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Fernando Madrinha

O factor Nobre

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Mário Soares tem razão ao considerar "despropositado" discutir as presidenciais à distância de um ano e quando o país enfrenta os demónios que andam aí à solta. Mas Mário Soares não é candidato. Se fosse, provavelmente diria algo diferente. Até porque mais adiante, na entrevista a Mário Crespo, observava, com aparente surpresa e em tom de lamento, que a mesma comunicação social que tanto fala de Alegre não tem dado a Fernando Nobre a atenção que, do seu ponto de vista, ele merece. Ora, falar de Nobre é falar das presidenciais que Soares diz não compreender que se discutam desde já...

Mais crise, menos crise, teremos eleições em Janeiro. E a partir do momento em que um dos principais concorrentes, Manuel Alegre, se apresenta formalmente, elas entram na agenda política regular. Soares está no centro desse debate, querendo ou não - e quer, obviamente, ou talvez nem tivesse dado esta entrevista, ainda que a pretexto de um novo livro, na semana em que Alegre se apresentou. A sua influência num PS dividido acerca do candidato-poeta pesa bastante. Pode-se dizer mesmo que a falta do apoio de Soares nesta fase da candidatura prejudica Alegre tanto ou mais do que a demora da direcção do PS a dar-lhe o "sim". Até porque tudo indica que este virá em breve e o de Soares, com toda a força que a sua opinião ainda tem entre socialistas, não socialistas e, sobretudo, nos media, não é certo que algum dia chegue.

Se não chegar, Alegre terá falhado o seu propósito de mobilizar toda a esquerda, que o levou a tentar a quadratura do círculo esta semana saudando, no mesmo discurso solene de candidatura, as duas figuras tão dificilmente compatíveis que quer juntar como seus apoiantes: Francisco Louçã e José Sócrates.

Percebe-se a mal dissimulada ansiedade de Alegre. A demora socialista fragiliza-o. E a presença de outro candidato no terreno inquieta-o. Na verdade, por mais irrelevante que agora pareça, a candidatura de Fernando Nobre é uma incógnita de primeira grandeza quanto ao desfecho da eleição presidencial. E não só para Manuel Alegre. Aliás, ela favorece o candidato-poeta. Os votos que Nobre tiver não virão apenas da esquerda. E, poucos que sejam, podem revelar-se bastantes para retirar a Cavaco Silva, que em 2006 ganhou por apenas 0,6 por cento, a vitória na primeira volta.

Num país zangado com a sua classe política e que não se sabe em que situação económica e social se encontrará no fim do ano, não é certo que o actual Presidente passe incólume os cinco anos de coabitação com José Sócrates, primeiro cordata, depois tensa ou mesmo conflitual quanto a grandes opções políticas. E um candidato não alinhado partidariamente, com o perfil do fundador da AMI, é uma pedra na engrenagem com consequências imprevisíveis. Mário Soares acarinha-o e valoriza-o - até na veemência com que recusa a ideia de ser o seu patrocinador -, tendo o aparente propósito de enfraquecer Alegre, que nas eleições de há cinco anos o empurrou para o terceiro lugar. Na prática, porém, Fernando Nobre pode revelar-se uma surpresa desagradável, não para Alegre, mas para Cavaco, forçando-o a uma segunda votação de desfecho incerto ou, pelo menos, diminuindo-o perante os outros ex-Presidentes, todos reeleitos à primeira com esmagadora vantagem. Para a História, o grande rival de Soares não é Alegre, mas sim Cavaco. E isso, mais do que o terceiro lugar que obteve em 2006, pode explicar a resistência do ex-Presidente ao candidato-poeta e a simpatia com que encara o factor Nobre.

Fugir dos azares

O deputado socialista Ricardo Rodrigues concedeu uma entrevista à "Sábado". Quando as perguntas começaram a desagradar-lhe, levantou-se, meteu ao bolso dois gravadores dos jornalistas e deixou-os de cara à banda. Contada assim, a história até tem graça. Quantos não foram já acometidos dessa vontade de acabar com uma entrevista a meio por causa de perguntas incómodas? Mas surripiar os gravadores é algo de original. Original e estúpido, visto que a conversa estava a ser gravada em vídeo, decerto com conhecimento do entrevistado.

Queixou-se o vice-presidente da bancada socialista de estar a ser alvo de "violência psicológica insuportável". Pois, que sevícias lhe aplicavam os jornalistas da "Sábado"? Perguntas. Perguntas sobre duas situações antigas em que o seu nome apareceu envolvido: em notícias sobre um caso de pedofilia, no qual, de facto, não foi sequer chamado pela Justiça, percebendo-se aqui a sua indignação, ainda que tivesse mil formas de responder, porque quem não deve não teme; e num outro caso em que, como "advogado, sócio e procurador de uma sociedade offshore", se terá envolvido com "um gangue internacional". Esta expressão pertence ao jornalista Estêvão Gago da Câmara que por ela respondeu num processo em que viria a ser ilibado. O Tribunal da Relação de Lisboa entendeu que tal expressão era "justificada pelos factos".

Antes de se ter levantado para meter os gravadores no bolso e desandar, o vice-presidente da bancada do PS desabafara, como quem pedia que o deixassem em paz: "Eu já tive os meus azares". Agora contabiliza mais um. Ricardo Rodrigues não fugiu só das perguntas dos jornalistas: fugiu do seu passado, com dois gravadores no bolso. Pensando, ingenuamente, que um passado se apaga com a mesma facilidade com que se apaga uma fita magnética. Depois veio o PS solidarizar-se, pela voz de Francisco Assis. Ora, que o deputado tente fugir dos seus azares é compreensível. Estranho é que um partido com tantos azares na sua história recente corra atrás dos azares de Rodrigues, em vez de fugir deles também.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010