais 45 mil milhões em quatro anos para somar às dívidas existentes. E depois vem o primeiro-ministro queixar-se da especulação contra o euro.

Se há alguém interessado em vender dinheiro com lucros chorudos são os bancos certamente e mais ainda para obras públicas, que beneficiam do "conforto" do Estado. Assim o tenham disponível - e não vão tê-lo, como todos reconhecem. Mas isso pouco importa a um Governo que, apesar do beco escuro em que nos meteu - e que, de facto, se tornou ainda mais escuro com os ataques ao euro - continua a sonhar com obras miríficas e a fingir que quase nada se passa.

Na mesma conferência da "Exame" em que Ulrich falou sobre a "parede" que podemos ter pela frente de um momento para o outro, encontrava-se o ministro Vieira da Silva, o génio da lâmpada na reforma da Segurança Social, que Sócrates importou para a Economia sem que até hoje se perceba muito bem porquê. E o que disse ele sobre as declarações do presidente do BPI? Que Portugal "sempre teve capacidade para se financiar" e que "nada mudou radicalmente" nos últimos dois anos para deixar de a ter. Isto no mesmo dia em que o primeiro-ministro foi à RTP repetir até à exaustão que o mundo mudou radicalmente nas últimas semanas, embora ele próprio nada tenha mudado. Bem podia ter avisado o seu ministro da Economia. E, já agora, o das Obras Públicas, que, pelo andar da carruagem, ficará para a história como o descobridor do Poceirão, essa aldeia do célebre deserto de Mário Lino que há-de ser o ponto de chegada e de partida do futuro TGV para Madrid... ou para o Caia.

Quando o céu lhes caiu em cima, os gregos interrogavam-se nas ruas de Atenas, entre a raiva e o desespero: "O que fizeram ao nosso dinheiro? E aos milhões que vieram da Europa? Quem tomou as decisões que nos trouxeram até aqui não é responsabilizado?" Pelo nosso lado, tivemos jipes IFADAP aos milhares e novos-ricos fulminantes antes de um pré-anúncio do pântano. Seguiu-se o discurso da tanga e é de tanga que estamos a afogar-nos no pântano. Vai sendo tempo de olharmos para os gregos e fazermos as mesmas perguntas - embora todos conheçamos as respostas.

Uma questão de decoro

Por falar em banqueiros, os alertas de Ulrich foram seguidos pelos seus pares num fórum realizado esta semana. Ouviram-se apelos dramáticos à poupança dos portugueses: não podemos viver mais tempo acima das nossas possibilidades. Sem dúvida. Mas não foram estes mesmos senhores que, nas últimas décadas, andaram também a endividar-se para impingirem empréstimos a toda a gente, de modo a engordarem os lucros dos accionistas e os seus próprios prémios de gestão, enquanto ofereciam aos portugueses todos os sonhos do mundo? E aparecem agora como moralistas do regime sem, ao menos, um "mea culpa"? Digamos, para dizer o mínimo, que faz falta algum decoro.

Vivemos tempos estranhos e não é só da boca de políticos que ouvimos coisas improváveis. Quando Belmiro de Azevedo proclama que "o povo quando tem fome tem o direito de roubar" - estará a pensar nos seus supermercados? -, é caso para concluirmos que o bom senso anda um tanto arredio. Não do povo, mas de certas figuras da chamada elite.

As palavras e os actos

O PCP apresentou uma moção de censura ao Governo por entender que ele merece censura, embora sabendo que essa moção não passaria. Duas semanas depois de um acordo com José Sócrates, era óbvio que o PSD não iria votar a favor do derrube do Governo. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo - o que sempre abona a favor de algum sentido de responsabilidade -, o PCP quis marcar a sua posição. Em nome do que considera ser a coerência entre as palavras e os actos, algo que, não sendo um valor absoluto, ainda é um valor, se bem que em desuso.

Coerência entre as palavras e os actos foi tudo o que não houve na solene comunicação do Presidente da República acerca do casamento gay. Cavaco Silva é contra, mas promulgou o diploma. Com o argumento da crise e a explicação de que, se acaso vetasse, a esquerda voltaria a aprovar a lei.

Ora, a política não acabou com a crise; pelo contrário, em situações de crise pedem-se atitudes políticas ainda mais claras. E a posição do Presidente teria ficado menos sujeita a interpretações sobre o seu calculismo político e eleitoral - a promulgação acabou por ser anunciada, talvez não por acaso, num dia festivo para os homossexuais - se Cavaco se tivesse poupado à solenidade de uma comunicação ao país, expondo toda a fragilidade da sua posição nesta matéria. Promulgava o diploma sem mais explicações, ou com uma mensagem como as que tem feito noutras situações, se a isso o obrigava a sua "ética de responsabilidade"; ou vetava-o e assumia a sua divergência com a maioria parlamentar se, à semelhança do que fez o PCP no caso da censura, entendesse valorizar a tal coerência entre as palavras e os actos. Em política é raro ganhar-se a dois carrinhos.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010