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Expresso

Fernando Madrinha

O homem mudou?

Ou porque não fechou nenhuma fábrica nas últimas duas semanas, ou porque entre o ser candidato a líder e o ser entronizado líder, Luís Filipe Menezes mudou de táctica. Certo é que não o vimos por aí à espreita do primeiro protesto para ir associar-se a ele. Sobre a Ota/Alcochete diz que aguarda estudos antes de se pronunciar, sobre o referendo ao tratado europeu alinha por Cavaco e Sócrates e não se viu até agora a reproduzir "soundbytes" ou a gritar muito alto para se fazer ouvir. Adoptou pose de Estado e nem o afastamento dos presidentes de três comissões parlamentares - lidos por toda a gente como aquilo que eram: saneamentos políticos - caíram sobre a sua cabeça. Sendo matéria de Santana, foi Santana que recebeu as críticas e assim se provou que a famosa bicefalia também pode, afinal, ser vantajosa para o líder.

Duas semanas não dão para nada e a qualquer momento pode voltar o choradinho populista com que Menezes se fez eleger. De momento resiste, seja por convicção ou por táctica. E talvez isso explique a expectativa favorável com que o eleitorado parece tê-lo recebido, a julgar pela sondagem da Marktest que a TSF e o 'DN' divulgaram ontem e que dá praticamente um empate entre o PS e o PSD. Com isso se prova que os êxitos europeus do Governo não pagam popularidade internamente. E que um belo património de intenções de voto como aquele que o PS tem tido pode a todo o momento esfumar-se. A manifestação do Parque das Nações já o sugeria e é bem possível que o clima político esteja a mudar para Sócrates. Tem muito trabalho pela frente se quiser - e ainda puder - dar a volta à incerteza e ao descontentamento que grassa.

No metro de Barcelona

As imagens foram registadas pelas câmaras do Metro de Barcelona e as televisões deram-lhes a justa e justificadíssima divulgação. Um 'cabeça-rapada' entra numa carruagem falando aos gritos pelo telemóvel, senta-se pesadamente num banco, atirando os pés para o banco da frente, como se estivesse em casa e fosse o dono do mundo. Levanta-se de súbito e, sempre ao telemóvel, agride repetidamente uma jovem sentada ali perto. Primeiro à bofetada, por fim a pontapé. As câmaras mostram-no depois, saciado o ódio racista, a sair calmamente da carruagem, sempre ao telemóvel, como se nada se tivesse passado. Como se as agressões que acabava de cometer contra a rapariga equatoriana fossem gestos naturais em si, mil vezes repetidos impunemente, sem resposta nem consequências.

Indefesa, a rapariga. E só. Tão só que a sua solidão nos impressiona e repugna tanto como a própria agressão de que estava a ser vítima. Naquela carruagem, não se viu um gesto nem um protesto, não se ouviu um grito nem um alerta. Todos os passageiros continuaram placidamente sentados e tranquilos nos seus lugares, sem que aquela agressão parecesse violentar a sua consciência, ou ofender a sua humanidade. Nenhum deles se sentiu obrigado a intervir, a dizer uma palavra ou a esboçar um movimento que fosse para travar o canalha, que mais tarde se desculpou com a bebedeira e que a polícia acabou por mandar em paz. Assim ficou o crime uma vez mais sem castigo e se reforçou o sentimento de impunidade dos delinquentes racistas que, aliás, não são apenas brancos, como sabemos bem.

Cenas como a do Metro de Barcelona nem sempre chegam às televisões, mas são cada vez mais frequentes nas cidades da velha Europa. 'Cabeças-rapadas' e marginais de várias espécies mascarados de nacionalistas multiplicam-se e exibem-se com descaramento cada vez maior. Partidos da extrema-direita racista e xenófoba ganham força um pouco por todo o lado, em especial no Leste Europeu. E na muito neutral e asséptica Suíça, um desses partidos acaba mesmo de ganhar as eleições legislativas.

Por medo do 'cabeça-rapada', ou, pior ainda, pela maior das indiferenças quanto ao destino da jovem equatoriana, os passageiros do Metro de Barcelona deixaram que ela fosse agredida gratuitamente sem levantarem um dedo para a defender. O comodismo, a inércia ou a cobardia deixaram-nos pregados nos seus lugarzinhos, julgando-se seguros e sem perceberam que a agressão também era contra si. Em certo sentido, era a Europa inteira - uma Europa gorda e egoísta, que só conhece a liberdade e a considera adquirida para sempre - quem viajava naquela carruagem.

A pergunta vital

Enquanto Sócrates celebrava merecidamente o acordo para o tratado de Lisboa, no Parlamento e nos fóruns radiofónicos e televisivos zurzia-se o tratado e os seus defensores e gritava-se por um referendo. Sem dúvida que a falta de um referendo - se for essa a opção do Governo - deixa em xeque o PS e o PSD, porque o prometeram. Mas toda a gente sabe também como as questões nacionais têm desvirtuado os referendos sobre a Europa, com os eleitores a votarem de raiva, não propriamente contra os tratados e o projecto europeu, mas contra o desemprego, as condições de vida e o governo de serviço. Daí que a proposta de Vital Moreira no blogue 'Causa Nossa' seja uma forma de ir ao essencial, que ninguém discute mas alguns insinuam - que a Europa não nos convém - sem passar pelo acessório. Faça-se um referendo, não sobre o tratado, mas com a pergunta 'vital': "Portugal deve sair da UE?" Este, sim, era o referendo que se impunha para acabar de vez com as dúvidas.

Fernando Madrinha