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Fernando Madrinha

O preço das elites

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Num país onde a pensão mínima do regime geral é de 379 euros para os que descontaram durante 30 ou mais anos - já não falamos de quem tem menos de 15 anos de contribuição e recebe 246 euros, ou apenas 227 se trabalhou no campo, ou 189 se aufere a pensão social - uma reforma de 175 mil euros mensais (vezes 14, ano após ano) é uma obscenidade e uma afronta. Uma obscenidade em si, quer seja pública ou privada a entidade que a suporta, e uma afronta aos milhões de portugueses que trabalham para conseguirem pouco mais do que sobreviver.

Essa pensão irreal - um primeiro prémio na lotaria, mensal e vitalício -, existe mesmo, segundo notícias não desmentidas: é a de Jardim Gonçalves, o ex-presidente do Millennium/ /BCP. Junta à pensão milionária outras necessidades que vão de um avião particular ao dispor até seguranças privados às dezenas, pequenos nadas que o banco pagava, mas agora resiste a suportar. E Jardim queixa-se. Trata-se de um banco privado, dir-se-á, e os accionistas gastam o dinheiro como entendem. Sucede que a esmagadora maioria dos accionistas, excluindo talvez o pequeno grupo dos que detêm a maioria do capital, não foram tidos nem achados nesta história, nem, muito provavelmente, a conheciam. Além disso, o dinheiro de um banco não pertence apenas aos accionistas, mas aos seus clientes e depositantes.

Quem leia jornais e frequente a blogosfera todos os dias é confrontado com escândalos deste tipo, ainda que de menor dimensão - pensões absurdas, muitas delas adquiridas em escassos anos de trabalho e auferidas em acumulação com outras pensões. E quem veja televisão todos os dias se depara com ex-ministros e ex-banqueiros ou gestores, que somam reformas de várias comissões de serviço, a arengarem sobre a crise e a exigirem, do alto do seu conforto milionário, sacrifícios múltiplos a quem se sacrificou a vida inteira. Jardim é um caso extremo e chocante, talvez único pela exorbitância dos valores em causa. Mas dos seus 175 mil euros para baixo, até aos cinco ou seis mil das prestações mais altas da função pública, não faltam exemplos conhecidos de pensões múltiplas e fartas para pessoas que já na vida activa beneficiaram, ou continuam a beneficiar, de salários e prémios altíssimos, os quais estão, aliás, na origem dessas reformas prodigiosas. O Governo de Sócrates já fez alguma coisa para moralizar a situação. Foi, aliás, o primeiro a dar um passo nesse sentido. Mas é preciso muito mais para que o discurso sobre a crise e os sacrifícios não soe a falso. Se este é o preço dos nossos gestores de elite - começando pelos que depois aparecem a contas com a Justiça -, alguém tem de lhes dizer que o país, infelizmente, não está à altura da sua enorme competência e da voracidade com que se fazem pagar.

O outro discurso do PR

No Dia de Portugal, Cavaco fez um discurso previsível sobre a crise. Reclamou os louros de ter alertado para a situação "insustentável" a que chegámos e indicou a forma de lhe responder: "coesão nacional", "repartição equitativa e justa" dos sacrifícios e uma explicação permanente - que tem faltado - sobre "a razão de ser" desses sacrifícios e o seu alcance, pois importa que a sociedade "se reveja no rumo da acção política".

Antes deste discurso certeiro mas previsível, Cavaco fez outro, mais inesperado. Perante forças em parada, sublinhou a necessidade de "valorizar o potencial do país em várias frentes, incluindo a militar". Lembrou que "a redução da capacidade das Forças Armadas tem historicamente coincidido com o aumento das vulnerabilidades nacionais e o esquecimento da voz de Portugal no concerto das nações, como Estado soberano e independente". E apelou à preservação da sua operacionalidade como "um superior interesse da nação".

É um discurso que, podendo ser feito em qualquer 10 de Junho, desperta maior interesse num momento em que estão bem patentes as tais vulnerabilidades nacionais. Tanto que, esta semana, o próprio Cavaco sentiu a necessidade de responder à letra a um comissário europeu que deu orientações a Lisboa sobre reformas a fazer. Mas as Forças Armadas não vão responder a Bruxelas ou Berlim sempre que estas tentem pôr-nos a toque de caixa, como se escreveu aqui há uma semana. Nem Cavaco está a sugerir que a crise acabará num conflito militar em larga escala - embora essa hipótese esteja na cabeça de muita gente. Ao recolocar os militares no centro das atenções políticas, Cavaco limita-se, por ora, a olhar para um velho pilar do Estado que encara como último recurso, no plano externo e no plano interno, quando outros pilares estão a soçobrar. Um sinal dos tempos.

Poupar nas medalhas

É um vício antigo a que nenhum Presidente escapa: quanto mais generosa a distribuição de medalhas, mais se desvalorizam as condecorações e se apouca a distinção dos que merecem ser distinguidos. Em cada lista do 10 de Junho, há gente cuja condecoração é mais do que justificada e gente que lá aparece como que para preencher uma quota - a de certa área profissional, a dos amigos políticos, ou, até, a dos adversários, para se fazer prova de pluralismo. Uma condecoração é uma honra que o próprio não deve recusar. Mas o Presidente não precisa de agraciar todos os anos uma multidão, quando só uma meia dúzia merece colares, grã-cruzes e comendas. Poupe-se nas medalhas, não só por causa da crise, mas porque é assim que se lhes dá valor.

fjmadrinha@hotmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010